Onda de Famosos no Festival Literário de Óbidos

Reportagem

 

 

 

Quitério vibrou quando recebeu uma nova mensagem, tinha configurado o sinal no iphone para ser alertado das que chegavam da revista onde trabalhava, a Nova Gente. Abriu logo – devia ser o trabalho da semana, ou alguma emergência. Era o trabalho da semana. “Qr q faças ist, dps briefo”, era a mensagem simplificada com um link para o Folio. Quitério estranhou, um festival literário?

Que interesse podia ter um festival literário para a Nova Gente? Os trabalhos que lhe davam implicavam tantas vezes conversar com epifenómenos mediáticos construídos pelos reality shows que raramente conseguiam conjugar um verbo simples e que alteravam livremente sujeitos, predicados, adjetivos, figuras de estilo… E agora queriam um festival literário? Esperaria pelo briefing.

Não houve briefing, o editor estava ausente para uma festa de fim de verão no Algarve e a responsável pelas suas páginas estava assoberbada de trabalho – tinha recebido umas fotos de uma famosa qualquer que queria aparecer e tinha decidido mostrar que estava de olho num surfista emergente, muito mais novo, coisas que implicavam o máximo de atenção. Numa troca de palavras pelo messenger percebeu que tinha duas páginas para encher com os famosos que iam ao Folio, incluindo os escritores, e de dar especial atenção ao presidente da República, que podia levar a namorada.

Vais de carro alugado, está marcado”, “Fotógrafo aparece nos dias quentes…” e “Duas pág” foram as últimas frases a aparecer em azul depois das reticências e do sonoro ploc da conversa com o editor.

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O hotel de Quitério também estava marcado. Como chegou um par de horas antes do almoço, tentou lembrar-se de algum dos restaurantes que o seu homónimo José aconselhou naquela zona – gostava sempre de começar as reportagens com a barriga confortável e como lhe estavam sempre a cobrar o ter estragado a associação que se fazia do nome Quitério ao jornalismo sério e imparcial, ficou pelo menos a conhecer a obra do seu homónimo, e se havia coisa que José sabia era comer, e onde comer.
Ainda meio tocado e ensonado do vinho do repasto, o jovem Quitério entra na vila de Óbidos. Sorri ao ver uma turista oriental sentada no “O” de Folio, o nome do festival, para ser fotografada com uma igrejinha qualquer em fundo (ainda pensou em procurar a placa com o nome da igreja, mas depois relevou, se for preciso vai-se ao Google), deixa uma moeda no boné do avesso do músico que estava e estaria o resto dos dias na entrada da porta da vila e, ali abrigado do Sol do início da tarde, tenta decidir: vai pela rua de cima, mais turística e cheia de lojas de recordações, ou pelo quelho de baixo quase totalmente ocupado pela esplanada de um restaurante com comensais tardios, pares de namorados, grupos vestidos de negro e com ar de intelectual que tanto podiam estar a falar dos novos apoios para a Cultura como das pernas da brasileira que, entretanto, passou. Ela entrou na vila decidida, sem dar gorjeta ao músico. Fazia de guia a um grupo de turistas franceses – abanando uma bandeira de Portugal à frente do aglomerado de bonés, chapéus de palha e lenços. Ele decidiu-se, seguiu as pernas.

Um par de metros depois arrependeu-se. Os franceses mais velhos – reformados, turistas profissionais – com receio de perderem a guia, ou também fixados nas suas coxas, iam-lhe dando encontrões para se lhe aproximarem e, quando Quitério parou para apreciar uma reprodução das Tentações de Santo Antão, quase foi abalroado pelo grosso do grupo, de tal forma prensados e acomodados uns nos outros que criavam uma pequena mole humana.

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Depois de Bosch lhe ter relembrado o vinho do almoço, pensou que o ideal seria fazer primeiro uma lenta missão de reconhecimento, passeando a vila até à livraria Santiago, seguindo depois para dentro da muralha. Mas não foi fácil. A cada banquinha de ginja, a cada loja de recuerdos com uns trapos tradicionais e a cada ruela transversal com janelas a transbordar de flores coloridas contrastando com o branco das paredes e o azul das esquinas havia aglomerados de gente, a beber, a comparar preços, a tirar fotografias, a apreciar tecidos ou simplesmente esperando os familiares e amigos que faziam todas essas coisas.
Já perto do Museu Municipal, logo a seguir ao Mercado Biológico, conseguiu ultrapassar todos os franceses do grupo da brasileira – que falava muito bem o francês, sempre pensou que os brasileiros eram maus em línguas, pelo menos a julgar pelos das novelas que cá vinham.

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No Museu Municipal ficava o Centro de Imprensa e ainda equacionou parar aí para se apresentar, haveria de precisar de lá ir, mas de momento estava focado na missão de reconhecimento, ficar sóbrio, e de certeza que as histórias que o editor queria que ele contasse não as iria encontrar junto dos outros jornalistas que ali estavam. Será que veio alguém da concorrência?

