Flâneur a Flâneur, numa tarde de festejar as bicicletas, os livros e as pessoas deles

Reportagem

 

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Foto de Sérgio Miguel Silva

Quando começarmos a escrever vamos, provavelmente, rodar aquilo com que alguns já se espantaram. Mas é só um pouco. Então: Entrega de livros de bicicleta. Arnaldo mais do que Cátia, definitivamente. Hoje há um espaço físico. Aliás, há um ano começou o espaço físico. Comemorou-se este Sábado o aniversário da livraria Flâneur,  na Rua Ribeiro de Sousa 225-229 / 4250-408 Porto.

(916961281 /912110954 /livraria@flaneur.pt) . E agora carregue aqui por favor que não é vírico mas pode ser viciante após entrar assim mesmo sem hesitações nem reticências nem vírgulas

A rua que é normal mas não é central. Como tantas outras do Porto pequeno mas, simultaneamente disperso. E percebemos que a aldeia grande é esta cidade graciosa com cantos normais que são o que mais belo pode ter o arquitecto e o antropólogo, o picheleiro e o cidadão… o cidadão. A rua para onde Hélder Magahães vai directamente. Um escritor de Vizela que escreve livros manuais, livros objecto e cuidados e que fala da Flanzine, das possibilidades da Poesia e desta livraria com um jardim e que era a Quasi Loja… da Carina. Fala-se assim, como se ela ainda estivesse a Carina. Ela que deixou uma herança de espaço ideal. E para comemorar rissóis – não tenhamos medo da ternura a fritar durante a noite –  bolo de Chocolate, Bôla de carne e, claro, Pedro Eiras a falar de um excerto de  Rui Chafes (Acredito na poesia, no seu poder único. Como Novalis, acredito que tudo é poesia, que a mais pequena flor representa um pensamento, a intuição pura de um instante, uma explosão gelada de verdade). Leitura, conversa, encontros, reencontros e… voilá… O Jovem Conservador de Direita!

Livros são, sem metáfora alguma, o salgado mais doce desta livraria em que se gosta das pessoas primeiro e logo a seguir dos livros. Os livros, book, amontoado de letras enfim… são seleccionados pela Cátia e pelo Arnaldo e ainda os entregam de bicicleta no Porto, Matosinhos e Gaia mediante requisição e sem custos adicionais. O Arnaldo. Não a Cátia então. Mas a Cátia fez anos há dias também. Ela anda de chão em chão com a Ofélia, a Emma, a Ana e o Joan Margarit. Fala das clientes russas que procuraram no Google por “livraria bonita” e ali foram comprar livros em Português sem saber a Língua… a Língua tem destas coisas, bonitas como os livros bons. A Cátia vai ao Uruguai e já teve pessoas do Uruguai. Pessoas não clientes. Dizemos nós. Pessoas que vão à Rua Ribeiro de Sousa mesmo com a cidade do Porto centralizada. Pois. Vamos andando. E entretanto é Sábado.

17h15. Dentro da Flâneur e os livros “vencem” Pedro Eiras. Um combate.

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A entrada das coisas todas felizes

17h24: Pedro Eiras continua: “como é possível partir de maçãs para chegar a alguma coisa?

Margarida, 6 anos: “Venho aqui ver livros e brincar. Não gosto de chocolate, a Cátia é a dona

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Vai ao Uruguai…o Arnaldo estará quase de certeza… ela volta

17h26: Pedro Eiras:”A flor é um pensamento para nós

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Pedro… Ai daquele… Eiras… que Não se espante!

Quem vai à Flâneur não vai por acaso comprar a prenda e em família. Diz o Vítor Ferreira, que confessa falar pouco, que vê os clientes a falar bastante com os Flâneur… e que já comprou Joan Margarit por conselho da Cátia. Dos três Misteriosamente Feliz que comprou já os ofereceu. Vai comprar um quarto.  Misteriosamente Feliz fiquei eu e a TKNT com um deles. É um assombro de livro . Nova edição de Misteriosamente Feliz e este livro é, de facto, a paz com a poesia se alguém estiver em guerra com ela por causa de emergências menos felizes.

Fátima Teixeira: Gosto de debates, da intimidade que é criada com as pessoas, recitais de poesia aos domingos à tarde. Leva A Máscara de Ripley, de Patricia Highsmith. Edição Relógio de Água.

Arnaldo relembra Prosas Apátridas de Julio Ramón Ribeyro e ainda tem a os fabulosos da editora Ahab. Mas o mercado português… o mercado português. E Arnaldo, preparando dias antes o aniversário lê Bússola, o prémio Goncourt 2016 à confiança. Mathias Enard lecciona em Barcelona, viveu no Médio Oriente e, à confiança à confiança mas não às cegas lê de um fôlego.

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O Vítor vê as promoções mas apaixonou-se pelo Misteriosamente Feliz… como todos nós

A primeira edição Misteriosamente Feliz vendeu um terço na Flanêur. Elena Ferrante vende também. Muito. Recomendam-se ensaios, o poeta sírio Adonis e os livros da Sistema Solar.

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A Ana e depois a Helena e a Fátima, o Hélder… estar para lá dos livros

Ana Cravino : Vou ainda ler mais da Clarice Lispector, policiais, romance. Sou fã de Policiais. Eles (Cátia e Arnaldo em primeiro) e depois o espaço. Ah… a variedade! Se eles não tiverem um livro, duvido que o encontre noutro lado.

Sim, o livro de Rui Chafes é admirado. Muito. Os adjectivos como brilhante e fantástico para definir páginas e invenções são constantes mas genuínos. Não há problema, compreende-se. Vende-se o que se quer vender.

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Redefinir a beleza a todo o momento

Helena Lopes: Levo ensaios (come bolo de chocolate com um gosto que, se fosse bem descrito, seria como um capítulo adaptado a cinema). «Cinefilia e Cinefobia no Modernismo Português» por Joana Matos Frias e outro de um conjunto de ensaios. Helena é de Literatura e auto-didacta do Cinema. É a primeira vez que estou porque muitos amigos me falaram. Nota-se que é para público com hábitos de leitura.

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A marca para lá da água do céu e da terra

A Teresa da Agu Agu, o Jovem Conservador de Direita, pessoas felizes com folhas sem medo do Inverno nem medo de andar de bicicleta, com brunch, cores, o Japão e a Filosofia nas estantes… claro oh… os postais e uma máquina de escrever.

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livros e pessoas pessoas e livros poemas e coisas que vêm na vida

Quando entrar e se a Cátia não estiver… poderá estar perto de Mujica e o Arnaldo… ou andará de bicicleta ou estará ali mesmo, já com Bússola lida. Encontrou-se. E não foi agora nem de agora. Encontremo-nos no 229. Pode ser quando quiserem.

<Reportagem> Vìtor Ferreira, C de Saudade e Nuno F, Santos