Uma Visita a ptn Queimando Medos

Literatura

 

Assim uma espécie de imensa revelação na nova Literatura Portuguesa e depois… depois pois que continua a ser muitíssimas coisas mas não uma revelação para quem o conhece minimamente, sabendo-se do talento multifacetado. E para quem não o conhece aqui vai ele em parágrafos vários e aqui não confundido com o actor e modelo Paulo Pires, como o é às vezes nas escolas onde vai ler alguns dos seus textos. Esta palavra, recordemos, esta “multifacetado” nem sempre quer dizer ponta do que seja, mas no caso de Pedro Teixeira Neves é adequada. Adequadíssima. Quando foi a revelação da Literatura portuguesa? Quando lançou pela Temas e Debates «Uma Visita a Bosch». E por que não está Pedro Teixeira Neves na berlinda das vendas ou analisado em todo o canto com mais romances? Ele e outros… mas no caso e hoje ele. Talvez porque ninguém compreenda, de facto, o mundo da edição literária e não nos compete a nós fazê-lo. O que nos compete, é dar-vos um pouco do muito dos dias de alguém que trabalha a toda a hora. Chamam-no fotógrafo nas Quintas de Leitura. É poeta nas Correntes d’Escritas. É ilustrador no quotidiano e jornalista, desde a fundação e direcção, entre outras, da Magazine Artes passando como repórter pelo Diário Câmara Clara. Tudo foi, mas evidentemente ele fica e estrebucha em blogues, redes sociais ou o que quer que seja local público para manifestação artística.

O que és tu Pedro? (Tratamo-nos por tu porque eu sou o Nuno, neste caso ao serviço da TKNT, e ele o meu camarada de programa da RTP 2). Uma noite na despedida das emissões do tal programa no tal canal. Sabíamos o que íamos fazer, o que não íamos fazer mas, claro, ele mais do que eu, as dificuldades que aí vinham com o desemprego. Senti-as depois mas camuflo o desemprego e foi duro mas já está a passar obrigado. O Pedro é mais crescido.

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O que és tu Pedro? (Tratamo-nos por tu porque, apesar de um em Lisboa e outro no Porto, apesar de partilharmos medos e acharmos que victan é para meninos, apesar de termos limitações, ah pois, e falarmos mais ou menos delas sem problemas, com mais ou menos hipocrondria, apesar disso nunca passámos tanto tempo juntos como nesta entrevista). E por que o entrevisto? Porque o admiro.

O que és tu Pedro?
PTN: Sabes, Nuno, tenho muita dificuldade em responder-te a isso. Isto porque olho para o meu passado e para o percurso da minha formação e em nenhuma dessas áreas que mencionas alguma vez tirei um curso que fosse… Acho que é como autodidacta que me vejo. E na verdade, o meu caminho até hoje foi uma luta de mim para comigo, em que felizmente (ou não) tem vindo a ganhar aquilo que verdadeiramente sou e me sinto: eventualmente um criador. Ir sempre procurando o Belo, seja isso o que for. Tentar acrescentar um olhar novo ou renovado sobre o mundo à minha volta.

No mês que antecede esta conversa citada dou por mim e dou por ele a encontrar o tal Bosch à venda no OLX. “Livro como novo”. O que sente um escritor ao ver o seu livro em leilão no OLX? Não há resposta a não ser o humor e citar a descrição de licitação do site: “Aceito entrega em mão no Porto ou envio por correio normal… custo dos portes de envio é de apenas 1€. Qualquer dúvida disponha”.

O que és tu Pedro?
No fundo, revejo-me no que dizia o Picasso: «Não procuro, descubro»; isto é, vou-me descobrindo.

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Existe o falar na terceira pessoa e… o escrever e falar na terceira pessoa. Parece-lhe igual? Não. Nem sempre é igual…. porque não se diz o nome próprio e isso faz toda a diferença.
O homem nasceu a 3 de Abril de 1969. O pai tinha um boca de sapo, a mãe boca de princesa. Casaram e foram felizes para sempre. O homem acredita nisso e quer passar isso aos seus, apesar de ainda sonhar ter um dia um boca de sapo. E talvez agora vá escutar um tipo que o anda a prender: Sean Nicholas Savage”.

