Beleza da Androgenia em «Trans Iberic Love»

Literatura

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A realizadora Raquel Freire estreia-se na Literatura com um romance sobre pessoas e não personagens. E sim… fala sobretudo de amor. Uma pequena entrevista onde maior parte das respostas poderiam ter sido transcritas apenas em maiúsculas. «Trans Iberic Love» é um livro sobre a revolução alicerçada na maior força que temos. Qual? Leiam!

TKNT: É provável que o teu primeiro romance possa ser considerado o primeiro romance Transgénero ou sobre a Transgeneridade em Portugal? Mas antes disso… é mesmo um romance Transgénero?

Raquel Freire: É um romance sobre duas pessoas que se apaixonam perdidamente uma pela outra e por viver fora das caixas. Sobre a revolução que elas querem no mundo. E é uma reflexão sobre a nossa identidade. Qual é a nossa identidade? O que é isto de ser Português, de ser Espanhol de ser Europeu? Qual é a nossa identidade económica? Agora há uma nova… que é ser Precário! Em Inglaterra descobriram agora que a grande classe social são os precários. É uma reflexão sobre a nossa identidade sexual e sobre a nossa identidade de género: o que é isto de estar na caixa do Homem e da Mulher, o ter de seguir determinadas coisas, o ter de se comportar de determinada maneira ou porque se é Homem ou porque se é Mulher? Portanto é sobre todas estas prisões e é o encontro de uma escritora portuguesa com um activista espanhol…

TKNT: E aí começa… a história?
Raquel Freire: Ela é uma escritora do Porto muito apaixonada pelo seu País, que procura uma nova forma de cidadania que possa reflectir estas coisas da identidade e ele, sendo um activista, já está na acção. E é precisamente um activista que decidiu que a caixa “Homem / Mulher” não lhe convém. É uma pessoa que decidiu viver a beleza da Androgenia. É o encontro da fome com a vontade de comer. É o encontro de alguém que quer mudar o mundo com alguém que está a escrever sobre a mudança do mundo.

TKNT: Já alguma vez leste alguma coisa literalmente romanceada sobre esta questão Queer ou sobre a Transgeneridade. Pergunto, se leste em Português?
Raquel Freire: Não. Não li em Português. As coisas que eu li… e há histórias de ficção maravilhosas americanas, inglesas, um bocadinho espanholas e francesas, mas em Português nunca li. E queria muito ler! Então escrevi este livro com muita vontade de ler sobre este assunto.

 

TKNT: Podiam ser simplesmente duas pessoas não identificadas no género e o leitor poder vir a descobrir, por exemplo?

Raquel Freire: O livro é verdadeiramente um jogo. É um filme. O livro é mesmo uma aventura. E só quando se começa a ler o livro… e o livro tem várias formas de ler… podes começar de um lado podes começar do outro. Podes escolher a tua própria forma de ler a história, porque cada um conta a sua vida na primeira pessoa, inclusive no momento em que se encontram. Tens a mesma coisa vista… por dois pontos de vista diferentes. Aí começa a questão do que é o ponto de vista do que é o teu olhar, do que é a tua identidade. Chama-se «Trans Iberic Love» porque tinha que ter a palavra amor e porque é mesmo sobre o amor. Vivemos uma época em que toda a gente se odeia e o livro é sobre duas pessoas que acreditam profundamente que a única autoridade que têm é o amor e o amor não tem autoridade. Mais. Acreditam que as coisas se mudam com os afectos, com a empatia pelo outro que é diferente de ti. É um livro sobre essa revolução, sobre a revolução do que conseguires pensar para fora da caixa, de conseguires pensar fora do que são os teus limites, da tua família, do teu cantinho. Tudo numa época em que toda a gente se protege e quer estar fechadinha e tem medo.Ora o «’Trans Iberic Love» é sobre estas duas pessoas que não têm medo. Aliás, é mesmo essa a grande aventura: descobrir como é que nos construímos como pessoas neste momento, neste mundo em que vivemos, e como é que o conseguimos fazer sem perder os nossos sonhos, a nossa dignidade, a nossa liberdade. Como é que não deixamos de ser Nós sem deixarmos de fazer aquilo que queremos. E eu tenho a certeza que toda a gente que ler isto mesmo que acabo de te dizer sabe do que falo.

TKNT: Sabe mesmo?
Raquel Freire: Sabe! Sabe ou corre o risco de chegar aos 50 anos e perceber que a vida lhe passou ao lado. Estamos num momento de grande mudança e existem dois caminhos: Desistir ou pensar que este é o momento de construir, de pôr tudo em causa e construir coisas novas. O livro é sobre estas duas pessoas que se apaixonam por esta maneira revolucionária de construir uma nova maneira de ser e de construir o mundo novo. Mas não só. É também sobre a forma como é que elas aplicam essa revolução a elas mesmas.

raquel-freire-more-540x540Texto / Nuno F. Santos; Fotos / Raquel Freire