Quatro Mulheres, Quatro Criadoras

Reportagem

Cláudia tem cerca de 40 anos e a tez escura… emociona-se muito e diz a pés juntos que tem “o direito de ser feliz!”. Falta aqui o “porra” como acrescentaria o José Mário Branco na música FMI, mas, sabe-se nisto da felicidade… embora caibam gurus de todos os géneros, ainda temos a liberdade de a querer… com ou sem cliché se faz favor. Cláudia Solinho, mãe… sobretudo, está a modelar roupa de criança num dia soalheiro de Inverno. E então o que faz com o tempo? “Tenho que escolher os tecidos, acessórios, tudo o que seja necessário à confecção da peça. Gerir o meu tempo é uma tarefa delicada… é muito preenchido, dedicando parte à família e ao trabalho. Costumo fazer uma brevíssima pausa de segundos para contemplar a minha vista…que privilégio trabalhar com vista para o mar”. Vive em Esposende e assume, curiosamente que, tendo sempre vivido perto do mar nunca o via realmente. Até se esquecia dele. “Hoje dou por mim a agradecer o que tenho: amor, família, amigos, paz, saúde, trabalho”.

Conhecemos a Cláudia e outras criadoras de sucesso a partir de formações da Modatex, em Barcelos, aquando do convite da formadora Carina Mano à TKNT para ir a uma quinta-feira daquele ano falar com as pessoas sobre as suas expectativas. Anos mais tarde decidimos ver o que tinha sobrado dos sonhos que tinham e pedir-lhes, que através de frases simples apanhadas desprevenidas nos dissessem como estão… como vivem, o que andaram para aqui chegar, parafraseando de novo o José Mário Branco. O que andaram desde aquela tarde com anos à distância a Cláudia, a Patrícia, a Sara e a Cátia para aqui chegarem com os seus testemunhos. Sabiam que queriam mudar algo e o País estava ainda assolado pelo espectro da crise ou de uma eventual recuperação a que em alguns, e em algumas zonas, nunca se sente quando existe um despedimento ou trabalhos precários. E até podem nem ser precários, mas o exemplo de Patrícia Hipólito em ser Mulher por inteiro dedicada à estabilidade, teria de passar por assentar. Teria mesmo! Mudar foi sempre o caminho anterior, teve quase todos os empregos e até vendeu aspiradores de “500 contos”… contos sim senhor. Contudo, chegou uma altura em que ao saltar lhe saltava a energia também… precisava parar. 

Mar de Esposende com a vista de Cláudia Solinho

E o sol passa a uma nuvem negra que traz consigo um aguaceiro. Por breves momentos Claúdia Solinho fica em silêncio mas recomeça os episódios. Diz ter clientes que lhe entram ateliê dentro e soltam um “magnífico” assim, vindo do nada, e ela responde que, de facto, é uma “sortuda”. Acrescenta agora sempre com as ondas em fundo: “ Olhando para o mar desde aqui parece que me renova, carrega as minhas energias, tranquiliza-me, liberta as minhas ideias antes reféns”. Parece a Cláudia ter passado por muito. Parecem todas, e passaram com certeza, com mais ou menos idade. E por que se dedica a Claúdia à roupa de criança e não a outra faixa etária que até poderia não ser exclusiva, mas mais rentável?

– “Sinceramente, no início, foi uma tentativa de recuperar parte da infância que me foi roubada, depois percebi que não iria recuperar nada. Aceitei a perda, percebi que essa perda me ajudou a evoluir enquanto ser humano, a saber o que quero e principalmente o que não quero para mim. Depois vi o meu trabalho a ser reconhecido, o que me deixou extremamente realizada e feliz. Afinal ser feliz é um direito meu! É um direito de todos nós”.

Voltando à Patrícia Hipólito para destacar o que esta Controladora de Qualidade de uma média empresa Têxtil teve de percorrer para atingir a tal estabilidade referida. Conta-nos que depois de ter aberto e fechado muitas portas hoje acorda feliz: finalmente “vou todos os dias fazer algo que gosto, mas que também que me dá algum conforto financeiro. Já tive muito trabalho ao longo da vida, actualmente sinto-me justamente remunerada”. Mas a Patrícia, que estabilizou economicamente desde os tempos em que frequentava o curso na Modatex, mudou para estabilizar,  não ficou porém parada. Tem, definitivamente, mais hobbies: “Como gosto de fotografar quero que esta fase da minha vida tenha muitos cliques, pretendo criar um baú de memórias com as pessoas mais importantes da minha vida, viajo muito e mimo quem amo sempre que me for permitido. Estou de volta a uma escola de Dança e nada nem ninguém me volta a afastar desta felicidade que é para mim dançar. Finalmente abri uma porta que não quero fechar tão cedo nem deixarei que fechem”.

