«Ara»: O Amor de Ana Luísa Amaral por Nós

Literatura

 

Não chove como há 45 anos na chegada a Leça da Palmeira. Mas chove, chove em Leça e Ana Luísa Amaral viaja na infância, deixando para trás as camélias, hoje japoneiras, deixando Sintra e a inocência em certo sentido. Em nenhum sentido deixa a poesia. “Mas é claro que dá para meter poesia num romance!” diz, do outro lado do computador como um espelho, numa conversa via skype já entre uma noite e a madrugada. “Deixa-me só ir buscar um livro” e, depois, sem câmara de vídeo ligada, que isto das ligações tecnológicas é também que imperfeito, ALA fala de Ara. Ou seja, Ana Luísa Amaral fala de Ara, o romance ao fim de tantos livros de poemas, ensaios, traduções, literatura para a infância, teatro. Este livro ficará onde Ana Luísa mais gosta que fiquem todas as coisas: Entre. Sim, Entre qualquer coisa. No intermédio. Entre uns livros e outros que hão-de vir. Não tem vergonha da inocência: “já viste a capa, as badanas e a contracapa? Estão tão lindas não estão?” Sobretudo, não tem vergonha do amor. Um livro sem vergonha, mas não desavergonhado, de recordações assumidamente reais e assumidamente de fantasia se preciso for. Atravessemos o livro como uma viagem de comboio daqui até ao Japão.

ara 1

<Televisão K Não é Televisão>É um japoneira na capa do livro?
<Ana Luísa Amaral>É uma Japoneira….

<TKNT>Vem desde a infância? Vem contigo sempre nas recordações, nas confissões?
<ALA>Não as tenho na minha poesia, que me lembre.

<TKNT>Estou a falar do romance… do romance Ara, especificamente?
<ALA>Sim sim, neste romance que não é um romance no seu sentido estrito…

Tomara eu que os túneis fossem verdadeiros lugares de acção, que as japoneiras surgissem, ao menos uma vez, embrulhadas em ramos nas mãos de uma personagem, que os comboios fossem pontos de encontro para chegadas e despedidas apaixonadas”

<TKNT>São vários contos que se ligam? É isso Ana?
<ALA>É, exactamente. É um romance porque ele adopta um tema e um fio condutor. E esse fio condutor é a viagem. Penso eu. A viagem é a viagem que tanto pode ser a interior como a exterior, mas prevalece a interior. Lendo-o agora, o livro, a posteriori, depois de o ter escrito e de o ter pubicado e, sobretudo, depois de algumas pessoas terem falado sobre ele – é curioso, isto acontece-me muitas vezes quando quem lê aclara aquilo que nós escrevemos – o romance começa com “eu não sou romancista” e, depois: “é se calhar uma certa disponibilidade para com os outros que eu não consigo”, terminando, justamente, com os Outros. E é curioso, lendo-o agora vejo-o como se ele passassse de um EU para um NÓS. Há uma espécie de viagem sim, de evolução e involução, as duas coisas ao mesmo tempo. Esta viagem não é linear: as japoneiras estão aí e estão de diferentes formas. Japoneira é a cameleira. Eu, que sou do Sul, digo camélias, digo cameleiras. As japoneiras depois vão metamorfizar-se no romance num momento em que aparece a palavra “Japão”.

Eram ruas diferentes
como é suposto assim ser no Japão”.

E depois:

Espécie de coisa bela e irmanada
Sem amor decaindo e onde as duas
Se encontrassem por fim num terceiro país.”
Por exemplo, o Japão. Agrada-me o Japão
Agrada-me o Japão nesta minha função de contadora.”

E isto está escrito em verso. Mas faz parte do romance.

<TKNT>É então mesmo possível meter versos dentro de um romance? (Sinto-me estúpido na pergunta, mas refiro-me a meter versos enquanto aquele que escreve o romance adopta versos em simultâneo com outra linguagem para falar do mesmo universo)
<ALA>Então não é! Tenho a certeza que sim!

<TKNT>Na tua “versão de contadora”, como acabaste de dizer…
<ALA>Também não são contos sabes…

Mas a minha função de contadora
Não envolve leituras repartidas.
Só encontrar um fim feliz por fim
A não dizer de lagos nem de chuva.

<TKNT>Bem sei Ana, mas foste tu quem escolheu há pouco mesmo a palavra “contadora”. Disseste: “na minha função de contadora” – depois percebi que citou do livro – mesmo não sendo linear, mesmo com versos, mesmo com espécie de ligações por entre túneis este Ara é… é?
<ALA> É sobre os nossos tempos! Sobre o universo, sobre o amor universal. Por acaso. às vezes, é sobre o amor entre duas mulheres. Mas poderia muito bem ser sobre o amor entre uma mulher e um homem, entre um homem e animal, entre mãe e filho. Não quero que ele seja etiquetado, mas é um romance, a determinado momento, um romance sobre o reconhecimento – e isso é já no final – … um reconhecimento de que “vergonha é consentir, vergonha é não amar”. Isso é que é a vergonha.

<TKNT>Portanto, é um romance sem vergonha Ana Luísa…
<ALA> É isso, é isso. Quer dizer, não é um romance desavergonhado….

Vergonha: destruir e conquistar sobre terreno alheio.
Vergonha é o silêncio, a sério de vazio. A quem pertence
o mundo? Vergonha é não te amar. Vergonha era fingir
que não pertenço.”

Esta parte que te acabei de ler… eu estou em crer que é também um gesto um bocadinho político, além de poético – poético no sentido lato do termo –, até porque a maneira como ele termina é com a palavra ara, daí o título do romance. A maneira como termina:

Como uma capicua do avesso, ao contrário, a antiga pedra do lar. Ou seja, altar. Ou seja, com três letras: ara.”

