O meu uivo ensurdeceu Manaus

Reportagem

 

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Um fotógrafo interrompe, a espaços, o som do riacho e a melodia de um violino de pregos, isso mesmo…. violino de pregos. A peça «Uivo», das Comédias do Minho, é uma aventura onde a liberdade até permite que um cão entre em cena e por ali fique, sem que tenha sido previsto. Teatro Dança, poesia, a recriação da cultura popular num projecto de Comunidade que é uma viagem literal, com percurso e tudo. Claro, poderia chover, mas não assim. Esta é a crónica / reportagem de um percurso íntimo e da criança de 8 anos que estava, inconsolável, como eu. A criança é filha do fotógrafo e o fotógrafo é quem cede estas imagens para contar, quase ao pormenor, o que se viveu na vila de Castro Laboreiro no dia em que tanta gente desesperou com um empate da selecção portuguesa de futebol. Aqui vai…

<Texto> Nuno F. Santos (Cash) a partir de uma perspectiva absolutamente parcial e íntima… mas pública
<Fotografias> Patrick Esteves, que enquanto todos se abrigavam, fotografava público e actores, enquadrados numa forma única de levar cultura à comunidade e às populações do Alto Minho

Domingo, 22 de Junho… aliás, já madrugada de Segunda-Feira 
Inconsolável. Estou assim. Sinto que morri um bocado hoje e que não há maneira de viver de novo o pedaço de vida que me estava destinado. Bem sei que muitos de vocês se sentem neste momento como eu, pela mesma razão ou, entre muitas outras, porque desapareceu um dos melhores jornalistas dos últimos tempos em Portugal; porque quem o amava fica sem ele e agora acredita em Deus; porque sente que é o melhor e aquele de quem se gosta alcança essa linha de imortalidade; Quando se conhecem pessoas como José Tolentino Mendonça é mais fácil acreditar em Deus. O padre e poeta José Tolentino Mendonça disse a Filipa que o companheiro… o jornalista Miguel Gaspar “está em paz”. Assim seja.

Sei que o que me deixa assim, inconsolável, é pequeno, muito pequeno perante tamanhas coisas do mundo e no mundo.
Eu já não sei de nada. Mas no verde deste fim de dia fui egoísta, impotente, imprudente, derrotado. Não quis saber do choro das crianças, nem do frio misturado com calor, muito menos das pessoas cansadas. Devo ser mau. Eu já não sei de nada. Sei que tinha muita fé no Raúl, um deles. Vamos ver como corre da próxima, mas desta já perdi o pedaço de vida que me estava destinado.

Não era para mim. Não era para mim. Era para a mulher que amo. E depois para os meus amigos.
Não era para mim. Era para quem já não acreditava que pudesse haver tamanha surpresa em condições inóspitas. Era para eles que lutaram – embora pareça sempre fácil – a cada minuto contra o tempo destinado por quem: Por Deus? Pelo Demo? Pela Ciência?
Não sei o que diria José Tolentino Mendonça a um episódio destes que não é o último, mas que deixa feridas. Irracional. O São Pedro é universal não é só português. É contra ele que devo estar?

Passava pouco das 17h00 locais e estava tudo bem. Subíamos por sobre a névoa e as nuvens do futuro. Pensamento: Que se forniquem as nuvens do futuro e o calor, os impostos e as dívidas. Hoje não contava nada até que voltasse a realidade.
Devem estar a não acreditar por que escrevo eu sobre o que escrevo, que amanhã é outro dia? Pois, mas a minha ferida fica amanhã e depois. Até mesmo daqui por oito dias.
Mas por que escrevo? E do que escrevo?
Pois… De facto estou inconsolável e morri hoje no pedaço de vida que me estava destinado. Não era para mim. Era para a mulher que amo. Depois para os meus amigos. E para os que subiram à montanha de Castro Laboreiro a querer ver e ouvir o uivo de um actor e de uma companhia chamada Comédias do Minho. Um uivo improvisado no telhado de uma casa. Não era para ser assim, mas depois da subida a Lamas de Mouro e de uma coreografia impressionante na Casa da Cultura de Melgaço, depois de um encontro entre a Pejeira (a mulher que tem um pacto lendário com os lobos) e um pastor amaldiçoado pela arte de dançar e dizer poesia até descobrir quem… ou o que é… Depois dos trovões abafados à beira do riacho pelos cajados a bater no chão, depois de em Castro dois autocarros de pessoas se recusarem a ficar sentadas com ar condicionado de um Verão bipolar para ver o pastor contar quando viu o lobo pela primeira vez em pequerrucho… depois disto tudo ao som do Coro de Parada do Monte – a palavra celestial faz aqui sim todo o sentido -, não havia naquele estádio de erva quem merecesse tamanha saraivada.

