Os Graffiti do Porto a dar que Falar

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Um graffiti de Alexandre Farto por detrás de um estudante de 17 anos… estudante graffiter, que está entre o geógrafo Álvaro Domingues e um dos promotores e moderador da conversa desenhada em forma de pergunta: «Por Que Pintamos as Cidades?».
As pessoas na frente – as que estão na conversa e as que habitam as cidades – e a cidade do Porto particularmente em discussão lançada recentemente pela associação Fora da Porta e o ciclo “Olhos na Rua”. “A cidade viva e com coisas interessantes e desinteressantes, assim mesmo, porque talvez não se possa definir o que é melhor ou pior: se esta higienização excessiva ou a violência de algumas pinturas?”. Depois da pergunta do próprio debate,à partida, esta é mais uma questão, desta vez deixada pelo moderador, Júlio Alves, após uma intervenção de Álvaro Domingues que assume o risco de ser “advogado do diabo”, confessando que se torna “complicado discutir o graffiti porque ele é, hoje, completamente distinto”. Acrescenta: “no graffiti a matéria de facto decorre da maneira como se organiza a discussão sobre os graffitis e graffiteiros e a polémica que isto suscita socialmente. Fala-se dos conflitos, fala-se da empresa que Rui Rio tem para pintar de branco”. E Rui Rio, o ainda presidente de Câmara do Porto, sempre que citado traz à discussão como spray de fresco contornos políticos tendo em conta, por exemplo, o facto de alguma arte de rua da autoria de Hazul ter sido apagada por ordens da Edilidade.

Neste cenário da conversa a poeta Regina Guimarães confessa o que a aflige: “o que me faz aflição na perseguição às paredes graffitadas não tem nada a ver com graffiti. O que me põe louca são as fábricas de Relvas – eventual alusão ao ex-ministro – que são algumas associações de Estudantes e o facto de elas terem o poder para chamar os «doutores da mula ruça» e colocar caloiros a limpar tags feitas pelos miúdos dos bairros. Isto é outra coisa”. E repetem duas ou três vozes: “é outra coisa, é outra coisa”. Regina Guimarães avança e conclui a linha de pensamento: “Basta ir às assembleias municipais para ver o que eles (maioria social democrata na câmara) querem fazer! Querem transformar a cidade num corredor de aeroporto com lojas de charme”.

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Álvaro Domingues, determinado a ver as coisas com distância total, admite que “se uns graffitis têm o poder de abanar uma população sedada, já outros não fazem sentido”. O graffiter de 17 anos, Lourenço, explica o que são tags a quem pergunta e explica que são feitas maior parte das vezes em prédios devolutos ou degradados da cidade. Mas tambénm fala de crews, de Banksy e do próprio Alexandre Farto aka Vhils, cuja imagem vai sendo fotografada onde decorre a conversa… nas traseiras da Fábrica Social – Fundação José Rodrigues.

Clara e expressa por todos foi a menor importância das tags quando comparadas com trabalhos mais interventivos do ponto de vista artístico. Mas entre Veneza e a higienização das cidades é José Soeiro, o cabeça de lista da candidatura à Autarquia do Porto por parte do Bloco de Esquerda, que deixa outra pergunta…. mais uma: “por que é que ninguém se preocupa que uma vaca e a Mimosa ocupem grande parte da Estação de Metro da Trindade ou a Superbock a fachada do Rivoli?” Soeiro preocupa-se que a contra cultura natural e não paga esteja a “disputar o mesmo espaço visual com as grandes empresas”. Será a mesma coisa? E poderá o Lourenço disputar o espaço com Vhils ou Hazul? Acontecerá isto apenas no Porto? Vítor Belanciano escrevia esta semana num artigo do Público exactamente sobre as paredes pintadas ou, melhor, sobre muros brancos e um povo mudo. Muitos outros falarão até por causa de uma proposta de Lei do Governo. Enquanto der que falar as paredes vão dar que pintar… e voltando atrás e a uma outra frase de Regina Guimarães, terminando também com uma pergunta: “Até parece que as pinturas de paredes são exclusivas do graffiti e da cultura americana?”.

 

Texto e Fotos / Nuno F. Santos ; Foto de Destaque / Carla Lima