Engraçado, porque eu acho que também não pensei nisto quando escrevi, mas acho que este “com três letras: ara ” joga com Palavras Cruzadas. Quem habitualmente faz Palavras Cruzadas sabe muito bem que “ara” é uma palavra fundamental porque tem duas vogais, uma consoante e dá para formar muitas palavras . Este romance é isso: é também andar para trás e para a frente na vida individual e na vida comum. E quando digo na vida comum digo Nós todos. A esse final “com três letras: ara” segue-se a uma pergunta que para mim é importante:

E quando não há sol, o que se vê?
E quando o sol nem sol, nem ver, nem nada

Ora isto é também uma denúncia do que está a acontecer, não só no País mas no mundo em que vivemos. Não pretende ser uma crítica a Passos Coelho ou à Troika (nem sol, nem ver, nem nada). Isto tem a ver com a tragicidade do mundo e também dentro dessa tragicidade a necessidade e o sentido Todo que o amor faz, enquanto veículo de coesão entre as pessoas.

ala

<TKNT>Serves-te de personagens concretas?
<ALA> Não, não há nomes! São vozes.
<TKNT>Mas sem nomes podem ser personagens e assim estás a conceder a liberdade de elas escolherem um nome….

Voz 2 Eu não quero objectividade. Quando falo em personagem, em vestir personagem, que fique claro não ser objectividade o que desejo. Mas nem divagação, nem dissonância. Conta: onde se incrustavam esses olhos, a forma do nariz, o cabelo, as orelhas, a voz, as mãos. Veste-a de voz, à personagem. Tu, a quem ta ofereceram, primeira, empresta-lhe voz própria”.

<TKNT> Não há nomes, mas há o amor e a Ana Luísa Amaral? Ou seja, há uma viagem guiada pelo amor e onde vai, com certeza, a Ana Luísa Amaral pessoa também?
<ALA>Claro claro, mas ela também vai nos poemas, ela também vai nos livros para a infância olha, imagina, ela atá nas traduções vai (ouve-se sorriso, estamos no skype e já é madrugada)! É inevitável. Mas não, não há personagens mas há, por exemplo, diálogos como aqueles que acontecem numa parte que se chama Discrepâncias (a duas vozes):

Voz 2 Que se comece a história em nova voz de gente.
Voz 1 E eu sei exactamente como começar.”

As últimas três páginas chamam-se Ou seja, ara. O João Rodrigues, quando lhe mandei este texto para a Sextante, escreveu-me um email que guardo aqui e que é lindíssimo… é lindíssimo. Um email em que escreve: “Cheio de nós e de Nós dentro”. Quer dizer: Nós de nexos e Nós da primeira pessoa do plural.

<TKNT>Sempre foi assim a tua escrita não? Com subtileza dos nós, acontece o mesmo no teu primeiro romance?
<ALA> Desculpa, não percebi a pergunta.

<TKNT>OK. Imaginemos um fio. Se o fio estiver esticado sem mácula, é um fio normal como o imaginamos. Se o fio tiver nós passa a ser como que imperfeito. No teu caso, e concretamente no caso deste romance, olhar para esse fio e para esse livro com nós não deixa de ser condutor e não deixa de ter uma forma subtil de mostrar que é belo. É belo, o fio… mesmo com nós. Aceitas esta metáfora para a tua escrita e para o Ara?
<ALA>Aceito sim! Pode pode ser essa metáfora sim para aquilo que eu pretendo fazer quando escrevo, quer dizer… a gente não faz isto propositadamente. Com certeza eu, quando juntei quando uni estes tantos nós, eu uni-os tentando dar-lhes, não uma sequência, mas pontos de sentido.

<TKNT>Pontos igual a nós…
<ALA> Se isto fosse um bordado (pausa) No momento Japoneiras e Túneis lê-se:

a fazer uma flor
a ponto-de-cruz cheio! guardada
na gaveta uma toalha
em sítios amarela de lavores, louvores
inexistentes, que nem ficou a meio
essa toalha), a minha infância sem estopa
nem bordados, nem fuso onde picar o dedo
e ser ressuscitada para ti”

japao

 

<TKNT>Comboio… pensava que fosse o avião o teu transporte preferido, mesmo com medo de voar…
<ALA> Comboio comboio! Estares parada com as coisas em movimento, num tempo que passa por ti e em que tudo à tua volta se move… e tu observas
No final, os ensinamentos e o tom confessional duro de uma voz… apaziguada. Afinal o amor é quem guia na viagem para a coesão entre as pessoas.

Não percas
o chapéu, não mexas na televisão, não venhas pela linha de comboio, não peças bolos, não fales a comer,
não me toques, que arranjei o cabelo.
Foram úteis os ensinamentos.”

<TKNT> Curiosidade… Já foste ao Japão?
<ALA>Não!

Ana Luísa Amaral deita-se mais cedo do que o habitual, mesmo sendo de madrugada. Fumou antes um cigarro, agora com sono. Parte para Londres nos próximos dias, não vai de comboio e deixa-nos a pensar com a leitura quase literal que faz do livro, entre a sinopse de Maria Velho da Costa, textos de Maria Irene Ramalho, Isabel Magalhães Allegro, Jorge Fernandes da Silveira, Catherine Dumas, Paola Poma e Anna Klobucka.

nota1: Entrevista abre com trailer do documentário da TKNT sobre a vida e obra de Ana Luísa Amaral. Chama-se Entre Dois Rios e Outras Noites

nota2: alguns excertos de Ara são escolhidos por Ana Luísa Amaral para responder às perguntas e outros, poucos, para se cruzarem com o texto.

<Texto>Nuno F. Santos