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Todos de volta ao tanque. Está de “Tchuva”. “Isto vai recomeçar”. E os actores queriam. Não há não actores. Os actores, os músicos, as Comédias do Minho queriam recomeçar quando a chuva parou. Eu queria, eu queria mais do que todos a esquecer-me das crianças molhadas, das senhoras bem mais velhas às portas da pneumonia… queria que se não fossem embora. “Não podiam mais”. E o «Uivo» terminou ali mesmo junto ao tanque da vila de Castro, com o coro a cantar batido pelos tambores e as chocas de Ricardo Casaleiro.

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Filipe Caldeira (Caco), o pastor coreógrafo actor, sempre contou a história de quando viu o lobo pela primeira vez… “era pequerrucho”, informando devidamente que “os lobos podem morrer de tiros, de veneno, mas à fome não morrem”. O pastor é um lobo. E os actores pastores também, que no fim da peça se abraçavam como se tivessem perdido um rebanho, cada um deles, no dilúvio. Nem o Raúl podia fazer milagres. Quando se conhecem pessoas como o Padre Raúl é mais fácil acreditar em Deus. Quando se vê um miúdo de 20 anos com nome de anjo (Gabriel) triste com um final sem o número 7 na camisola, triste porque “momentos de trabalho colectivo não se repetem assim”, triste porque a peça não acabou como queria é, de facto, bem mais fácil acreditar na vontade das gerações. Gabriel que andou no projecto nas Margens, como andou a Inês, a Alexandra e tantos outros.

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Quando o senhor Humberto fica triste por não poder ver sentado, do alto do monte com vista para a pedra da tartaruga, a solidão do pastor que uiva enquanto a alma se desprende: “vai alma, vai”… Quando o elenco queria acabar como o encenador Gonçalo Fonseca pedira… quando a coisa boa seria terminar como no dia anterior, em que de galegos a bebés ainda sem linguagem estrangeira, juntamente com quase uma centena de pessoas, chegaram ao pico, obrigadas a esquecer tudo o que cá por baixo anda…. Quando se queria acabar assim e não foi possível, nem as palmas lhes valeram um sono descansado – sim, que esta segunda é dia de pica bois, é dia de trabalho –, valeu sim o desejo do público, supremo. Foi a vontade de quem estava molhado, de quem já tinha sido aventureiro o suficiente para embarcar à boleia da loucura que é um projecto felizmente utópico como as Comédias do Minho. E no regresso aos autocarros por causa de uma saraivada uma menina, levada pelo pai com uma máquina fotográfica, uma miúda que ainda não deveria ter 10 anos chorava e chorava…. Inconsolável, como eu.

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Segunda-Feira, 23 de Junho, 15h00
Acordo bem. Na rua por baixo da janela do quarto assam sardinhas porque é véspera de S. João no Porto, aqui onde vivo… e dizem que a selecção de futebol deve vir para casa o mais rápido possível. Inconsoláveis no dia seguinte à exibição em Manaus, contra os EUA. Eu, nem tanto. Adoro futebol. Mas quero contar o que ali se passou em Castro Laboreiro.

