Um Palco Craft para um Coração Cheio… Rita Do Vale Capela

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Recebes um vídeo viral num grupo e achas que é uma peça de teatro, porque é uma actriz que to manda. E depois já pensas como é fácil justificares que não vais a Londres ver a peça que ela afinal fez depois publicidade. Mas o vídeo – onde insiste que se partilhe – é sobre a criação de perucas iguais aos cabelos das princesas mais famosas da Disney. Servem para meninas que fazem tratamentos de quimioterapia. E a peça? A peça «A Nazi Comparison»  já foi.  E outras. É apenas teatro não é? É talvez a coisa mais importante da vida a seguir às coisas importantes. Serve para todas as artes e ninguém disse isto a não ser um treinador de futebol. Verdade. Paulo Autuori.

“Estou super feliz com a minha decisão de ter vindo para cá. Se tem sido fácil? Não, não tem, mas ai – Portugal – era menos fácil ainda. Vim para Londres experimentar outros mundos. Claro que fazer Teatro seria maravilhoso, mas em primeiro lugar queria alguma estabilidade financeira, coisa impossível em Portugal.

Rita Do Vale Capela.

– “Dois vodkas por favor” (música tauromáquica e espanto)

– Eh lá… vodka… mas vocês são suecos ou vão desinfectar uma ferida? Fez Dói Dói foi Bebé?

O auge dos Gato Fedorento e Zé Diogo Quintela a falar para a menina do Licor Beirão. Actriz, a menina que cresceu em telefilmes, telenovelas, curtas metragens e, claro, Teatro.

Just another portuguese in London?

Vim para cá à procura de melhores condições de vida. Sempre com o apoio incondicional da minha família, lá fiz as malas e vim. Claro que o Teatro não surgiu logo… ( teria o palco), mas assim que pude consegui uma bolsa e agarrei em todo o dinheiro que tinha amealhado durante toda a vida…. tirei um dos cursos mais ricos que poderia ter tirado.

Cozinha?

Primeira sessão de dores de barriga a rir com a escrita de facebook e de messenger mal instalado.

Podia ser, eu até gosto de cozinhar! Mas, neste caso, foi um curso direccionado para actores, escritores e encenadores. O director foi o grande Brain Astbury. O curso chamava-se “Forge Initiative”. De quatro em quatro semanas, nós escreviamos, produziamos e encenávamos um projecto novo. Isto, durante um ano. Foi maravilhoso (repete-se que na TKNT são sempre permitidos adjectivos)! Claro que cada projecto era orientado por um professor. Alguns deles ficaram meus amigos. E cada professor tinha a sua especialidade. Conforme a linguagem, assim a utlilizávamos para o referido projecto. desde Teatro Fisico, Musical, Documental, Experimental. Fizemos de tudo. E sempre Devised Theatre. Este curso deu-me uma bagagem enorme , juntando à já adquirida em Portugal.

Algo que não encontrarias numa escola por cá?
Não. Não sei de nenhuma escola em Portugal nestes moldes. Se há, eu não tenho conhecimento.

Hoje és mais actriz ou… ou mais outra coisa que se sente completa na boca de cena?
Eh pá pois essa é complicada. Explica lá melhor!

Deixa-me reformular… Hoje és mais actriz?.. sem medo. És mais actriz?
Neste momento estou numa companhia de teatro maravilhosa. E é formidável a sensação de que quando estou num projecto novo. Parece que pouco ou nada sei sobre o Teatro. No entanto, olho para trás e já fiz e aprendi tanta coisa diferente. Claro… sinto-me muito mais completa. Esse curso fez ver tudo de outro prisma. Uma vez que comecei a escrever sobre coisas que eu própria queria ver em palco, ao interpretá-las sabia muito bem o que queria passar. Tudo fica muito mais intenso. Tudo fica mais claro, tudo fica enorme, tudo fica com uma dimensão que ocupa o espaço.

Exactamente por isso te perguntava: hoje é a actriz que se sente a bomba de palco ou a actriz que sabe tudo o que é preciso fazer para se fazer uma cena seja de TV ou de Teatro? E isso ajuda ou faz-te pensar numa série de pormenores que antes não pensavas?

Não há pausas

Sim, sinto-me mais completa  (ela já o disse mas repete gentilmente) e mais capaz de expor, acreditando que aquilo que quero passar é muito válido e forte. Sem dúvida, abriu mil horizontes e hoje sinto-me mais livre, porque acredito mais em mim e isso dá-me mais liberdade. “A actriz que sabe tudo o que é preciso fazer para se fazer uma cena seja de TV ou de Teatro?” – acho que nunca vou sentir isso. Nem é o meu objectivo. Para cada projecto, cena, série, personagem, a abordagem é sempre diferente.

Cara ou Coroa?
Televisão ou Teatro?

E é isso que tanto amo nesta coisa que é a representação. É essa busca, seja para TV, Cinema ou Teatro, há uma busca incessante para alcançar o personagem. Claro que estas três vertentes, são percursos totalmente diferentes.

Ai que isso foi tão politicamente correcto! Deixa lá dar a volta … se estivesses em Portugal neste momento… o que achas que, de facto, hoje 24 de Julho (este tempo todo a entrevista a marinar) … o que estarias a fazer?

