O Livro Com Teatro que Felizmente Desconstrói a Realidade

Artes Performativas

 

Está oficialmente lançado para o mundo pela Companhia das Ilhas, desde o Centro de Documentação do Teatro Nacional São João do Porto (TNSJ), o último dos registos obsoletos, mas fiáveis, perante toda a tecnologia vigente e futura. Falamos, senhoras e senhores, de um livro! Um livro com a ousadia de insistir nesse universo das páginas com carateres lidos à velocidade de cada um e, não, pasme-se, ouvidos a uma velocidade de aceleração. Mas não só. Um livro com duas peças de teatro, sem frases das que servem para colocar num molde de entrada no aparador. Bem… é o Visões Úteis e, já sobre isso, se percebe muito da insistência, nomeadamente a quem acompanha a trajectória de um sentido único no que toca à crítica e ao papel do Teatro na desconstrução da realidade. Não é “fazer sempre o mesmo”, como às tantas se brincou na apresentação que decorreu no Mosteiro de São Bento da Vitória, com os criadores do colectivo, Ana Vitorino e Carlos Costa, em breve conversa sobre as edições e sobre as duas peças, juntas apenas por questão cronológica. Claro, é que isso do mesmo ou dos pontos de ligação encontram-se a posteriori, quando relacionamos à nossa volta as prioridades de combate, cruzada ou conflito existentes nos links… como agora se diz em absoluto.

Yuck Factor e Romance da Última Cruzada são as peças num só objecto manuseável e de palavras com tinta impressa. Mergulhando nas peças e naquela que é matriz do Visões, há que ter em conta, em primeiro, a abordagem das mesmas. Yuck Factor vai à mesa, literalmente, a ao mundo da comida e das regras de etiqueta para reflectir as tensões éticas e identitárias da nossa Europa comum. É a desconstrução – aí está o sentido do Teatro – da indignação tantas vezes aplaudida, seja de que lado for. Uma expressão que simboliza o nojo ou aquilo que repugna no outro e, como diz Ana Vitorino ao contar por que interessou ao Visões falar desse factor em voga, desde as redes sociais também ora, é ir até aos limites daquilo que se gosta ou não, o que faz bem ou mal e os pressupostos com que somos “confrontados ou confrontando aquilo que achamos correcto”. O leite, o camarão, a carne, e a actriz galega que mal envia o currículo e já está a fazer a peça. Depois, o oposto, em Romance da Última Cruzada“, onde Ana Vitorino e Carlos Costa estavam sozinhos a escrever e em cena. O único casting possível era com as suas disciplinas, para falar de registos…. e sobretudo dos registos ao longo dos tempos com as experiências de guerra e como a representação biográfica condiciona a construção da memória. A certa altura, na conversa informal, confessa Carlos Costa sobre uma conversa com a mãe e o que ouve: “para investigarem aquilo que investigaram sobre o teu avô na Grande Guerra mais valeria não fazerem nada”. Ou seja, e acrescenta Carlos Costa: “às vezes a realidade investigada não é um romance e não é o que as pessoas pensam ou pensavam até aqui”.

É dessa pesquisa em trabalho e em prazer diga-se, em luta também com certeza, que o Visões vai fazendo a sua circulação e o seu registo também. Desde ficheiros a transmissões, crimes por desvendar e áudio walks em paróquias do Vale do Sousa, viagens de táxi ou palcos novos no bar Labirintho, no Porto, transformado para esses tempos de desmontar o FMI, dessa revisão demasiado rápida para registo – que eles têm todos os registos – que o mundo não é o mesmo. Ei-los pois, obstinados, a analisar a mudança no melhor que sabem: escrever para cena, representar e registar registar registar.

O teatro também se lê e … nós os encenadores em potência estamos a partir de Portugal para chegar a todos os lugares. Claro, também os sombrios. Nesta edição da colecção de Teatro azulcobalto, estaremos nós a desconstruir também uma parte do mundo que nos é vendida. Sobre os factos: os que contam mesmo são os que nos permitem confrontar a realidade, essa tal realidade, e nada mais. Nas duas peças há um conflito, nas duas peças estamos feridos, nas duas peças há coisas que não imaginaríamos nunca serem verdade.

<Texto> Nuno F. Santos

 

Nota: este livro pode ser comprado nas Fnac online e na loja Fnac do Chiado (confirmar se, no Porto, para lá das peças que só ficam dois dias em cena também já desapareceu a secção de Teatro das Fnac) e através do site da Companhia das Ilhas, que mostra muitos mais pontos de venda.