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Segunda-Feira, 23 de Junho 17h00
Descubro numa rede social o nome do fotógrafo que acompanhou no Domingo o «Uivo», desde a casa da cultura de Melgaço. Patrick Esteves. Escrevo-lhe. Pergunto se está tudo bem com a filha, que idade tem e por que chorava? Mais, se posso usar as fotos dele numa reportagem.
Patrick: “Olá Nuno, partilho contigo uma série e usa como quiseres. Relativamente à Carlota (a menina que chorava), ela tem assistido a muitos espectáculos e a todos de tributo ao Alto Minho. Com 8 anos não entende muito bem por que é uma roupa encharcada pode terminar com a ‘aventura’! Queria saber o que ia acontecer aos lobos e, apesar de cajado em punho, estava pronta era para os defender. Tive de lhe explicar o final mas regressou a casa satisfeita. A coisa que seria muito complicada se o encenador não tivesse naquele momento decidido encenar o fim”. De facto, o encenador e todos os elementos das Comédias que por ali estavam a coordenar o público, criaram as condições para um final improvisado e reencenado com muitos aplausos.

Mas eu, inconsolável:“Tu não entendes, eles deviam ir todos lá acima… já nem chove!”.
– “Mas eu adorei assim”
Eu perdi na mesma um pedaço de vida naquele dia.

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Segunda-Feira, 23 de Junho 23h00
Falo com Luísa Pinto, a directora do Teatro Constantino Nery, num terraço onde há exactamente um ano falava com Hugo Cruz, da PELE. Ambos trabalham com comunidade e actores amadores ou não actores. Hugo Cruz com o Teatro do Oprimido, Luísa Pinto pela recompensa no final de cada processo. Falamos de muitos casos e de projectos de Comunidade. Falamos, sobretudo, da importância que os municípios podem ter nesse aspecto.

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Terça-Feira, 24 de Junho
Acordo com vontade de regressar ao Minho, e tenho de regressar, mas agora a Valença. Já passou. Mesmo com um pedaço a menos de vida já me vou lembrando cada vez menos da ferida. E eles: o elenco de «Uivo»?
O Gabriel, sem o número 7, está pronto, diz que todos estão com toda a vontade de actuar no Porto e Lisboa, mas, e ao mesmo tempo, “até gostariam era de repetir em Castro Laboreiro”. Curioso, é o que diz o maestro do Coro de Parada do Monte, Paulo Pires. “Só lá em cima no alto de Castro, quando todo o elenco está junto em frente e à volta do público é que percebemos o nosso verdadeiro sentido na peça. Estava tudo sincronizado”. Paulo, para lá de dirigir, é também mais um dos 30 elementos do coro da aldeia de Parada de Monte. Para ele, o teatro acrescenta sempre mais magia do que a que existe na zona de lobos e fábulas de arganões. Os mais novos vivem em Braga, Porto ou Viana do Castelo, mas não há fim-de- semana que não regressem para cantar e aproveitar tudo. São também um coro de igreja o que facilita estarem sempre afinados mas, voltar não é necessidade, é uma escolha.

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Quarta-Feira,25 de Junho, 00h33
Termino reportagem com as fotos de Patrick Esteves e com uma frase de batida: “Todos a Valença”.

 

nota: por que escrevo tanto sobre as Comédias neste momento? Porque gosto e por que me pagam para trabalhar com eles num projecto. Porque acreditam nos planos que tenho para os mostrar, para lá da camada que se pensa ver a partir de outro sítio qualquer que não sejam os concelhos da rede que integra o projecto: Coura, Cerveira, Melgaço, Monção e Valença. Porque no meio do projecto é-me impossível ficar indiferente ao trabalho. Trabalho que, bem sei, muitas estruturas por esse País têm. Claro que vou continuar a escrever sobre tudo o resto que consiga. E filmar e cantar. Claro que vou continuar a oferecer livros e bilhetes para mais Teatro e Cinema, Dança Contemporânea e concertos…. Mesmo que não tenha dinheiro para pagar o selo dos correios com as encomendas a peso. A TKNT é um compromisso de missão. Não precisava justificar nada, mas a minha integridade não ficou em Manaus num jogo de futebol que queria muito ter ganho. Não tenho dúvidas: trocava o apuramento da selecção por dez minutos de um final lá em cima… no alto de Castro. Em Melgaço está o primeiro Marco de Portugal. Mesmo. Não invento nem faço metáforas no caso.