Espectáculo da sabor latino que serve de ilustração à força da dança de Patrícia Hipólito

Esta é a certeza da Patrícia que contrasta, ainda hoje, com as incertezas da Sara Gomes. Era, e continua a ser, a mais nova das criadoras. Trabalha num corner office com muita oportunidade de ascender na carreira. Fez há dias 26 anos, continua a estar focada em manter o que conseguiu e, desde os 18 anos quando a conhecemos que tinha já essa noção de preocupação e maturidade. O que não mudou, confessa, foram os 10 minutos de má disposição matinal. “A empresa em que trabalho é de renome e eu contribuo para a sua boa fama. Comecei a trabalhar há cerca de oito anos e, desde então, já consegui vários aumentos e tenho um estatuto respeitado na empresa inteira como chefe das modelistas. A minha área de trabalho é sagrada, o meu trabalho é impecável. No entanto, este não é o meu sonho. O melhor ainda está para vir. Nos tempos livres, faço pequenas peças de roupa desde o esboço até aos acabamentos. Estou a desenvolver uma colecção própria como portefólio e a preparar-me para concretizar o meu tal verdadeiro sonho: ter algo meu e não trabalhar por conta de outrem… um pequeno escritório de moldes que se transformam em amostras, que, por sua vez, evoluem para confecção e assim em diante até uma marca”.

Foto Barcelos na Hora

Se pensamos que estas mulheres, como a Sara e as já mencionadas são super mulheres, a Sara admite tal como as outras entrevistadas, de forma indirecta, ter um super-homem. E fazem questão que isso fique escrito. “O meu marido chega a uma casa cheia de alegria com cheirinho a lar e amor. O meu marido é o meu super-homem”. Repete. “A vida familiar e social completa-me. O berço de amor onde deito os meus filhos dá-lhes a confiança que precisam para serem invencíveis e o grupo de pessoas que tenho comigo, sejam família ou amigos é onde mais floresço. Antes de adormecer posso reflectir no quão produtivo o meu dia foi e quão orgulhosa estou de mim mesma própria”.

Deslocamo-nos do seio empresarial mais para o centro da cidade. Ainda existe um misto de rural com indústria e modernização de bandas rock punk ao tecido universitário. Continua Barcelos a ser calmo. Chegamos  à ByCatita , uma loja aberta com o “tão desejado Ateliê Criativo”, da Cátia Rêgo. No interior Cátia está rodeada de cores pastel (rosa, azul, verde, amarelo) e peças que cria, durante todo o dia. “Peças que me enchem o coração!”, fala do fundo com muitos sorrisos e alguma timidez pelo meio. Uma das que mais vende é o Kit de Higiene do bebé, com especificidades que até já internacionalizaram a marca. E Cátia continua a falar e a sorrir porque nos diz qualquer coisa relacionada com o maior sucesso da sua peça… girando em torno da felicidade e conforto das mães e filhos com rabinhos secos. Sim, podemos rir. Imaginem como um rabinho seco deixa tudo mais calmo… o mundo pode descansar.

Estas quatro mulheres têm hoje sucesso profissional e pessoal, e àquilo que não Nos/Vos parece nada de extraordinário por terem vidas felizes e simples, é exactamente aí que devemos atentar, e ver a força que têm. Quando a TKNT teve o primeiro contacto com estas mulheres no decorrer da formação de serviço Venda e Pós Venda, ministrada então pela formadora Carina Mano, na Modatex, estavam até reticentes em projectar um futuro que fosse num papel. Falávamos de escrita e que escrevessem onde se viam daí a uns anos… 8 anos? Como se até sonhar fosse proibido ou como se o real fosse assim tão complicado de atingir. Hoje há estabilidade, houve luta, mas o maior dos exemplos foi o de não desistirem… numa época em que no Reino Unido, a título de exemplo ridículo, crescem movimentos das Tradwifes, mulheres que querem ser donas de casa e submissas ao marido.

Com a Cátia “tudo começou com o gosto pelos farrapos”. Acrescenta: “são eles que me fazem voltar à minha infância e sentir o toque da melhor pessoa que conheci em toda a minha vida, a Tia Lena, que era a tia de toda a gente mas no fundo era só minha!”. Com a Sara o romantismo nato com queda para a família. A estabilidade da Patrícia e o mar da Cláudia. São quatro mulheres que aceitaram dar os seus testemunhos sobre as suas vidas, contando o que mais conta. 

Nota: não sendo ficção…. Estas super-mulheres frequentam – Fevereiro de 2020 – uma formação na Modatex, em Barcelos, e aceitaram escrever para a TKNT os seus sonhos. A realidade e o momento actual é aquele a que nos reportamos no texto como o primeiro contacto de há oito anos. Exactamente por essa razão não existirem os nomes das empresas e as coisas parecem mesmo vagas. O convite e iniciativa da formadora Carina Mano e da Modatex em acolher-nos resultam precisamente numa série de textos com desejos, sonhos e ambições. Ao escrever o texto com as suas citações, já não acredito… pessoalmente… noutra qualquer realidade que não seja a que estas criadoras projectaram. Mesmo que vivam tempos de incerteza, têm a força suficiente para escrever. Há quem desenhe o futuro. E há quem o escreva. Bem hajam!

<Texto> Nuno F Santos com Cátia Rêgo, Cláudia Solinho, Patrícia Hipólito e Sara Gomes