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A meio de um “trabalhito importante” o que é que faz a tanta coisa que publica em tudo o que é público? Onde fica esse público… no Facebook?
Por aí, por aqui, pouco interessa, tudo acaba por prescrever. Vou deixando marcas nessa sementeira do abstracto. Uma imagem aqui, outra acolá, um poema aqui, outro acoli, por vezes algo medra. Por incrível que pareça, no meio de muita merd… algo sempre medra. Depois há a questão de saber o que é arte. O que a institui, o que a cauciona. Como não venho de nenhuma academia nem ponho discurso pomposo a acompanhar a obra, tal como não sou de grupos nem de galerias, não tenho essas preocupações. Limito-me a trabalhar para mim, para não me deixar humilhar. É uma humilhação ver pessoas sem trabalhar. Eu não tenho trabalho fixo, mas não deixo de trabalhar. Criar é o meu trabalho. Nem que seja para o etéreo de uma rede onde muito do que cai nem sequer se aparenta com peixe.

Podemos ir fazendo a entrevista… este é o mote. Ao longo dos dias. Estou a meio de um medo de mim – eu sim – e de escrever contra qualquer coisa. Não digo e, claro, o pavor da morte súbita pela segunda vez na semana. Adio. Uso a desculpa de uma pergunta por dia. Pelo menos no dia desse medo. Ora, medo com medo dá medo.
Antes que os medos queimem, queimá-los, de preferência queimando as horas a trabalhar, a cuidar, a gostar. Se necessário com a ajuda de Imhotep, com certeza, que não anda a medicina a evoluir há milhares de anos para nós agora lhe dizermos não.

De Imhotep eu não sei nada e até pergunto que a ignorância é às vezes coisa santa. E depois a pergunta mais normal, quase como a dos planos para futuro. O que nasceu primeiro: ovo galinha e por aí fora como devem imaginar. Refazermo-nos dos medos é natural com perguntas tontas. E a resposta está toda, sem edição sem medo e sem preguiça nem ter de alinhar.
Mais rápido do que o poema é a sombra. Por isso talvez sejam de sombra os poemas. Quase transparentes, fugidios. Assim também os poetas na cidade, quando nos lembramos deles já partiram. “Já não me encontro cá há algum tempo”, lembro-me, assim dizia, por estas ou por outras similares, o Mário Cesariny ao Miguel Gonçalves Mendes. Toda a arte, no fundo, sofrerá dessa rapidez intrínseca, dessa fuga para a frente que é a sua essência, ir além de si mesma, ir à frente, abrir caminho. Paradoxalmente com o intuito ou desejo de ficar. A ilustração, de mim fraca figura, é também coisa de repentes; dou por mim e estou nisso, a rabiscar, a brincar com o não saber dominar técnicas, com a falta da teoria. Sofro disso, desse não saber original, fio-me no instinto, na inspiração, e nalguma transpiração, sim. A certa altura tinha mesmo de ser; fazia a ilustração para as crónicas do Zambujal na revista Epicur. Mas hoje é um jogo, um passatempo, um responder a um desejo que desce à mão, muitas vezes a ver o trabalho dos outros. Quem não se inspira ao ver coisas do Mário Botas, do Eloy, do próprio Cesariny ou do Cruzeiro Seixas, enfim, de tantos outros. De que mais gosto, não sei… A verdade é que gostaria de ter estudado pintura “à séria”! Não o pude fazer. Era preciso ter dinheiro na altura, eu não tinha; aos 18 anos vim para Lisboa estudar, inscrevi-me na Ar.Co em Desenho e Pintura, a minhas expensas, já que ao mesmo tempo os meus pais pagavam-me a universidade, Relações Internacionais, coisa pomposa, com futuro… Lembro-me de ter gostado muito das primeiras aulas, tal como me lembro de ter ido à Papelaria Fernandes comprar material e de ter levado um choque… Semanas depois tive de largar. No resto, anda tudo ligado, trata-se apenas de me expressar, de dar azo a uma necessidade que noutros escoará de outros modos. A mim, deu-me para isto, para ler, para desenhar, para fotografar. No fundo, ensaiar reinventar o mundo reinventando os dias. Tive sorte também, alguma coisa de genes, uma casa cheia de livros desde criança, música (a francesa, a francesa!), um irmão mais velho com hábitos melómanos, e assim me fiz, atabalhoadamente, disparando para um e para outro lados. Sempre com muitas, tantas dúvidas. E medos e o raio!

