Sejamos só por um livro uma Noite Estrelada

Livros

 

Se ficássemos só nós os dois sozinhos no mundo, tinhas medo?

– Não tenho. Às vezes sinto que somos sempre só os dois. Podia ser possível, mas não tinha… Porque quando estou contigo sou mágico como a menina do livro.
– Que livro?
– O do Jimmy Liao… Noite Estrelada, um assombro.
– Que título estranho!!!
– Desculpa, o titulo é só Noite Estrelada. Eu é que estou assombrado de fascinação pelo livro.

Devagar, entrávamos no silêncio da floresta

Como na música da Elis Regina, Fascinação?
– Como em tudo. Este livro tem a ver com tudo e com todos. Pergunto-me como é que tão pouca gente olha para as estrelas. Toda a gente um dia ou outro olha mas não repara, como no dizer do Saramago. Choraste n’o Principezinho, o filme, em 2017. quando se falou da estrela. Eu corei a alma e matei as traças da barriga ao aprender as constelações de uma pintora que trata os fenómenos intuitivos por ciência. Eu fiquei orgulhoso quando abracei aquela que acreditava que o amor era para sempre e depois se desconfiou disso a olhar a água e os moliços, estive quase a desistir quando hoje mostraram o atropelamento de Barcelona depois do atropelamento de Charlottesville depois do atropelamento de Nice depois dos incêndios depois das pessoas que não têm tempo sequer de pensar nas estrelas. Eu estive pasmado a escrever horas no computador e a lembrar-me de ti e horas agarrado às frases do livro como que a… como que repor-me no mundo que conta. Este livro é tudo filha. Não lia há muito, não lia nada que não fosse trabalho. E tem poucas frases mas o que as imagens e elas juntas contam é para descobrir a beleza do mundo para lá da supremacia branca ou das raças que inventaram.

– De que estás a falar pai?
– De nada amor, mas preocupa-te quando chegar o tempo de te preocupares. Agora sê criança sem aulas forçadas nem méritos ou provas de excelência, nesses erros que caímos. Estou a imaginar-te já daqui a uns anos… és verdadeira com 8 anos, vais adorar o livro e mostrá-lo a toda a gente. Mas falas comigo neste texto como minha amiga imaginária. E hoje escrevo para todos os que são as minhas estrelas. Esses que vejo todos os dias e com quem gostaria de partilhar cada pedaço de mar com baleias e céus no campo, de alusões a Van Gogh. A Margarida da Kalandraka diz que já está a sair quase um outro dele… mas eu só quero este para estar.
Em viagem de carro contaste-me que tinhas amigos imaginários e perguntaste-me se eu tinha alguns. Eu disse-te a verdade. Sim. Tenho a tua mãe na altura em que estava grávida de ti, a Ana que conta as estrelas em São Paulo e a Ana que desenha na praia o meu nome e com quem viajo todos os meses, a Deolinda com quem passo horas a conversar de mão dada ao pé do rio, o Nélson com quem vejo as corridas mais loucas o mundo ainda a preto e branco e a Raquel, com quem vou ter a Londres. Claro, às vezes os meus pais também são imaginários a falar comigo sobre livros como este e sobre esta imagem, em particular, ao invés de dizerem que já não tenho idade para estas coisas

– O que é que tem esse livro de tão especial em relação a outros?
– O toque. Parece que somos autorizados a tocar em pinturas dos museus sem culpa nem alarme. Os silêncios que recordam as gargalhadas de uma neta com saudades do seu avô na montanha. A forma adulta como se fala da timidez e da diferença, do bullying. A história de uma amizade entre um menino e uma menina que, só por viverem nos seus mundos, são metidos no devido lugar mas fogem… e quando fogem da cidade  – não sabemos se é verdade ou imaginação – levam-nos a sítios encantados, julgam-se mágicos contra a crua realidade que esmaga e bate nas pessoas, vêem o mar para saber do pai dele, têm segredos. Pela partilha. A forma como se pode mostrar este livro e perceber que mesmo não sabendo muito de constelações podemos dizer tudo de uma vez e nunca esgotar o céu. Há planetas sem fim lá em cima não é? Pela forma como o Daniel leu o livro com tanta gente à espera dele, com ele a ter o poder de parar o tempo, a maneira como o Pompeu se recordou da Arrábida e de que mergulhar é a coisa mais parecida com voar, a alegria da Patrícia, o fascínio do Vagalume, a recordação da Mónica.

Não fui ao funeral do meu avô. Não queria chorar à frente dos outros e o meu avô teria ficado triste se me visse em lágrimas. 

 

Eu não fui ao funeral do Mário este ano, ou da Raquel há muitos anos ou sequer do Nélson há muitos mais. Fiquei a cuidar do Afonso e do João no… esquece, não tenho coragem nem sei fazer lutos, mas sei que sou abençoado tal como ela: Eu tinha mais sorte do que ele porque sei fazer magia
 
Tenho ainda a ilusão de ser um enorme ilusionista dos dias. E depois quero tanto cantar para a Annie no dia de anos dela ou chamar a Vera ou telefonar à Fátima ou ligar ao Luís a toda a hora, ou dar uma prenda à Cândida pelas cerejas todas com que educou os sorrisos das filhas e não tenho tempo. Consigo sim comer com o Filinto – não interessa o que se come interessa com quem se come -, às vezes, e namorar de bocadinho em bocadinho. Nem tempo de agradecer a todos, um por um, por se terem lembrado de mim nos meus anos. Como a Sara adoro fazer anos. Agradecer com uma prenda, com um texto, com um beijo, com um palpitar qualquer, e sei um por um quem me disse o quê e os que sei que não precisam dizer para estarem comigo sempre.  Irmãos que me emocionam, sereias que me preenchem de estrelas cá dentro. Mas também me chateio, e muito, com algumas pessoas… como ela com os pais. Também me desencanto:

– Não queiras também saber o que se passou entre mim a tua mãe… foste e serás apenas e só tu. Nada mais é eterno. O que posso dizer é que estou a ser cada vez melhor ilusionista, dar magia e usufruir dela na pele dos outros ou no olhar em troca.
– Namoras pai?
– De bocadinho em bocadinho, e amei este livro literalmente. ainda estou apaixonado por ele. Daí este texto tão tonto e tão grande sem me calar… e sim namoro as coisas boas porque estou muito feliz… feliz por andar com o Principezinho e o Polegarzinho contigo, feliz por reencontrar a Ana e os seus desenhos, feliz por me lembrar da Inês antes de ver o Alaska e eu a ouvir Satellite of Love num Rover e a fumar, feliz por saber que sou imperfeito o suficiente para ser um sacana sedutor. No fundo, o rapaz do livro, os seus desenhos, a forma como criava mistério ao andar solitário mas seguro era sedução. Repara na cena das férias, quando ele vai para a montanha
 

 

A Adriana vai querer ler o livro todo ao Serafim, eu continuo a descobrir Magritte e mais referências nele. Continuo a descobrir a razão pela qual ele não me chateia por ser dobrado ou já não se sentir tão reluzente como nos primeiros dias a cheirar a gráfica. Vou estar com o Lucas, com o Viriato, com a Maria Clara e o Gustavo e com a Catarina, vou mostrar-lhes este livro e ter a tua idade real de hoje, 8 anos. Vamos andar com ele para todo o lado, para todas as noites

 

Quando a neblina desaparecia, via-se a mais bela noite estrelada 

fascinação por Nuno F. Santos Cash