Lá chegou à Livraria Santiago. Confirmava as descrições que alguns amigos tinham feito e acabou por se sentar na escadaria da antiga igreja com o programa do festival para ver os nomes que conhecia e que pudessem interessar ao seu editor. Pela quantidade de presenças, seria mais do que suficiente para as duas páginas mas se Marcelo brilhasse, acabaria por ser o Presidente da República a ocupá-las.

Havia o Mega Ferreira (ainda justificará aparecer na Nova Gente?), o Nuno Artur Silva e logo a apresentação de um projeto da RTP, o António Prata, que pensou ser o da TVI mas era afinal um brasileiro qualquer que escrevia umas coisas com piada, e até tinha piada e um Nobel qualquer indiano (nota no telemóvel, googlar V.S.Naipul). Isto só no primeiro dia.

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Percorreu depois os dias seguintes: o lançamento do novo Harry Potter poderia interessar, eventualmente o Sérgio Godinho (bem, quase de certeza que não), aquele gajo do Governo Sombra, o Pedro Mexia… (mas é tão avesso às revistas), o Manuel Alegre, o ministro da Cultura (googlou, “Ministro + Cultura + Portugal”), Luís Filipe Castro Mendes, o Pedro Giestas (talvez tenha prevista alguma novela nova), o Zimler (pode ser que o Zimler venha com o marido)… Ia percorrendo os nomes e questionava-se quando viria o fotógrafo, é que sem fotografia algumas das conversas que pudesse ter deixariam de interessar.

Mais: O Mário Zambujal (ainda alguém liga ao senhor Zambujal, questiona-se de novo, sim, em último caso sim), o debate sobre a utopia das religiões e aquele com o senhor Rui Nabeiro (apontou com o dedo, e bateu algumas vezes na cara do Comendador como se a cabeça do indicador lhe dissesse se valeria ou não a pena ouvi-lo). Havia ainda o debate com o Luís Freitas Lobo e o Gabriel Alves (deve ter piada), e o Salman Rushdie – este gostava de entrevistar, mas a ideia é contar histórias, não valeria a pena pedir entrevista. Depois o Camané, o Pacheco Pereira e o Louçã juntos. Sorriu e pensou que seria giro apanhar o Louçã de gravata.

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Trabalhou durante toda a semana com afinco. Ia tomando notas do que era dito, das pessoas conhecidas que iam aparecendo e acabou por pedir ajuda a uma série de jornalistas, pessoal da organização e até alguns visitantes do festival literário para saber quem estava nas mesas de debate e os autores dos livros apresentados, googlando muito e comprando vários livros, que não fazia ideia quando teria tempo ou disponibilidade para ler. À noite, misturava-se com o pessoal do festival, os autores e outros personagens na Casa dos Bons Malandros, à saída da vila, para ouvir as conversas, perceber se havia bas fond, coisas que merecessem ser contadas numa revista do social.
No último dia, à espera de Marcelo, e cheio de material que poderia usar nas duas páginas, esperando que, depois, o editor lhe pudesse dizer o que teria interesse para uma revista como a Nova Gente o Festival Internacional Literário de Óbidos. foi assistir a uma conversa com o tradutor da Bíblia a partir do grego, Frederico Lourenço – se havia livro que todos os leitores da Nova Gente tinham era a Bíblia. Ficou a saber que a tradução do grego poderá ser mais fiável do que todas as outras a partir do hebraico – que tiveram muitas versões até chegarem aos nossos dias – e apontava no seu caderno que nessas, por exemplo, desapareceram os escravos e os mendigos, que desde Eva a mulher salvar-se-á não pelo dom da maternidade mas pelo sofrimento do parir, que o mais citado dos apóstolos, Paulo, aparece mal citado… quando tirava estas notas apercebe-se que a perna treme, tinha uma chamada não atendida do seu editor.
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Ligou de volta. “O fotógrafo não vai poder ir”, não tinha visto nenhum fotógrafo da revista ao longo dos dias, mas podiam contratado um free lance qualquer sem lhe dizerem nada e não se preocupou muito porque, nem que fosse por isso, no último dia havia o presidente da República a visitar o festival – e estava a decorrer uma leitura encenada por Beatriz Batarda e que tinha uma série de atores conhecidos, entre ela, o Bruno Nogueira, o Nuno Lopes, o Manuel João Vieira, Marco Martins, Carla Maciel, Rui Mendes… Mas pelo caminho da conversa no iphone e a lembrança de que não tinha visto fotógrafo, as notas teriam a mesma utilidade que os evangelhos apócrifos.

O fotógrafo teve de ir à Nazaré. Pelos vistos, a Felismina Carreira foi lá ter com um surfista, que está numa prova qualquer”, explicou rapidamente. “E então? Fico na mesma a ouvir o que diz o Marcelo?”, questionou a medo. “Não”, respondeu-lhe o editor, “como estás aí perto, metes-te no carro e vais lá ter com o fotógrafo, à praia do Norte, aquela do McNamara, que fica a seguir à Nazaré. Está lá a decorrer uma preparação do Big Wave Tour. Mando-te já o telemóvel do fotógrafo por mensagem. Abraço”.

<Texto> Filinto Melo