Uma Imagem Vale Mil Palavras, Mil Caracteres Uma Imagem

rubrica

O beco tragou-a. A vida tragara-a. Vi-a de fugida, antes de desaparecer na noite. Passo miúdo, a carteira apertada junto ao corpo, naquele aperto dos dias parcos. Tinha um lenço claro… Parecia estranho naquele escuro de roupa e rua, um foco.
Reconhecia-a. Reconheci-lhe o casaco, fora da minha mãe. Era a Cristiana, viúva, costureira. Passava lá por casa nos tempos que padeiro, leiteiro, modista, todos por lá entravam. Tempos de vida lenta e mordomias várias para quem as tinha. Discreta, não me lembro da sua voz. Murmurava, sumia-se entre linhas e pontos. Soube depois que tinha conhecido um senhor muito bem posto, e recolhera às quatro paredes das mulheres de
marido ou de senhores bem postos e de má postura. Foi curto o recolher, que entre maus tratos e carne nova o calhordas se evaporou. Mas os tempos não eram já de domicílios, que não para os limpar. E lá recomeçou o sobe-desce escadas , agora sem a graça da criação, da sugestão. Voltou também umas vezes a nossa casa, em dias das grandes limpezas sazonais. Um
dia a mãe quis desfazer-se do casaco.
Cristiana habituou-se a ser ainda mais invisível, mais diluída em vidas rolantes, em transportes apinhados, em becos escurecidos. Habituou-se ao lenço branco. Só porque sim.
Mas, ao vê-la desaparecer na noite, eu percebi como esta mulher tão escurecida, era um ambulante farol. Ela dissipou-se, fiquei num beco escuro.

<Texto de Isabel Pinto Oliveira para Imagem de Paulo Pimenta>