Tenho Um Amigo do Outro Planeta!

Literatura

A história que vos conto não é ficção. É pessoal e requer a mais séria das atenções, peço-vos. Quando chegámos ao prédio do escritório para uma reunião o senhor Hernâni, o porteiro, disse-nos: “Têm um amigo à espera”. Lá estava, não era de muitas falas, mas algo Nele parecia gritar…

Subimos. Fiquei com Ele. Confesso: chegou a ser desconfortável para os dois a minha inabilidade. Ele não pronunciou palavra. Senti que era minha obrigação ouvi-lo. A sério! Mais pessoas podiam entrar na sala a qualquer momento. Escutava-as a rir no corredor, era uma questão de segundos. Decidi então que ele se abriria comigo. Ali mesmo! Estranhamente,  sussurrou-me: “Encosta aqui o ouvido”. Eu, longe de ficar assustado, sorri de ridículo por todo aquele figurete. Entrei no jogo, afinal… Caramba, com os amigos estava eu habituado a lidar! Encostei o ouvido no peito dele e, nesse momento, até os carros da rua, lá em baixo, deixei de ouvir! Não ouvi nada, nem vento nem chuva. A coisa tinha de avançar entre nós. Sem jeito, mas confiante… pensando tratar-se de uma brincadeira por encomenda, encostei-lhe uma mão, sentindo-me enorme, corajoso. Ouvi-o  pela primeira vez: “Vês aquela mancha verde? É onde começa a floresta!”. Mesmo com a certeza, ainda hoje, de que não existe nenhuma floresta perto do escritório, e não sabendo que perigos se escondiam, confiei Nele. Não fechei os olhos como numa viagem imaginária. Não não! Era preciso tê-los bem abertos para ver o que Ele me mostrava e se o que me estava a acontecer era real. Ia-me dizendo que passávamos na beira de um rio… “Para chegares à margem de lá, salta as pedrinhas, uma por uma”. E começou a chover, o riso das pessoas no corredor continuava. Convidou-me a cheirar uma bola vermelha e a espreitar para dentro dela. E dentro da bola vermelha que era uma maçã… uma minhoca. Desprotegida… sorridente, como todas as minhocas são.  São assim não são? Não, não é uma alucinação! É uma experiência e tanto quando percebemos que o nosso dever é proteger aquela minhoca até ao fim. Do corredor olhavam-me algo espantados e riam ainda mais alto, mas eu não me importava. Nem eu nem o meu amigo livro! Sim, um livro. Filho de Isabel Minhós Martins e de Madalena Matoso, vindo do Planeta Tangerina, este livro conseguiu que conhecesse um mundo que não sabia existir e ensinou-me a usar os dedos para fazer música e conchas. Agora vou tratá-lo… a si… por tu, pode ser? Toma, é que «Este Livro Está a Chamar-te (não ouves?)». Como dizia o escritor: “Se puderes olhar, vê. Se puderes ver, repara”. E eu acrescento: se  puderes ouvir, escuta. lembra-te, eu também não ouvia e agora… agora ouço-o todos os dias.

<Texto>Nuno F. Santos

 

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