O Verão Felizmente Finalmente

Livros

 

Assim que entraram cá em casa e o viram, aberto, como se os livros fizessem espargatas, disseram:”que giro, uma novela gráfica!” E foram três pessoas em dois dias. O que quer dizer que vou seguir o que eles comentaram antes de consultar todas os outros textos que possam já ter sido escritos por este livro. «Finalmente o Verão». Um título que a mim, invernoso, me afastaria de o abrir sequer, não fosse o Planeta Tangerina uma das editoras que envia livros à TKNT para recensão. Depois, claro, mais qualquer coisa sobre o Verão no Verão. Hum… desconfiança total tal como mais ou menos no Verão passado quando abria o SuperGigante, que a esta hora está com o Lucas a ler, a correr e a crescer enquanto o folheia. E já aí fiquei surpreendido, mas agora, agora nesta colecção Dois Passos e um Salto para adolescentes e outros leitores mais crescidos, agora cá estou eu de novo na página 153 de uma BD – desculpem… novela gráfica. “A minha mãe gritou com o meu pai a noite passada. Tipo, GRITOU MESMO”. Eu… fico na dúvida se as letras maiúsculas são já propositadas no contexto da nova linguagem dos telemóveis e chat no sentido de que tudo o que vem em maiúsculas é sinónimo de grito ou se… tipo, talvez seja uma cena mesmo para os adolescentes e eu me ESTEJA A METER ONDE NÃO SOU CHAMADO. A verdade é que consigo, com 40 anos em 2015, compreendo a Rose, adolescente protagonista de férias em Awago Beach desde que se lembra, numa cabana junto ao lago. Mas também compreendo o pai e a mãe dela, a amiga Windy e mãe da Windy.

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Existem os locais, os problemas deles, a forma como lidam com as coisas e chamam turistas a pessoas que adoram aquele ar como ninguém e que já não são turistas, as adolescências diferentes SEM NENHUM TIPO DE MORALISMO entre classes diferentes, urbanas e não diria subúrbios, mas aqueles que vivem todo o ano numa praia e assistem às cambiantes da paisagem que sentem deles. Sim, o coração da história… ou melhor, corrijo-me de novo, o coração da novela gráfica até pode ser a amizade fantástica de Rose e Windy que se separa neste Verão por causa de… mudanças. Mas as mudanças que pensamos não são aquelas que imaginamos enquanto lemos. Quando vemos uma mãe a tossir imaginamos uma doença terrível mas não é assim; quando vemos um pai a quem chamam cromo imaginamo-lo cromo mas não é assim. São os casamentos e os anos que passam com filhos ou sem eles… as expectativas o quotidiano.

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O Verão é sempre o mesmo e no mesmo lugar mas, aqui, é tão patente que essa pode ser a salvação dos nossos amores, esses lugares de memória em que podemos resolver na mesma areia sob o mesmo ar tudo aquilo que ali mesmo também nos magoou ou deixou de ser surpresa. E a Rose, a Rose consegue crescer naquele mesmo sítio onde poderia ser sempre excluída, mas onde, de facto pertence batendo com uma vara nos ramos das árvores, nas ervas e caramba, nós andamos com ela a perceber quando é que ela abriu os olhos a primeira vez debaixo de água com a mãe e quantas estrelas contou com o pai. Os desenhos são tão reais… e até poderiam ser da Manga mas não tanto e até poderiam ser a preto e branco, mas há subtileza nesse aparente preto e branco. As referências são verdadeiras e banais, tão banais que acreditamos nelas: as Pringles, os dvd de aluguer com «O Massacre do Texas» ou «O Tubarão», no fundo… no fundo acho que todos começamos a perceber que a melhor coisa do mundo pode ser o que Windy diz: comer batatas fritas e maçãs numa bóia. Ou então flutuar como a Rose. Estou a ver as duas amigas a nadar e apetece-me o mesmo Verão de sempre, nem que seja nostálgico. Encontramos tanta coisa nele… Finalmente o Verão.

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P.S. Parece-me neste momento que enquanto a mãe de Rose está cansada, o pai desiludido mas sempre na brinca , a Windy recusa-se a crescer enquanto a Rose… a Rose deve estar apaixonada pelo “bronco” da única loja em Awago Beach.

nuno f. santos no regresso do Verão em Agosto