Não faço ideia, se calhar a dar em doida.

Já ninguém aguenta e agora sim a pausa é obrigatória para rir.

Fica a música de sugestão.

Não consigo estar à sombra da bananeira

Uma personagem numa novela da TVI ou SIC… não? Mais Licor Beirão? Curtas?

AHAHAHAHAH (assism mesmo em maiúsculas nas regras das coisas em grande) eu adorei fazer o Licor Beirão. sem desprezo foi das melhores pub’ deles

e…

(Agora não fugindo nem mantendo o politicamente correcto)

Sinto que em Portugal as coisas vão muito por circuitos e muitas vezes circuitos fechados. Há pouco dinheiro e por isso joga-se pouco.

Há pouco dinheiro ou pouco dinheiro nos sítios certos?

Pois … Essa é a eterna discussão. Existem casos , poucos mas existem de colegas meus como o João de Brito, que é uma autêntica fera e com muita luta e muita garra tem conseguido trabalhar e viver do Teatro / TV / Cinema. E com todo o mérito. Depois tenho outros colegas meus, excelentes actores, outros realizadores que não conseguiram sobreviver ( sim porque é mais sobreviver do que viver) e mudaram de ramo. Fui convidada para muitos projectos, alguns deles muito bons que ficaram pela promo ou pelo guião ou até mesmo no papel. Perante isto imagina o cenário. Talvez se eu fosse agora para Portugal, falasse directamente com as pessoas que admiro e com quem queria trabalhar. Antes de vir para cá não tive essa coragem. Mesmo com alguns convites de grandes encenadores, por uma razão ou outra, acabaram por não acontecer os trabalhos e eu também não quis esperar mais. Quis apostar noutros sítios.

Rita, gostávamos que fosses a protagonista de uma novela em horário nobre.

Um dos meus sonhos é trabalhar em Portugal e Inglaterra ao mesmo tempo. Adoro Portugal, Portugal é maravilhoso. E adorava trabalhar aí. Mas seria sempre para voltar cá depois do projecto. Queria muito estar a trabalhar nos dois países.

Camon… A Língua Inglesa é barreira?

(as perguntas alternam-se com as respostas em delay)

Gostaria, mais tarde , voltar de vez para Portugal para estar com a minha família. Pois bem… tudo depende do projecto.

Desculpa… quero mesmo a resposta… um palco de um teatro ou um enorme filme?

na na na na …depende mesmo. E sem dúvida, cá impera quem é nativo.

Ah a língua!

No entanto eu estou na companhia que sempre sonhei estar. O meu Inglês, se estivesse em Portugal , seria magnifico. Aqui é bom, mas serei sempre uma estrangeira a falar Inglês. Sou “exótica”, como me chamam. AHAHAHHAHAHA. Agora imagina dizerem isso na tua cara. A primeira vez que me disseram isso, fiquei meio chocada, porque na minha cabeça só via frutos exóticos.

Isso limita o número de casting e audições?

Depois de acabar o curso, fiquei a zeros, mesmo a zeros, pois todo o meu dinheiro foi para o curso.

O Crowdfunduing ajudou não?

O Crowfunding ajudou sim…  não só pelo dinheiro, mas pelo facto de muitas pessoas que não podiam ajudar monetariamente me terem ajudaram MUITO com inúmeras mensagens cheias de energia positiva. Isso para mim conta MUITO. Claro que aqui é tudo muito caro, o crowfunding ajudou um pouquinho, mas bem dito esse pouquinho. (havia no final desta frase um coração emoji)

Como estava a dizer … há que transcrever. Imagina fazer/escrever/ encenar um novo projecto a cada 4/5 semanas, repito. Antes do curso acabar já estava num projecto que foi até aos festivais de Camden Fringe e depois a Clapham Fringe. Foi muito giro ( encenador David Silva e actriz Michaela Ghiozzi).

apontando links de nomes… só um pouco

Ao acabar esta maratona e de bolsos vazios já num trabalho em Covent Garden, falei com um amigo realizador. Uma carga horaria imensa. Pouco tempo para dormir ou comer.

Bolsos vazios é mesmo bolsos vazios ou é puxar à historieta?

Bolsos vazios é MESMO bolsos vazios!

questionaste-te em algum momento Rita?

Oh pá tantas vezes

(Não gosto que ela me chame pá,… fico desconfortável… mas a sinceridade acaba com qualquer tentativa de sedução que possa existir no facto de a reconhecer ainda de caracóis e de dói dói, ou nas produções de um link que tem do youtube)

Mas, sem me aperceber, já estava a escrever um projecto ou num casting ou a escrever. Como te disse não consigo estar parada

Qual era a rotina nesses dias?

Chegou uma altura em que acordava as 5h30 da manhã , conduzia durante quase duas horas, tinha aulas, voltava para Londres, ainda ia ter ensaios ou trabalhar fora do teatro. Aos fins-de-semana trabalhava sempre. Praticamente não tinha um dia de folga.

Aqui havia uma pergunta. Mas como se o silêncio de uma pausa a deixasse parar para dormir, e voltar à estrada.

