As Condenadas da Terra

Artes Performativas

Uma jovem é levada pelo pai para uma espécie de orfanato, nos anos 60, para servir senhores. A jovem podia estar num quadro de Paula Rego mas vai acabar num livro de Afonso Cruz. O livro surge num palco como motivo e adereço de uma peça sobre o monstro do outro e o monstro que há em nós. A peça chama-se Bonecas, mas é só uma pequena parte desta história.

A escravatura está no meio de nós. Podemos não a querer ver, podemos utilizar recursos semânticos para a disfarçar perante nós próprios. “Não vejo, não ouço”. Não é uma peça-manifesto mas é uma peça que quer mostrar o que ainda acontece no meio de nós e não queremos, conseguimos ver, esta “Bonecas” em cena no TeCA, a partir de um conto inédito de Afonso Cruz e do universo de Paula Rego.

“Fala-se de escravos no passado mas continuam a haver escravos, que estão no meio de nós e alguns até podemos ser nós”, adverte a encenadora. “Neste trabalho tentamos dar uma visão mais multifacetada neste tema que é tão forte”. Não é uma peça-manifesto. “Tentamos fugir a maniqueísmos”, explica José Miguel Soares, “a interpretações lineares e tentamos olhar para o monstro que há no outro e para o monstro que há em nós”.

O monstro inicial é o pai de Sãozita que a levou para um lazareto, largada ali onde eram as jovens eram entregues para aprenderem toda uma série de funções sociais, de servir à mesa a servir o senhor, feita escrava. Sãozita ainda não tinha nome quando a sua história verídica chegou contada por Afonso Cruz à Malvada Associação Artística mas foi em seu nome que entrando pelo universo feminino de Paula Rego começou a ser abraçado o projeto. Partindo daquela história e deste universo pictórico, conta Ana Luena, houve um trabalho de perceção da violência sobre raparigas institucionalizadas, “sabemos que neste tipo de instituições há dinâmicas que se criam entre pessoas, dinâmicas de poder e de submissão e até de violência, entre elas”, explica a encenadora, referindo-se aos outros monstros.

Dentro do abraço de que Bonecas é um colo, surgem então as experiências partilhadas com um grupo de raparigas (de entre 15 e 16 anos) de um centro de acolhimento temporário e com mulheres vítimas de violência doméstica acolhidas numa casa-abrigo agrícola em Évora. Foi um trabalho mais artístico, que incluiu uma exposição de fotografia e uma representação performativa, para um público restrito, que deu para perceber as tensões, num contexto atual, presente, diferente do de Afonso Cruz e do qual surgiu material para abarcar no espetáculo. “É por territórios femininos e cruéis que se assiste a uma inversão de papéis, em que as vítimas são prisioneiras da sua própria condição de vítima e onde as intérpretes de Bonecas representam relações dicotómicas em que se confunde submisso e dominador”, sintetiza Ana Luena. A força e vulnerabilidade dos condenados da terra num retrato vivo.

O trabalho da Malvada Associação Artística, que pode ser visto no TeCA até ao próximo dia 21, desdobra-se para além do palco e foi desenvolvido ao longo do último ano traçando linhas e não tendo necessariamente um projeto final, de nome Bonecas. “Interessa-nos mais os pontos de fuga e daí que todos estes trabalhos que não foram planificados desde o início e foram autónomos, não para alimentar este espetáculo, criar em cada um deles um objeto artístico”, segundo explicou José Miguel Soares.

O espetáculo está em cena no TeCA até dia 21 de julho: às quartas e sábados, às 19h00; às quintas e sextas, às 21h00; e aos domingos, às 16h00. No dia 12 de julho, está agendada uma conversa pós-espetáculo, com elenco e direção artística. No dia 14 de julho, a récita conta com tradução em Língua Gestual Portuguesa. O preço dos bilhetes é de 10 euros.

Texto Filinto Melo / Fotos DR