«As Regras do Verão» I: Não Ter Medo de Ter Medo

Livros

 

Agreste no toque. Depois de uma semana a aguentar olhá-lo ao lado de outros livros pousados para serem recenseados, abre-se numa insónia «As Regras do Verão», de Shaun Tan. Livro da Kalandraka. De Shaun Tan, o autor de «Emigrantes» e «A Árvore Vermelha», dois tesouros. Diferentes, mas tesouros. É impossível não adjectivar nas publicações da Kalandraka, do Planeta Tangerina, da Orfeu, de outras editoras e outros livros de um mundo em que os adultos se deslumbram. Não sabemos, sinceramente, quem gostará mais. Às tantas a salvação do mundo é tornar os adultos em crianças nem que seja a espaços. Antes das contas de somar. Não se sabe, embora contar seja muito importante. E somar também, claro. Mas por enquanto é preciso parar para viajar, aprender a usar a imaginação dos seres a viver acima, sempre acima das possibilidades das suas imaginações.

Agreste. Sente-se a tinta. Uma cidade industrial ao fundo, subúrbios? Agora o título antecedido na página da esquerda pela ficha técnica. Macio e a imagem de dois meninos em festa. Será uma menina? Tem o cabelo curto mas… é indiferente. Um segredo, agreste e macio. Sombras. Estamos na cidade industrial. Não há carros nem semáforos, não há pessoas apressadas. Excepto as duas crianças e um pássaro num fio que liga os muitos postes de electricidade sente-se o fumo e cabos de alta tensão. Mas é uma cidade deserta. Um segredo sem palavras. E do macio, de novo, pintado tal qual – e se calhar será – por crianças verdadeiras, riscos a lápis de cera. A inscrição sem imagens, à espera do que vem: “Foi isto que aprendi no verão passado:”.

Fogo? Não, um coelho gigante e o medo das crianças. Primeira regra… esta citamos: “Nunca deixes uma meia vermelha pendurada na corda de uma roupa”. Vejo e sinto o resto das páginas. Este livro não é para crianças. É para mim. É um universo  de solidão a dois, como uma história perfeita de amizade e amor. Como num sonho. Não consigo compreender as regras. Tenho de voltar ao livro assim que acordar. Preciso percebê-lo.

regras do verão