Palavras Marginais I

Pensamentos Imperfeitos

 

Por Vanessa Rodrigues
A primeira e única vez que fui ao Capão Redondo foi por causa da Literatura. Porém, esta favela, no sudoeste de São Paulo, Brasil, é mais conhecida por ser cenário de violência, pela criminalização da pobreza, pelo tráfico de droga, por ser a comunidade “mais cinzenta” do município. Na época, fazia still photography para uma produtora de audiovisual paulistana, a DGT Filmes, que estava a rodar um documentário sobre o fenómeno Cooperifa e respetivo sarau cultural, no bar do Zé Batidão. Todas as quartas-feiras, entre feijoada, torresmos, farofa e mandioca, dezenas de poetas, amantes da prosa e da literatura, amigados com as letras e as palavras que criam rupturas agarravam o microfone, à vez, e faziam a catarse. Liam literatura: de Pablo Neruda à autoria individual. Dos aforismos ao teatro. De livros, a rascunhos em guardanapos. Lá fora, a polícia revistava traficantes; no fim da rua fumava-se charros. Ali dentro, as crianças obedeciam ao silêncio; os mais velhos “antenavam” os ouvidos. Esta aparente dicotomia, esta cerimónia perante o poder da literatura, numa comunidade considerada “marginalizada” ficou esculpida na minha memória. Posso afirmar até, que em certa medida, mudou a minha percepção sobre o que realmente pode significar a educação para a literatura e possibilidade de um outro caminho, num contexto sócio-económico madrasto. A iniciativa desta “resistência”, surgiu por iniciativa do poeta Sérgio Vaz em 2000. Ele foi considerado, em 2009, uma das 100 pessoas mais influentes do Brasil, a revista TRIP já lhe deu o prémio “Transformadores”.

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Poeta Sérgio Vaz lendo no Zé Batidão (Foto: Revista TRIP)

De que forma pode, então, a literatura considerada marginal motivar a mudança social? Promover mais aquilo que nos une do que aquilo que nos separa? Fomentar massa crítica dentro das comunidades? Através dela, dessa marginalizada literatura, vamos, igualmente, a lugares onde de outra forma não iríamos. Conhecemos a vivência de ex-traficantes, os desafios da extrema pobreza, da condição humana, dos estrangeiros dentro de nós, num mergulho em apneia, numa escatologia, por vezes, desconcertante. Mais do que isso: dá voz a quem, normalmente, não tem voz. E isto é relevância invisível de interesse público. Há um paralelo neste episódio com duas outras vivências recentes.

Foi a literatura que tirou Rubens Lopes da rua, quando o conheci em Agosto, em frente à Pinacoteca de São Paulo. Foi a Literatura que arrancou Tula Pilar da rua e a pôs a sonhar em ser escritora, transformando-a numa das poetas reconhecidas do centro de São Paulo. Em Julho, esteve na 40º Feira Internacional do Livro de Buenos Aires. Os dois são vendedores da revista Ocas – a prima da revista CAIS, em Portugal. “O objetivo da organização é criar mecanismos para que o indivíduo se torne seu próprio agente de transformação.” Mais do que isso, creio, é transformar a percepção viciada da nossa comercial camada do que parece ser a literatura hoje.