«Noone» sobre os Alguéns e os Lugares…

Livros

 

Um sonho é sempre a preto e branco, dizem. Este também. «Noone – A história de um dia» é um sonho desses que vivemos durante o sono e é como os reais, passe a enorme contradição. Não, não é colorido, mesmo metaforicamente, mas também não é de um universo negro, se o leitor por algum acaso associar o negro à ausência de claridade das coisas. «Noone» é um grito na Vida das pessoas num Planeta com pessoas em países com pessoas e em ruas com pessoas. Mistura o consciente com o subconsciente.

homem velho,cidade velha

“Homem velho, cidade velha”

Nuno Gandra é quem grita e começa por um pequeno conto. Pequeno em número de caracteres. Não é um micro conto, contudo. É um conto um pouco mais curto do que os contos de 10 a 20 páginas. Nuno Gandra descobriu a “imensidão das palavras” para lá do artista plástico que é, sobretudo. “As palavras contêm muitas imagens, são imensidões diferentes”. E começa o livro: “imaginou um planeta sem cores, sem continentes e rodeado por milhares de estrelas. A harmonia num aparente caos. Perguntou: e aqui a Vida é?” Se alguém responder, mesmo que a pergunta possa ser retórica ou fazer parte de uma narrativa, dirá que “sim, que a Vida é tudo o que de melhor existe com o Planeta de cores”. Mas a Vida também passa pelas linhas dos corredores dos hospitais, pelas macas e por lugares quase vazios. E não é depressivo, é um caminho. Neste «Noone», seguramente o Sol e as Nuvens, as Árvores, a Lua e a Água são intermitentes com a solidão, por exemplo. Mesmo com esse zapping de destino, a Vida é isso também. «Noone» não é um conto de fadas. É, de novo, um grito a uma sociedade assombrada que ainda tem de bom os quatro elementos, a harmonia da Natureza por si só. É esse equilíbrio que precisa de ser encontrado, como se através de uma técnica mista que Nuno Gandra usa para “criar uma nova consciência em relação a tudo”. Voltamos ao conto escrito: “as folhas de papel com número forram imaginações em cabeças de madeira“.

bolsa sem valores

“Bolsa sem valores”

E no Caos, a estrutura deste livro é meticulosa, tal qual um corpo onde nada está fora do seu lugar ou «zona de conforto», essa expressão que tanta gente usa. Abrimos o livro e lemos o conto. Depois, acabam as palavras e começam as imagens. É o mesmo conto e deixe-se ir, tudo está organizado em momentos e sensações diferentes, mas sempre como nos sonhos do subconsciente em sono, nesse limbo onde as recordações são todas a preto e branco, devemos recordá-lo.
Nas imagens… que são quadros, não foi utilizado um único pincel e o trabalho vive muito do acaso, de reacções químicas. “Depois da fotografia, que é o início de tudo, decido avançar. Quando a imagem passa a viver no gesso começam a acontecer surpresas: uma mancha que me transporta para um imaginário e, calmamente, trabalho a partir daí com um pequena máquina que me permite rasgar o gesso. Tudo foi feito de propósito mas o resultado, embora parta da fotografia, é também escultura e pintura”. «Noone» pode não ter classificação, mas tem luas e um planeta, tem vidas e palavras… todos em direcção à carne e osso que talvez faltem. “Encontro muita gente a pintar como o Lucian Freud, mas sinto a ausência da carne que na minha opinião vivia nos seus quadros”.

um olhar, uma vida

“Um olhar, uma vida”

«Noone» e este artista plástico que, depois de um ano em que pintou cinco quadros – a personagem crescia de quadro para quadro – abandonou o acrílico exploram várias linguagens, mas do que aquela linguagem que se quer sempre encontrar. Nem de propósito, reparem: tal qual a vida pela qual o autor entra no livro e a quem se dedica, sabendo que ao dedicar-se a essa vida está a dedicar-se a muitas outras. E mais do que em carne e osso… com certeza em carne e alma. Parece esotérico, mas veja o livro em todos os seus pormenores e percebe.

lua cheia

“Lua cheia”

<Texto>Nuno F. Santos