A maior parte da vezes estava no carro às 6h30 da manhã e deitava-me por volta da meia-noite, uma da manhã. Como não havia dinheiro, tinha que cozinhar para a semana inteira. Sim, mas apenas porque não tinha tempo nem para cozinhar. Havia o curso, ensaio do projecto Nora, Invigilator na Universidade de Westminster e trabalhava numa loja em part time

Aqui ia fazer uma pergunta mas fui interrompido… A Rita tem o poder de fazer um P.S. A cada frase sem que isso seja aborrecido.

Ah… Não esquecer as viagens de Londres para Guilford sempre a conduzir. Cheguei a fazer seis horas diárias com o meu colega Adantes Vieira. Dois part-times ( e ela a recordar ). Hoje não sei se conseguiria voltar a fazer o mesmo.

Voltando a Craft. Quando falei com esse meu amigo realizador, já tinha feito os festivais e acabado o curso e estava cheia de energia e com muita coisa para dizer ao mundo. Pois bem: queria dizê-lo pelo palco. Queria explorar tudo o que tinha aprendido no curso e foi aí que este meu amigo me deu o contacto do Thomas.

Que Thomas? Desculpa… piada estúpida, por favor continua.

Entrei em contacto com ele e marcámos um dia para um café. Adorei falar com ele. De repente, senti que alguém me compreendia. Aquela pessoa maravilhosa fez-me voltar a sonhar. É que o meu ritmo nessa altura era alucinante como expliquei e, dois meses sem fazer nada em Teatro, foi uma eternidade. Estava a rebentar! O Thomas falou com o Rocky, o nosso encenador…

(já ia perguntar que Rocky?… o que poderia levar a imagens de cinema óbvias e piadas maiores).

Fiz a audição e fiquei… Até hoje! Espero que por muito tempo. Comecei a trabalhar com os Craft a 15 Janeiro deste ano (2017) e estou apaixonadíssima. É um trabalho que busca a verdade do actor. Trabalhamos através da exaustão, metodologia Grotowski e também vamos buscar muito ao Barba. Quem me conhece sabe que estou como peixinho dentro de água.

Faz então sentido, para ti Rita, a questão dos métodos e das metodologias hoje… as personas, etc., ou é fogo de vista?

Adoro , adoro, adoro. É um trabalho muito intenso, quer a nível físico, quer a nível psicológico. O trabalho que estou a desenvolver no Craft, prepara-me enquanto actriz seja no Teatro no Cinema ou na TV. Mas o Craft não se encerra no âmbito exclusivamente da Arte, por assim dizer. O Cratft tem um cariz social muito forte. Está cá para fazer a diferença, para dar voz a quem já está rouco ou quem perdeu a voz ou a quem, por alguma razão, não consegue/não pode falar.

Bem… já te tou a dar uma seca.

Sorriso não embevecido nem totó… prometo.

A minha paixão pelos Craft é enorme, podia estar aqui uma noite inteira a falar de Craft.

Era tudo o que mais desejava seria o seguimento natural do fime romântico. Mas não. Optámos pela via inquérito o que dizem os teus olhos ou coisa parecida.

Não. Nunca seca. Tenho… algumas perguntas rápidas de resposta rápida

Manda as perguntas porque, para não variar, começo a apertada de tempo

ok, Idade?

Flor da primavera…. 38

Voltar a Portugal em definitivo?

Sim, mas não sei quando.

O que sentes mais falta de cá… ou no meio ou …

Da minha família, do mar e do barulho das ondas, da roulotte, do sol de ir apanhar ameijoas, do pão caseiro, da qualidade vida, dos abraços fortes, sim dos PASTÉIS DE NATAAAAAAA, do bom vinho português. (isto estava repetido 4 vezes e não era um erro da entrevista. Que fique registado)…. dos grandes amigos (que já são família) e de todos os outros com que me esbarro, principalmente sempre que vou a Faro ou a Lisboa.

E na área… no trabalho… sentes falta de alguma coisa?

Tenho saudades de fazer coisas em Português e de trabalhar com algumas pessoas que me preencheram muito o coração.

Rita do Vale Capela, 38 anos, actriz radicada em Inglaterra?

Eu mesma

É assim que gostarias que te apresentassem ao mundo? Vá mais qualquer coisa… como gostarias de te apresentar ao mundo.

Olha… deixa lá o exótica de lado ( a maior das vergonhas assumidas sem hesitação)

Dois minutos mais… se não te ocorrer nada não te preocupes

Não te esqueças , sou farense meu lindo. Essa é mesmo muito difícil para mim. Posso dizer que agora estou de coração cheio, que o caminho não foi fácil, que a minha família foi e é, e sempre será, o meu grande alicerce. Que um dos meus melhores amigos foi o meu cão Cannes, que ainda me acompanhou uma grande parte do meu percurso. Mas não sei como quero que me apresentes

3

2

1

the end

Podes mostrar-me a entrevista antes de a mostrares ao mundo?

Combinado menina. a entrevista será publicada na semana que vem

em www.tknt.pt. (a semana que vem demorou muitos meses)