O Artesão de Livros e Flores e Palavras e…. coisas feitas com vagar

Literatura

Do que tinha reparado no Hélder era o seu ar de galã de Cinema Francês, por entre livros no primeiro pouso da livraria Flanêur, perto da Rua da Constituição, no Porto. Dizia-me um amigo: Sabes… ele faz livros à mão… e eu, não liguei porque ouvia alguém falar sobre Clarice Lispector creio, e isso é muito muito grande. Lembro-me de sentir inveja dele, Hélder, ao vê-lo caminhar mas achei… demasiado vaidoso com um andar pomposo. Este pomposo, perceberão, é de uma estupidez atroz mas sem vergonha. A inveja entre homens, generalizando, traduz-se nisto da admiração do outro, que claramente continuou e aumentou quando lhe percebi a delicadeza da escrita, o humor e vi e as imagens dos seus primeiros livros.

Ora aí está um entrevistado da TKNT, apanhado com a mão nas laranjas para ver se tinham sumo…. Num supermercado, enquanto nos escrevemos à distância. Ao pedido meu de conversa em modo entrevista diz o Hélder: “Ando nas compras, mas por mim podes chutar”.

Televisão K Não é Televisão: Escritor, ilustrador, fazedor de livros literalmente, poeta… és isso tudo e muito mais? O que publicas são livros de autor…. pela liberdade como diria o Torga, ou o caminho editorial está minado…

Hélder Magalhães: Ilustrador só na óptica de apreciar o trabalho de ilustração. Sou, cada vez mais, pelo trabalho de artesão. Tenho-me saído muito bem com as mãos. As edições de autor dão-me uma liberdade no sentido de conceber um projecto com várias nuances de trabalhos artesanais, como a encadernação, a fotografia, os carimbos. Obviamente, é também fruto do actual estado da edição. A pagar para editar, prefiro fazê-lo de acordo com a minha consciência, isto é, uma edição de autor.

TKNT: Mas tens consciência que tens talento para vender numa editora convencional? Ou achas que não vale a pena? Tentaste alguma vez? Sentiste algum “não” redondo?

HM: Não tenho nada contra as editoras. Em 2017, publiquei um livro de poesia pela Editora Livros de Ontem, o meu primeiro livro, «Iluminado», teve duas edições em editoras diferentes. Aparecendo uma proposta que considere justa, publico. Tenho alguns contos infantis que gostava de ver publicados.

TKNT: Bem… As mãos para a fruta as mãos para os livros!

HM: E os bolos e demais cozinhados? É preciso ter mão (s). É, sou um gajo que às vezes até anda com uma perna às costas. Tive um osteossarcoma aos 17 anos, quando nem conhecia a palavra cancro. A amputação foi a solução. Foi um renascer. Neste momento até estou à espera de uma perna nova. Toca-me o simples, a humanidade que um gesto pode conter. O bucolismo do campo é a minha realidade diária, continua a ter a capacidade de me espantar.

TKNT: Falaste uma vez na rede social de dores fantasma… Elas existem mesmo? E os fantasmas? Os da Casa dos Segredos não contam!

HM: Existem. Creio serem chamadas de fantasma, pois é uma dor sem lugar e sem tempo. Surge como uma espécie de choque, descarga eléctrica. É a única coisa que me tira o sono, no sentido literal. Fantasmas, desconheço-os.

TKNT: A dor serve para escrever? Qualquer uma? E como repartes em contos infantis, poemas ou prosa?

HM: Tudo é combustível para a escrita. Até os ditos no tasco. As fronteiras são ténues. A marca da poesia está muito presente nos outros registos escritos. O tasco, salvo raras excepções, existe mesmo.

TKNT: E a Revista Maria…. A parte da sexualidade com que tanto brincas?

HM: Estava mesmo a pensar no consultório sentimental. Por de trás do riso, existe ali uma realidade trágica, que diz muito do que somos enquanto povo.

TKNT: E saindo do riso… noto também a delicadeza com que consegues o erotismo em alguns textos. O erotismo bem escrito é mesmo das coisas mais difíceis de escrever?

HM: Talvez. O erotismo é subtileza, sensibilidade. Há erotismo nas flores, como hoje o retratei nas orquídeas selvagens aqui do jardim.

TKNT: Vamos à espécie de humor sem pudor… O Orquídea Selvagem, o filme, ainda com Mickey Rourke sem cirurgias… ainda foi teu amigo ou nem por isso?

