«Histórias Sem Jardins» com as Naturezas Todas

Literatura

 

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“Não queria que a adorassem, caçassem ou adotassem. Apenas que a vissem”. Esta é uma personagem. E há outra que “ia embora antes que as pessoas se cansassem dela”. E mais outra que sabia “que o tempo e a calma lhe tirariam as dores”. Personagens de contos que são «Histórias Sem Jardins» e com amor. Nem que seja o desmesurado. Histórias da autoria de Jorge Palinhos, que contam de forma livre as dependências de amor, porque elas existem. No final de muitos amores e relações que devoram até, desde a Rapariga Hera com a Casa até à Mulher Nervo com o Homem Osso, acaba por ser a Mulher Feijoeiro quem nos ensina, a exemplo de si mesma, a descoberta do amor próprio. Mas claro, isto é que nós achamos. Nós que achamos também que este livro com ilustrações de Alexandre Siqueira e edição da Cultureprint tem finais com moral mas sem moralismos. Será possível isto? São sempre esses finais de treze histórias que nos deixam pendurados a pensar: o Rapaz Peixe “ama e no segundo seguinte já não ama o que amou”. Hum… O Professor Gaivota, a Menina Pardal e o Doutor Girassol encaixam na maneira como nos ensinaram a ver as coisas. Como descreveria o leitor os trejeitos de uma gaivota, de um pardal ou de um girassol? Talvez a gaivota olhasse de lado, o pardal pulasse pelo chão à procura de minhocas e o girassol olhasse para si mesmo. Mas, independentemente do que nós, enquanto leitores, possamos descrever, depois de lermos este livro vamos ter de certeza um segundo ou terceiro olhares sobre os animais e plantas que por aqui se confundem com pessoas. Comecemos hoje pelas tulipas: “Por vezes chorava uma pétala, que é a maneira de as flores aliviarem o peso que têm na cabeça”. Mais tarde passaremos às pessoas.

<Texto>Nuno F. Santos
<Imagem>Mulher Feijoeiro