A Luz de um Livro daqui à Palestina

Livros

 

convite

Em Portugal uma menina grande é destroçada aos poucos. Bombardeada por notícias, bombardeada por escândalos, precariedade e o medo, bombardeada com o choque ao ver a inocência dos outros, perdida à custa de números e economias. E desenha no meio dos destroços sociais. Luta… tenta salvar o mundo. Em Gaza, uma pequena menina palestina apanha livros nos destroços onde casas, família, amigos e muitos conhecidos ficam soterrados. São destroços também. Morrem mesmo. A imagem existe graças a um fotojornalista e viaja na Internet. Chega à menina grande. A imagem apanhou-a de repente, enquanto a sua vida ia tendo imagens de outros conflitos que atravessam gerações na Turquia, a par de conflitos de personagens que descobrem em «A Casa do Silêncio», de Orhan Pamuk, a importância que um livro tem. Fatma… a personagem que não é, bem pelo contrário, alguém que se goste literariamente, descobre no final de Pamuk essa importância. Por isso a menina que vive em Portugal não pode fazer outra coisa se não desenhar logo. Um amigo diz-lhe: “aquela miúda em Gaza está a salvar o mundo”. «Books and war» começa em Treviso a preto e branco e vive inicialmente sem texto, embora nunca estejam sozinhos os desenhos. Podiam viver sem texto, mas viviam muito mais pobres. A menina, a grande, desafiou “o mestre” João Pedro Mésseder  a escrever neles. Nos desenhos, agora com palavras, Kalil morre porque a escola foi bombardeada. E a menina grande pergunta: “por que é que se lançam bombas?”.

Os desenhos e as palavras contam uma história de uma sobrevivente que recolhe livros, que assim saberá – quando se reconstruir a escola, a vida ou o País – o que Kalil lia… Que luz?

“Quando Kalil lia histórias era como uma luz se acendesse no escuro… os estrondos e as sirenes não se ouviam”.

A menina grande, que desenha todos os dias desde há muitos anos, antes de dar os desenhos a Mésseder pensou em colar-lhes o texto de Pamuk. Se hoje fosse bombardeada como as crianças de Gaza a luz que estaria a ler seria «Morte a Crédito», de Céline.

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A menina que desenha é bombardeada com as tais notícias e tristezas, entre alegrias também, mas diz que não são bombas como as dos desenhos, inspirados na vida da outra menina… a pequena. Essas são bombas que matam seres humanos, destroem cidades, vidas… não consegue sequer imaginar o que seja. Não tem medo, agora que os seus desenhos são um livrinho que é um livro…. não tem medo que lhe perguntem se é um livro político porque ela sabe que é um livro político. Pode escolher e decidir sobre o que desenhar. O livrinho que é livro e que se chama «Que Luz estarias a Ler?» é apresentado esta sexta-feira na Escola Superior de Educação (ESSE) do Porto e a 20 de Dezembro no Teatro da Cerca de São Bernardo, em Coimbra. Tem a chancela da xerefe, uma ideia antiga pensada pela menina que desenha todos os dias e Ali, coincidência ou não… um amigo turco. Xerefe, que se escreve na realidade com “S cedilhado” quer dizer “à nossa!”. Um brinde. Esta menina chama-se Ana Biscaia e pensa muito naquela cuja imagem correu mundo. Onde andará ela? Foi ela que despoletou estes desenhos que agora têm cor e uma pergunta universal. E claro, vai chegar-lhe… vai chegar à menina que apanhava livros nos destroços em Gaza. Como? Isso é um segredo entre meninos que escrevem e desenham… mas podem ajudar! Meninos são sempre precisos.

<Texto>Menino Nuno a partir de conversa com menina Ana Biscaia
<Imagens>Imagens do livro