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Naquela noite em Lisboa, num restaurante das docas com música dos anos 80 falámos e falámos e falámos, mas não éramos nós pois não? Lembro-me também de uma manhã de jardim antes de uma locução à espera da noite para um jantar com favas onde não sei se estavas Pedro. (Não sei mesmo se ele estava). Lembro-me agora que a Magazine Artes não é da minha colecção mas sim, mora cá em casa e revejo-a. Pelo menos uma delas com o Cirque du Soleil na capa. E tu, Lembras-te. Lembras-te dessa? (não sabe que lhe estou a fazer a pergunta percebem. É a minha maneira de continuar a conversar com ele). Digo-te, enquanto lês isto, que está longe das Casa Cláudia e ao lado de uma Op com o Beck. A resposta que aí vem é a uma pergunta sobre as revistas e sobre o quotidiano que nos quer seguir… o de envio de currículos. Recusamos não é? Que se forniquem os currículos.
Revistas? Em papel? Hoje? Não. Acabou-se o mundo da publicidade em papel, só daí viviam as revistas, nunca das vendas em banca. Ou tens por trás um patrocinador a querer gastar umas massas (vá lá saber-se porquê…) ou não passará tudo de uma quimera. Hoje o leitor é um passarinho, quer saber sobre alguma coisa, liga-se à Internet, vai aqui e ali de bicar um pouquinho de informação. Ou bicar. Felizmente a publicidade nunca chegou às páginas e capas dos livros, senão também já tinham acabado. Ou qualquer dia passam a ser assim editados, como camisolas dos clubes de futebol… Lídia Jorge com o patrocínio dos Guindastes Allgarve, Lobo Antunes com o Patrocínio da Liga para a Protecção do Lince Ibérico, Patrícia Portela com o patrocínio da ANA Aeroportos, José Luís Peixoto com o patrocínio da Capela das Aparições… Quanto a CV, há muito que os mandei à mãezinha. Só se vai lá de porta em porta, boca a boca. Às tantas um tipo já só envia Cá Vais… sem ponta de esperança. Só envio currículos para mim próprio e para o dia de amanhã.

Recuando Pedro… ainda te lembras de como foi «Uma Visita a Bosh»…
Como não lembrar-me? Surgiu como resposta a um amigo a quem eu dissera, comentando os dois sobre o mau que era um qualquer outro título que lêramos, ser capaz de escrever um romance, apenas para me certificar de que era capaz de o fazer. Quis o acaso que coincidisse no tempo com a queda das Torres Gémeas, portanto com o 11 de Setembro. E foi ao ver em directo essas aterradoras imagens que tive a ideia para o livro. Ao ver as imagens foi como se no imediato se projectassem na minha cabeça as imagens das Tentações de Santo Antão, do Bosch, ou seja, aquilo a que assistíamos em directo era como uma transfiguração para o presente dos infernos do Bosch. Daí a imaginar-me na pele do Bosch a pintar o famoso tríptico que está no Museu de Arte Antiga, foi um clique. Depois foram não mais de três, quatro meses a ler e a escrever, catalizado pelo interesse imediato na história revelado pela Maria do Rosário Pedreira, a quem enviara creio que os dois primeiros capítulos. O resto seria uma história bem sucedida de um primeiro livro (com as lacunas que talvez desse facto decorressem, de ser um primeiro livro), não fosse uma crítica cheia de fel, de página inteira, escrita no Público por um tipo que arrasava o livro e a editora (!!!) sem se perceber bem porquê. Felizmente o livro teve outras, e boas, críticas. O que é facto é que a dita crítica-ultraje terá deixado a sua ferida, pois a partir daí o livro morreu, sendo que, julgo, era um livro e uma temática que teriam pernas para, inclusive, cumprir algum percurso fora de portas, nomeadamente na Holanda, onde hoje se situa a terra de nascença de Jheronimus Bosch. E para mais este ano, que se cumprem 500 anos sobre a morte do pintor, com uma série de homenagens que por essas bandas estão a ser preparadas. Estranhamente, quanto a mim, a editora parece estar a lés de repensar a possibilidade de relançar o livro. De qualquer modo, aqui e ali vou tendo dele notícias agradáveis, como esta semana em que recebi um mail de um professor a trabalhar para o Instituto Camões nos Estados Unidos dizendo que leu o livro recentemente e dele gostou muito.
PS. à resposta anterior: o exultante crítico que no Público arrasou o livro tinha nome/ tem, Mário Santos, e tinha a particularidade de, no jornal, se fazer fotografar de costas e chapéu. Coisa de homem.

