Uma Imagem Vale Mil Palavras, Mil Caracteres Uma Imagem

rubrica

Saiu da igreja apressada, com a alma ainda inquieta. Nem as preces ajoelhadas foram suficientes para apaziguar emoções. Cá fora, o vento cortante encontrava caminho fácil pelas vielas durienses e fê-la aconchegar o casaco ao corpo e o cachecol passou a abrigo da cabeça. O desassossego tomara conta do seu tempo e era constante. Andava assim há uma semana, desde que o pai adoecera. Ele, homem bondoso, mas com tanto de teimoso como de orgulhoso, estava viúvo há tempo suficiente para ser capaz de aceitar o apoio da filha e, no entanto, a rejeitá-lo. Encontrava sempre uma desculpa. Umas vezes a cidade era fria e de certa forma tinha razão; outras, a aldeia onde nasceu e onde criou os filhos, mantinha com ele uma ligação forte e palpitante, de paixão inexplicável. Não o dizia, mas entendia. O irmão morrera nos confrontos do Kosovo em Maio de 99 e desde que abandonara a aldeia perdida na beleza verdejante das suas colinas e viera trabalhar para Portugal, nunca mais regressara. E a saudade mata, a saudade faz definhar as almas. Apaga-as. Saiu da igreja calada e desceu a calçada. Apressada.

<Texto de Cristina Vicente para Imagem de Paulo Pimenta>