500 Anos do ReAchamento das Memórias… andorinhas, bicicletas e mochilas

Música

 

Na estrada da frente do tribunal estiveram assim sentados… os cidadãos… em Tondela. Sentados como quando viram O Elefante Salomão ou, numa outra geração de outro tempo sempre recente… quando protestaram contra a Prova Geral de Acesso ao Ensino Superior. Sim, nessa altura deveriam ter 16, 17 ou 18 anos, mas na terça-feira que marcou os 500 anos do Foral de Besteiros estavam transformados quase quarentões entre os pais, avós, filhos e aqueles que agora devem ter 16 ou 17 anos. Esses de telemóvel aka câmara de filmar e fotografar comme il faut no escuro dos concertos.

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Calor. Sim. A Ana Bacalhau adora calor, mas calma. A mulher “com nome de peixe”, assim lhe chamou Samuel Úria, o performer de Graça Grande, Teimoso e de lenço pouco enxuto a escrever desde 1967 – piada porque traduziu à letra Something dos Beatles em palco com Pedro Baixo – … a mulher com certeza Sereia Deolinda falava fininho e armada de candura para depois se eriçar a cantar, como se estivesse a vingar-se do destino das andorinhas que não conseguiu salvar a caminho da feira com os avós. Antes do Filipe Melo, que de Mouraz fez o primeiro filme de zombies e logo premiado (I’ll See You in My Dreams) e de onde pensa toda a música, cinema e BD… antes do Filipe Melo e da confusão que está prestes a ser esclarecida para o leitor, é preciso dizer que, e para que conste em registo, foram celebrados os 500 anos do Foral de Besteiros! Opa! Que é o mesmo que dizer que na capital Tondela, onde já existiu um coreto e onde eu levei com uma garrafa na cabeça, ali em frente ao icónico Soldado Desconhecido, a caminho do café vitória ou do primeiro Pronto a Vestir e da Biblioteca, ali se sentaram todos os géneros de públicos e classes no dia em que se decidia a Europa e o mundo na política. Todos em sintonia e preparados para a terra território num palco. Uma espécie pré-época do Tom de Festa que já hoje e hoje… hoje e ainda amanhã tem na Acert espectáculos da América Latina, de África, sons do mundo com Portugal dentro, claro!

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Projectadas na fachada do edifício público e antes de Zé Rui – o homem a quem foi pedida uma estátua em vida – apresentar os tais três músicos que se tornaram o que são também por causa de Tondela, orquestrados pela Cor da Língua, apareceram as laranjeiras, água, erva nos montes e no vale, a relva com uma equipa de futebol que subiu pela primeira vez à I Divisão ou Liga… ou como se chama.. “porque na Primeira Divisão já a Cultura de Tondela está há muito”, acrescentamos: sem depender da arbitragem! Vale o que valer a metáfora.

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A primeira das frases a reter: “não é preciso viver em Tondela para sentir Tondela”. Claro que tudo isto que se escreve e que se passou e que fica e que não tem tempo verbal é um exagero, mas é de exageros que se fazem as utopias realidade. E então no exagero da escrita… Filipe Melo, Ana Bacalhau e Samuel Úria regressam à estrada onde passaram, onde se cruzaram e nunca se conheceram. Regressam para um espectáculo de celebração, juntos pela primeira vez em palco para reinterpretar temas próprios e estreias. A primeira música, precisamente uma estreia, teve “giestas nos cabelos e tons na saia verde e amarelos”. No fundo, uma música para cantar em estádios, fazer serenatas mas feita à capela.

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Voltar um pouco atrás. Quando se anuncia Samuel Úria…. atrás de mim que segurava com a senhora Graça Antunes a câmara da Slow Motion a filmar tudo… uma voz: “lembro de o ver de mochila às costas”. Quem não andou de mochila? E ele poderia ser um beirão vaidoso sem memória mas… ali estava ele, como se fosse a primeira vez em palco. «Teimoso» o primeiro e mais tarde o dueto com Ana Bacalhau. A orquestração da Cor da Língua dá à canção «Seja Agora» mais África mais Brasil e mais Fado até. Vem «Um Contra o Outro» e o povo… sereno… quer é levantar-se mas o espectáculo é para ver “com respeito”. Versão de «A Noite Passada» de Sérgio Godinho, «Estrela da Tarde» numa noite quente porque Ana Bacalhau desejou e gosta de calor. Emoções à flor da pele, palmas a meio sempre, os truques habituais do diálogo do palco para a rua, o encore em hino com os músicos das escolas e o coro da Casa do Povo… sereno sim… “porque isso também é o 25 de Abril”… isso do acesso aos bens culturais entenda-se e enfim os agradecimentos. Úria: “Agradecer em nome de todos e falo por vós com certeza à ACERT e um atrás de mim a gritar nos ouvidos do lado da cicatriz da garrafa: “TAMBÉM ACHO!”

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Claro… todos vestidos com o equipamento do CD Tondela e na memória o quente das temperaturas sem graus, os gatos, os avós deles e os nossos, a guitarra na praça, as religiões de uma terra cidade vila eterna com religiões à mistura sem problema, Mia Couto a nascer para o Teatro, um homem a martelar com um braço e a fazer o mesmo movimento com o outro, o treinador em cadeira de rodas motorizada, o baterista cabeleireiro que faz ritmo entre tesoura e pente, o lobisomem que não sabemos se é verdadeiro e o sul coreano que adivinha se é galo ou galinha que nascerá… olhando apenas a forma do ovo imaculado. Não é mito urbano. É o que quiserem. É a avó Luzita de Ana Bacalhau, é o gingar de Samuel Úria e o imaginário de Filipe Melo a cortar o escuro de bicicleta uns quatro quilómetros até ao tribunal…. é Kid Mouraz.

Mas a festa continua… até Sábado a já ser Domingo. Claro, o “sangue e sorriso” da mulher com nome de peixe ninguém lhes nos tira. E a mim só, ninguém me tira a cicatriz nem a ideia de um conjunto de estátuas espalhadas pela cidade, essa onde as laranjeiras da memória ainda são o que mais conta.

Nuno Cash ou Nuno F. Santos escreve este texto… as fotografias roubadas ao Ruca da Collor Effects e ao Carlos Fernandes…. uma é do trabalho que fazia…

P.S. No concerto da TKNT (Televisão K Não é Televisão e que por estes dias é muito Tondela K Não é Só Tondela) com Cash e os Converters Samuel Úria Filipe Melo e Ana Bacalhau serão convidados… nessa gala de apresentação de uma grelha de loucura 

P.S. 2 Ricardo e Carla… devo três tostas mistas dois finos e uma cola… se alguém pagar fantástico ou então até já… no bar da ACERT