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Estás desiludido de alguma forma com a escrita longa?
Não, não, de modo nenhum. Nem tenho o luxo de poder escolher. Na verdade, estou por perceber como é que isto funciona. Há períodos em que é a literatura infantil que me chama, outros o conto, o romance idem aspas. Por exemplo, este último ano que passei escrevi muita poesia, e pensava que por ela tinha sido traído… Não publicava poesia julgo que desde 2006, pelo menos em nome próprio, já que no ano passado, face à situação de crise que atravessamos, lancei um repto a três poetas (João Rios, Renato Filipe Cardoso e Rui Tinoco) para que ousássemos poesia de intervenção; saiu então, lançado nas Correntes d’ Escrita, o livro «Causas da Decadência de Um Povo no Seu Lar», pela Edita-Me Editora. É claro que não teve eco nenhum… Mas dizem-se lá coisas importantes, a poesia aponta o dedo, diz-se e escreve-se junto aos dias, coisa que acho a poesia contemporânea ter perdido, essa função de luta e testemunho dos tempos. Julgo que a poesia de hoje se olha muito ao espelho em vez de olhar em volta, anda demasiado preocupada em causa própria, enquanto arte pela arte. A poesia, para mim, tem de ser mais que forma, tem de se espremer e sair vida. A escrita «longa», essa tem também os seus timings. Ao pegar num romance, numa ideia de romance, pelo seu intrincado se não a tomo em mãos a fundo e de seguida perco-lhe o fio à meada. Mas como é também mais exigente não acontece todos os dias, ou pelo menos em sequência. Mas vou caminhando também por aí; o último romance que escrevi comecei-o quando terminou o meu último dia no Câmara Clara, ao conduzir para casa, no carro, as mãos no volante, os olhos semiperdidos no vazio dos dias por diante. Chama-se, justamente, «No Regresso a Casa», está em apreciação numa editora, pode ser que venha a lume. Gostava, tão-só porque me parece importante enquanto, mais uma vez, testemunho dos dias que vivemos. Resumindo: a história de um homem que volta a cair no desemprego e se sente rejeitado pela sociedade. Depois irá reencontrar-se, enquanto pessoa que era e deixara de ser na sociedade contemporânea de todas as velocidades e que o número é quem mais ordena, no espaço de um teatro abandonado. O paradoxo é esse, o homem que para se voltar a reconhecer enquanto pessoa o tem de fazer num espaço de ficção porque a realidade não lhe serve para tal, antes o transforma e desvirtua. O enredo decorre em paralelo com a descrição dos ensaios da última peça encenada pelo colectivo que abandonara o teatro em causa, também por via da crise. Em suma, para mim escrita nenhuma está acabada, porque simplesmente escrever é mais forte do que eu. Tal como fico sem saber o que fazer sem livros por perto… E por vezes gostava de descansar, e por vezes, sim, sinto que de pouco tem valido andar a lutar com as palavras.

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Descansa Pedro, continua a luta com as palavras e pelas palavras. Mas descansa. É o que vou fazer depois de te reler. Sabes Pedro, acho que é preciso às vezes descansar. Eu vou tentar. Mas repito uma frase tua que esta entrevista não é minha

Antes que os medos queimem, queimá-los, de preferência queimando as horas a trabalhar

nuno f. santos diz que é uma entrevista e pedro teixeira neves ou ptn com as fotos, as ilustrações e as respostas inteiras