Ana Miró: Sequin, Beijing e L.A.

Música

 

ana miro

Do quartel general da editora lovers & Lollipops até Los Angeles são cerca de três horas de auto-estrada. Los Angeles, onde vive Sequin, a extensão natural… muito mais do que alter ego da portuguesa Ana Miró – “alentejana de gema” como diz – e que é um dos mais aguardados projectos para disco da Lollipops. Estará pronto na Primavera deste 2014. Por enquanto (estamos em Janeiro quando lerem isto no futuro)… por enquanto há chuva, tempestades e frio com recordes por quase todo o mundo ocidental. Mas a partir de Los Angeles ouve-se Beijing, o tema que Ana Miró começou a espalhar ao vivo e a testar nas rádios. Algumas. O tema traz a candura das melodias dos anos 80, sem que seja Retro. Não… é mesmo som para 2014!

Se os anos 80 voltarem como revivalismo definitivo… bem, se eles voltarem para lá dos penteados e das roupas, para lá das festas temáticas ou dos sítios para se dançar como se não houvesse amanhã, se eles tiverem de voltar… então que voltem com o sintetizador e a voz de Ana Miró. Sequin é a alma desta lollipop que tornou o Verão menos quente com Beijing e o Inverno mais aquecido com Physical, original de Olivia Newton John que dispositivos como o Shazam ainda não identificam. Não faz mal. Os que viveram os Eighties e os que se lembram dos Eighties, nem que seja pela curiosidade atrás de hits para versões, não podem esquecer aquele videoclipe que só fazia sentido na década de que falamos: Um ginásio, musculados e obesos… uma mulher com fita na cabeça a cantar-lhes nas caras de esforço. “I’m saying all the things that I know you’ll like / Making good conversation…(…)There’s nothing left to talk about / Unless it’s horizontally “… excertos da letra de Physical, imaginem. Mas a magia da cover de Ana Miró,  para lá de nos fazer esquecer a loucura da letra, transforma vontade de dançar numa forma de amor qualquer. Amor como quiserem. É difícil ouvir o original da mesma forma, depois do que Ana Miró/Sequin lhe fez, mas voltamos a cantar Physical, curiosamente na Era em que ao corpo cada vez mais se exige até com disfarces saudáveis. Vivemos a malhação e o ginásio em todo o seu esplendor.

sequin (1)

 

“Andava a cantarolar a música com uns amigos e, na brincadeira, fiz a versão no meu quarto (em Los Angeles), sem sequer ouvir o original da Olivia Newton John”, diz Ana antes da essência da cover: “Em geral, faço covers de músicas de que não gosto, porque as outras já lá estão… perfeitas”. A questão é que esta é uma música que pode tomar bem conta de Sequin e levar o disco que aí vem na Primavera para dimensões além Los Angeles, que já fica no centro do mundo artístico. Rui Reininho, por exemplo, em entrevista recente a propósito do disco “Voz e Guitarra 2”, relembra que já gozou e brincou “com músicas e depois, perante o poder das mesmas, foram as músicas a mandar, foram elas que brincaram”.

Ana colabora em muitos projectos – no dia em que falámos com ela, entrava em estúdio com Jibóia – porque, para lá de gostar e de colocar a música acima de tudo, não sabe dizer não. O único “não” que lhe ouvimos: “não gosto de ouvir a minha voz. Gosto de ouvir o Óscar (Jibóia) a tocar, gosto de ouvir o que componho, mas não gosto de me ouvir. “Sim sim, pode ser isso… se calhar sou um pouco como os escritores que não voltam a olhar para o livro depois de o acabarem”. Ah, Ana Miró também não gosta da parte da Produção.

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Para lá de Los Angeles, a três horas de auto-estrada do quartel general da Lovers & Lollipops, outra das suas casas é o percurso pelas bandas que teve desde os 13 anos.  “É uma escola. Aprendem-se coisas básicas em palco e técnicas que hoje permitem não cometer erros básicos”. Da escola de música em criança às bandas foi então uma passagem natural, como é natural Sequin, esse lugar musical onde Ana não pensa “à partida,  se a música vai ser ouvida só em Portugal, nos Estados Unidos ou no resto do mundo. Mas claro, gosto que ela seja ouvida à escala mundial, até pelas influências que me tocam”.

“Qual o palco em que gostava de tocar perguntas-me? Não conheço muitos palcos no mundo, mas no meio desta conversa falaste em Tóquio e, lá está, seria brutal tocar num palco qualquer no Japão”.

É impossível não fazer o paralelo entre a velocidade da urbe Tóquio e a velocidade com que Sequin se cola aos nossos ouvidos. Ana vai mesmo ao processo todo para falar de velocidades: “tem sido tudo muito rápido. Nem dou pelas coisas. A Physical fiz num verão e, quando a Beijing começava a ser muito tocada, só queria deixar-me ir”.
Ora, foi a partir do tema Beijing que ficou o nome do projecto mais  íntimo que Ana Miró partilha. “Na Beijing tinha uma parte com a palavra Sequin, mas não se enquadrava no final. No entanto a palavra ficou ligada a mim e nem sei bem porquê. Não a quis largar. Sequin sou eu, também porque não gosto de me apresentar individualmente. Talvez seja a forma colectiva de Pop Indie de mostrar quem sou”.

Se com Jibóia Ana Miró se mexe e pensa apenas na voz, com Sequin existem ela e a máquina, ela e os acordes, ela e as letras, ela e a voz. “Apesar de me retirar alguma envolvência com o público é uma coisa que, como me é confortável e muito natural, me deixa bem. O que quero e gosto é de ter espaço para improviso… eternamente! Faz parte de mim. Não consigo chegar ao palco e cantar uma coisa do princípio ao fim sempre igual”.

Sequin (2)

 

Ana Miró/Sequin, uma alentejana que vive entre Évora, os Anjos em Lisboa (sim… são os Los Angeles de Ana Miró, o tal centro artístico de tudo) a três horas de auto-estrada do quartel general da editora Lovers & Lollipops, no Porto.

Agora que estamos devidamente situados, sabemos que não existe geografia na música e que palmeiras e centros artísticos estão na forma alternativa de fazer as coisas. Vamos a Beijing sem sair do carro numa estrada portuguesa, vamos aos anos 80 reconfigurados sem sair de uma versão que promete um disco mais quente que todas as primaveras.

Texto: Nuno F. Santos