UMA IMAGEM VALE POR MIL PALAVRAS, MIL CARACTERES UMA IMAGEM #20

rubrica

Despiu a bata, largou os chinelos, calçou os sapatos, vestiu o casaco, apertou o lenço ao queixo, lançou a mala ao ombro. “Sobe que sobe, sobe a calçada”. Já vai cansada, trabalha a dias em casa alheia, regressa à sua na calada da noite.
Do silêncio jorra a luz do candeeiro que ilumina o chafariz esculpido na berma do passeio e se lhe reflecte no branco do lenço que lhe tapa os cabelos. Então, sente-se como que apanhada à traição, perde o passo certo e uma sensação estranha de aperto no peito corta-lhe a respiração e interrompe-lhe o pensamento. O ritmo regular da passada tinha-a levado
para bem longe, até à terra natal onde revisitava rostos amigos, a casa abandonada, a vida deixada já fazia tanto tempo. Regressaria?
E uma força que não comanda impele-a a continuar, perseguida pela luz branca no lenço branco que refulge no verniz da velha carteira. Depressa reentra na noite, ao tempo só dela, o tempo do regresso ao íntimo da sua própria casa.

<Texto de Luísa Neves para fotografia de Paulo Pimenta>