Banalidade Boa de Ler

Literatura

 

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Para alguns fica como um dos professores preferidos mas, para outros, Luís Fernandes – de quem também se devem lembrar como um dos cronistas do jornal Público – é João Habitualmente, um dos poetas mais irreverentes que leva a sua forma de dizer e de escrever às noites da Cave, no Pinguim Café ou até nas Quintas de Leitura. Agora, deixa que a poesia seja substituída por relatos diários da sua família, da sua intimidade por entre o que há obviamente de mais banal.

É um enorme risco do autor e da Edita-me, a editora que chancela «Coisas do Arco da Ovelha», sobretudo se tivermos em conta que, regra geral, quando alguém usa a Arte envolvendo filhos numa espécie de dedicatória, a emoção acaba por arruinar o que de artístico possa existir na intenção de partida. São muitos os casos que, mesmo atingindo bons números de venda nos postos dos CTT ou nos hiper-mercados, não deixam de ser escritos de forma medíocre, sem acrescentar nada à Literatura. Mas não é assim com João Habitualmente. Primeiro, porque João Habitualmente sabe escrever. Segundo, porque conhece as regras do humor, da intimidade e sabe exactamente os perigos a que se sujeita ao recorrer à memória de datas, idades, nomes de locais e artistas de que gosta. Escreve-o de forma tão simples que não conseguimos achá-lo pedante. Poderemos sim achá-lo altruísta, tendo em conta que ao colocar os filhos em grande plano está a retirar o poeta da equação. Contudo, a poesia maior está na linguagem das crianças, num diário sobre a banalidade, com coisas banais, mas em que se vai rever. E se não rever, vai perceber pelo menos que esta família bem exposta entre 2005 e meio de 2013 ao longo de duzentas e poucas páginas lhe revela um retrato histórico precioso: o retrato de uma classe média banal, prestes a extinguir-se em Portugal.

“E foi aí. No ato do desaparecimento que Michael Jackson apareceu todo. O Luís e o Miguel descobriram o adulto que queria ser criança, o homem que queria ser mulher, o preto que queria ser branco. Aprenderão com ele que nem tudo o que parece é? Ou que não basta parecer para passar a ser? (…) Antes de Jackson tinham descoberto Gabriel. Não podem, por enquanto, pensar ao ritmo que pensa o Pensador – mas podem vibrar ao ritmo que vibra nele enquanto pensa (…) Ainda há pouco eram o Noddy, o Ruca, o Bob, o Construtor”. 

Que não se extinga a coragem de despir em livro a banalidade que se sabe, nunca vai morrer. E o mais importante, é que esta banalidade não quer ser excêntrica… quer continuar assim, evidente e sem grandes meditações.

<Texto>Nuno F. Santos