É Mais um Quarto para o Coração do Poeta

Literatura

 

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João Pedro Silveira ainda não deve ter recebido a renda de quem anda há tanto tempo no seu coração. Mas, depois de ter vencido o Prémio Literário Cadernos do campo Alegre “Novo Autor, Primeiro Livro”, deve ter dado a chave desse coração de que escreve. Muito pouca coisa se sabe sobre o poeta em si, a não ser, precisamente e como deve ser, os «Poemas, Aforismos e Outras Viagens», livro que teve direito a sessão de lançamento nas Quintas de Leitura, num espectáculo – as Quintas são sempre muitos espectáculos dentro de um – com leituras de Daniel Macedo Pinto e Filipa Leal, actuação de Noiserv e de Celeste & os Aviões, dança contemporânea, ilustração em directo e até um homem estátua. O que ficou na conversa daquela sessão fica para os que estiveram, fiéis às sessões loucas de poesia, música e performance. Mas os poemas de João Pedro Silveira – nome onde ainda não deixamos um link azulado para descrever onde nasceu, com quem viveu e quem mora então no seu coração. Já agora, se por acaso o coração dele é do lado esquerdo ou direito – os poemas escrevia-se… os poemas estão numa edição de bolso com cantos arredondados e capa de Manuela Pimentel, numa edição da Objectiva. 37 aforismos, poemas e viagens em 37 páginas, não necessariamente a um poema ou viagem por página. Tudo com memórias, manhãs, verdades, a Polónia, destino, mortos, amantes, poetas e aquele: «Chama-lhe Poeta!», mais do que fingidor, “esse bandido que escreve o que não diz?”.

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O título do livro deve conter em si mesmo todas as explicações. Querem um apartamento? Um T1? Seja: “Ceguinho seja eu / Se não há dias em que queria/ Que o meu coração / Tivesse mais quartos / Que uma casa de putas.

Querem uma viagem… um país? Talvez um pouco deste: “`Às grandes planícies polacas, /Que são grandes demais  para achar-lhe um fim,/ Faltam as tuas curvas, as ondas do cabelo/ De um loiro trigal plantado até onde eu consiga ver.

Acabamos com uma Verdade, completa como o apartamento T 1: “O português inventou a saudade,/ Aquela saudade de ver o sol pôr-se no mar,/Aquela nunca admissível vontade/ de caminhar sobre as ondas sem saber nadar.

<Texto>Nuno F. Santos
<Fotos>Sara Moutinho