Uma Imagem Vale Por Mil Palavras, Mil Caracteres Uma Imagem

rubrica

O desafio… olhar para a imagem e construir palavras , devagar, porque a vida faz-se também de calçadas de silêncio.
Olhei devagar e foi esta a desconstrução que saiu… Em forma de homenagem aos “meus ” Velhos resistentes que tenho o privilégio de acompanhar….
Vem de casa, algures, vem sem rumo, a rua apesar de não ser casa é o seu tecto. A rua que conhece por dentro é fria, de pedra gasta, de risos, passos e dores escondidas entre arcadas e granito sujo.
Os olhos foscos trazem na luz dos anos vidas que se guardam.
Tia Maria, como tantas Marias, vendia flores junto ao Rio, a ponte companheira e as vozes em pregão feito canto das outras que viviam as horas nos cestos que vendiam.
Mais tarde, vai subir os degraus de pedra, em luz sem lâmpada, abre o ferrolho que ruge, lá dentro na janela, o periquito assobia e o gato vesgo vem lamber -lhe os sapatos rotos.
No ar há calor, e é feliz nos dias que lhe acontecem. A felicidade vem em gotas devagar, sem esperas de sonhos, apenas no ar que respira, na sopa feijão entulho e nos ralhetes calão que dá aos poucos miúdos que assobiam no beco.
Nos dias em que chegam os frios, muito para além dos anos, o gato foge, o pássaro voa… Sempre foi assim, acostumou -se. Não há dinheiro para o aquecedor e as mantas desbotadas são a rua onde encontra sempre o seu tecto.

<Texto de Anabela Santos para Imagem de Paulo Pimenta>