País Sem Esperança… Metáfora?

Literatura

 

Luís Vaz poderia ser de Camões e é, talvez como metáfora de um poeta, o presidente de um povo de personagens que narram, cada um na sua perspectiva, um país que caminha, mais do que para o lugar-comum do abismo, para a guilhotina. Poderia ser evocada a Revolução Francesa e aqui cabe toda a história, e os cravos de outra revolução mantêm-se, mas são brancos. E essa não é feita de esperança….

despais

“Luís Vaz da Gama olha para mulher velha e paras a criança diante de si. Lembra a mãe, que morreu enquanto ele estava na guerra; rememora o filho que a mulher perdeu, devastada pela ausência de notícias, pensando-o a cada dia morto; recorda os dois filhos vivos que agora vivem longe do país, sem quererem qualquer ligação com uma terra que os criou e os expulsou”. Luís Vaz poderia ser de Camões e é, talvez como metáfora de um poeta, o presidente de um povo de personagens que narram, cada um na sua perspectiva, um país que caminha, mais do que para o lugar-comum do abismo, para a guilhotina. Poderia ser evocada a Revolução Francesa, e aqui cabe toda a História, e os cravos de outra revolução mantêm-se, mas brancos.

Pedro Sena-Lino, que vive em Berlim e que assume desencanto claro por aqueles que têm gerido o País e os países tão diferentes e verdadeiros que têm sido os portugais sucessivos – às tantas não sabemos já o que é verdade ou pesadelo – escreve para provocar, como qualquer artista faz uma obra de arte que pretenda a reflexão séria. Essa é a intenção. No livro «Despaís«, com chancela da Porto Editora, a provocação passa por imaginar um referendo de um grupo de extrema direita que, em 2023, propõe o fim de um país e ao qual a população adere, como aderem as populações às demagogias. Uma brincadeira provocatória de um livro que se torna muito séria e que deve conseguir incomodar, se os leitores se lembrarem do crescimento da extrema direita na Hungria ou em França por exemplo.

Sena-Lino inventa quase tudo por metáforas e estamos em crer que compreendemos o que nos pretende dizer e como nos quer «espicaçar» com cada nome. Juntemos Bartolomeu Dias e Vasco da Gama, Dom Sebastião e Afonso Henriques, o barqueiro de Gil Vicente e Judas… alguém com apelido Silva. Temos descobridores e reis desaparecidos, temos os que inventaram o mundo e uma Nação que se esquece. Agora misturemos tudo e eles estão na praça pública, semi-disfarçados… apenas semi-disfarçados de propósito pelo escritor para dar a entender que ele não esquece.

Este texto é escrito um dia depois de uma entrevista feita por 20 portugueses ao primeiro-ministro actual… 2013; Este texto é escrito dias depois de pedidos de desculpa de ministros a ex-colónias que parecem colonizar segundo os comentadores; Um texto escrito dias depois da inauguração de «Sell Out», uma exposição de Miguel Januário na galeria temporária no n.º 56 da Rua Fernando Palha, com uma bandeira peculiar. Enquanto passamos os acontecimentos em revista rápida sabemos que 2023 não está longe, é já o Mundial do Catar que mexe, Verão ou Inverno? Estamos a jogar com probabilidades, num jogo perigoso mas provavelmente necessário.

“A vida, a vida, não há quem a divida”, “toma lá fruta, judas da puta”, “judas traidor, andor andor”… e a Extrema Direita acaba com a dívida e com a esperança.

De volta à realidade: isto não é uma sátira, é uma provocação. O autor quer a voz de quem não tem voz, e neste país ainda se pode pensar… ainda… mesmo com metáforas. Não nos cabe julgar o livro, cabe-nos, ou não, ter medo e perceber se as metáforas são só coisas que vêm mesmo nos livros.

<Texto>Nuno F. Santos

<nota>«Despaís» alerta também sobre a perda de memória, inclusivamente tem uma personagem demente. O próximo livro a ser falado na TKNT fala igualmente de memória, dos factos que não podem ser esquecidos. Sem metáforas, com as mesmas preocupações e… cravos vermelhos