HM: Amanhã faço trinta e oito anos. Sou um moço ao pé desse filme. Mas ainda sou do tempo de ficar no sofá até de madrugada à espera do episódio da Playboy na SIC.

TKNT: A Alexandra Lencastre na Rua Sésamo tinha o mesmo efeito em mim… confesso, e era de tarde.

E quando coloco as laranjeiras dos meus pais e os fantasmas que para mim existem, lembro-me de A.M. Pires Cabral, de Miguel Torga ou de Vergílio Ferreira, também no Pedro Carreira de Jesus. Mas muito no Hélder. Ter medo ali é de uma dimensão maior perante as árvores, sentir é de um tamanho que não se mede porque os cheiros são de infância e de infâncias a fugir para a cidade, para os semáforos, para os trabalhos com filhos nas aulas de piano e as buzinas da pressa e do congestionamento.

TKNT:  Quando te leio leio o Torga, o Vergílio e o Hélder… É verdade?

HM: Curiosamente, conheço muito pouco a obra do Torga. Do Vergílio, a quem chamo de mestre, tenho lido bastante nos últimos anos. É engraçado quando associam algo que escrevo a autores nunca lidos.

Eu era mais Sharon Stone. E a Monica Bellucci. Cheguei a escrever um poema à Malena.

TKNT:  A sério??? Éramos aquele miúdo na bicicleta não éramos?

HM: A sério. Está publicado. Ofereço-te o livro… Exactamente! A bicicleta é metáfora no poema

TKNT:  Já não morremos hoje, acho que dissemos (escrevemos) Malena ao mesmo tempo

HM: Não, não morremos, espero ainda beber um tinto maduro com ela.

A nossa adolescência inteira a admirar a idade adulta. Aqui nem sequer é possível falar de dimensões, seja na Sicília ou em qualquer parte do mundo. A imaginação é todo o erotismo e toda a fantasia que alimenta o que ainda hoje deixámos de ser, mesmo quando adormecemos depois de uma refeição no sofá.

TKNT: E como é esse acto de ser artesão dos livros? Como se faz um livro?

HM : Tenho descoberto a minha vocação para os trabalhos artesanais. Uma das últimas coisas que fiz em 2019, foi deixar o contacto na Oficina, em Guimarães, para os cursos de bordado e cerâmica. No ciclo, trabalhei bastante essas artes, depois ficou tudo para trás. Em 2014, redescobri a encadernação. O que começou por ser útil para um projecto de um livro, acabou por revelar-se um fascínio. Um livro de raiz faz-se com sede. A partir daí, cortas, coses, colas.

TKNT: E são todos um objecto?

HM: A ideia é cada um por si, um objecto. Na maioria das vezes, os elementos para o livro surgem durante a escrita.

TKNT: Como se podem comprar?

HM: Os livros podem ser adquiridos através do envio de uma mensagem, ou na Pedra Flor, a loja que abri há uns meses em Guimarães. Por falar nisso, digo-te em primeira mão que faço amanhã 38 anos. Haverá bolo na Pedra Flor. Estás convidado. Nasci a 9/1/82

TKNT: Se te dissesse que no Porto é o cheiro dos croissants a sair que me faz ter falta do cheiro a sumo do que o meu plantou a fugir das crises de coração para a aldeia… Mas que depois aquele recolher obrigatório é mais duro… achas que também se não escapa à solidão ali na aldeia?

Aqui o meticuloso tem piada por si… pelo desencontro, por isso citemos….

HM: Vive-se outro tempo. Gosto do vagar das coisas e para elas. Mas Sexta vou ao Porto. Vou às Stop, em Campanhã, a ver se saio de lá com um andar novo.

TKNT: O centro comercial?

HM: E depois quero ir à baixa aos rolos de fotografia, que sou analógico. Stop é uma ortopédica, acima da estação.

TKNT: Pois eu pensava que era o STOP com as bandas de garagem e a loja de roupa em segunda mão.

HM: Esse não conheço

TKNT: E regressas a Tagilde a um fogão a lenha ou lareira?

HM: A um fogão a lenha. De onde gosto de tirar bolos.

Nuno F. Santos perguntou coisas a Hélder Magalhães, que faz anos e escreve delicadamente com o vagar com que são feitos os bolos nada industriais

Fotografia de Ana Christelo