Wajdi Mouawad nas Leituras no Mosteiro: “a vida está aí, como a vida é bela”

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O trimestre das Leituras no Mosteiro dedicado à tragédia chega ao fim entre as ruínas da guerra, as mortes violentas, as violações e a procura incessante da identidade da tetralogia “O Sangue das Promessas” (1999-2009), do dramaturgo Wajdi Mouawad (de origem libanesa que vive há vários anos no Canadá francófono). wadji

Terça-feira, 3 de Dezembro, deu-se início a uma “maratona pesada” e profundamente desafiante, uma viagem a um universo negro, mas, apesar de tudo, cheio de vida e esperança no futuro: “A vida está aí, como a vida é bela”, diz Jeanne, em “Litoral”, personagem que, na hora do parto decide morrer em troca da sobrevivência do seu filho.
Único autor vivo da temporada, cuja tetralogia foi recentemente publicada em Português pelos Artistas Unidos e editora Cotovia, com tradução de Manuela Torres, Mouawad foi uma escolha de “gosto”.

leituras paula e nuno

À TKNT, Nuno M. Cardoso, programador com Paula Braga destas Leituras no Mosteiro (Centro de Documentação do Teatro Nacional São João, Mosteiro de S. Bento da Vitória), confessou que, normalmente, as escolhas não são feitas a partir do gosto pessoal, dependendo mais de conceitos de programação, “mas esta foi”.
Nunca encenado cá, Mouawad é pouco conhecido do público português. O contacto que este possa ter tido com o autor terá sido com o filme de 2011 “Incendies – A Mulher que Canta” (uma adaptação de “Incêndios”), realizado por Denis Villeneuve, e nomeado para o Oscar de Melhor filme Estrangeiro, distinção que perdeu para o dinamarquês “Num Mundo Melhor”, de Susanne Bier.
Importantíssima, portanto, a iniciativa de programar o autor para o público do teatro (tanto o profissional como o entusiasta).
Nuno M. Cardoso considera a obra de Wajdi Mouawad “belíssima”, não só pela profundidade dos temas, como a perda e a guerra, como pela profundidade da própria escrita: “o autor não facilita, nunca deixa cair a narrativa e joga com vários estilos e formas de escrita”. Apesar de narrativo (é um excelente contador de histórias), Mouawad brinca com as variações do tempo e da realidade de uma forma peculiar.
Nitidamente presente na sua obra está a tragédia clássica, com os seus segredos de família, a importância da tradição, o reencontro com o passado desconhecido e a procura de uma certa justiça ou reconciliação.

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Vamos ver como se aguentam”
Nuno M. Cardoso avisou no início da sessão: “a primeira peça é mais leve do que a segunda, mas não muito. A segunda é mesmo muito pesada, agressiva, comovente. Mas vamos ver como se aguentam a esta”.
As três dezenas de leitores/ouvintes que compareceram ao desafio não se assustaram. Distribuídos pelas várias almofadas do acolhedor Centro de Documentação do TNSJ, aguentaram como gente grande “Litoral” (da qual foram lidos excertos) e maior parte permaneceu para a segunda rodada, a leitura de “Incêndios” (na íntegra).
Acompanhou-se com entusiasmo e alguns sorrisos nervosos a demanda de Wilfrid, que carrega o seu pai morto, com que vai conversando, na procura de um lugar na sua aldeia natal (de onde fugiu por causa da guerra) para o enterrar.
Wilfrid vive como se estivesse num filme – com equipa de filmagens e tudo –, ele e seu amigo imaginário, o Cavaleiro Guiromelan, que de vez em quando aparece para decapitar algumas personagens inconvenientes. Em ambiente de delírio onírico, acontece toda a espécie de peripécias, contam-se histórias de morte, loucura e violência.

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Ainda mais intrincada é “Incêndios”, uma história de terror – de descoberta do passado – que começa com uma história de amor. Aqui, os gémeos Jeanne e Simon vêem-se “obrigados”, após a morte de sua mãe, a procurar o pai e o irmão que desconhecem. Essa procura vai levá-los à terra de seus pais, destruída pela guerra. O que é revelado por essa procura acaba por construir um sentido para a vida das personagens. O encontro com a obra de Mouawad termina esta terça-feira, dia 17 de Dezembro de 2013, com a leitura das restantes obras da tetralogia: “Céus” e “Florestas”. O próximo trimestre das Leituras no Mosteiro é dedicado à comédia. Serão lidos Plauto (“Anfitrião”), William Shakespeare (“The Merry Wives of Windsor”), Alfred Jarry (“Ubu”, na versão de Alexandre O’Neil) e Joe Orton (“What the Butler Saw”).

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<Texto>Luísa Marinho
<Fotos>DR João Tuna e Helena Machado (imagem de Nuno M Cardoso e Paula Braga)