O Lado B das Coisas #2

 

E_2013_arte_chiado

Hoje a rede social é a rua. E é a espaços a palavra e as palavras de uma mulher que na baixa de Lisboa vende os seus poemas. Passa recibo se preciso for e diz-se “poetisa” e não poeta, “por respeito a actrizes e juízas”. Há mais de dez anos que vende inéditos e tem um livro editado.

– Como começou Leonora Rosado a vender poemas na rua?
– “Foi por necessidade, mas também por querer abraçar algo profano, decadente? Uma causa perdida onde acabei por me encontrar… acabei por me encontrar no colo da palavra”.

Na rede social, facebook, a resposta é escrita no chat após pergunta escrita no chat e há tempo para pensar os detalhes. Isto para explicar que parece haver sempre uma tentativa de prosa poética nas respostas de Leonora Rosado e um tratamento cuidado que não inclui “Tu”. Lembra-se de ter escrito “o Suicídio de um Escorpião” em criança, foi para o Conservatório de Música de Lisboa estudar canto lírico, seguindo o que a mãe – cantora lírica – queria para ela. Gosta muito de cantar, mas gosta muito mais de escrever e encontrou-se então “no colo da palavra”, mas não interessa a “causa perdida” de que fala. Para quê falar de causas perdidas se Leonora Rosado tem livro editado e histórias para contar das tardes passadas a vender poesia no seu “escritório mais arejado”: a Baixa Chiado. Tem outras delegações de rua onde vende poemas, do Príncipe Real à Praça das Flores passando pela Gulbenkian.

livro dias assim

Conhecemos os escritos de Leonora na Internet, a rua do mundo, e estamos fisicamente a cerca de 300 quilómetros. Não há dia que não coloque um inédito no seu mural – é pouco poético mas é disto mesmo que falamos… mural – e vamos à primeira pergunta sobre eles, os poemas:

– Os seus poemas são muito cheios de erotismo, limite e caos, é assim?
– Caótico é o Governo!
– O Governo é um Caos que também cabe na sua poesia?
– Sim, é à Beira Caos

E na Beira Caos conta que quando chove abriga-se no toldo da Livraria Sá da Costa (o toldo ainda parece existir) e que leva bem a sério o que faz e como o divulga: “Havia mulheres que me queriam pagar com bolos na pastelaria”. Leonora respondia: “A senhora tem com certeza o seu trabalho, este é o meu. Quando chega o fim do mês a secção de pessoal seguramente não lhe diz para se dirigir à pastelaria mais próxima para receber em géneros”.

“Começou a vender em 2002? E quando parou?”. A curiosidade, às vezes apressada pela procura do facto nem sempre tão importante, faz disparar perguntas que se poderiam juntar às de consumo ou de tráfico (‘quando começa quando pára’…) numa daquelas entrevistas com casos criminais para puxar a lágrima ou mostrar a miséria humana. Recua-se na fórmula da entrevista e detecta-se mais um equívoco do lado de cá: Leonora não parou de vender poemas na rua. Continua. Talvez venda menos agora, talvez os mostre mais no facebook e… um som entretanto no ecrã do computador: “Mensagem de Leonora Rosado”:

Três corpos
E nenhuma
Solicitude.
A árvore
Toda em compreensão
Binária.
Ao espaço
Serenado no
Erguer o caos.
A insana prece
Que pragueja.
Três corpos
E a totalidade
Da ausência.
No bisturi aquático
Da deformação
Concreta e tácita.
A árvore em si
Um leito denso.
Nos corpos a ideia
De inexistência
Subsiste reactivamente.
Três corpos e a manhã
Completa, acabou por
Se estender.

“Foi feito hoje”, escreve nem um minuto depois.
Ignora-se a mensagem porque se está ao telefone, volta-se ao chat mais tarde e ficamos a saber que esteve na fundação da Rádio Aurora a Outra Voz, que canta fado pós punk, que colaborou com a banda Vitriol e que quer fundar também a sua própria editora , “uma que respeite o autor acima de tudo”. Admira Maria Teresa Horta, Adília lopes, Tolentino Mendonça, Luís Pedroso e Ricardo Correia Rosado.

“A inquietude. A noite. A insónia poética”. São os temas que a fazem escrever mas diz que é um assunto “cabeludo”.
– Insónia poética?
– Sim… é uma avidez e o título do início do meu livro «Dias Horizontais Noites Assim».
– Escrever é uma forma de viver ou de sobreviver?
– Penso que é a minha essência insatisfeita. Viver sobrevivendo é uma forma de viver…. posso enviar-lhe o texto «Insónia poética?»
– Claro!
– Aqui vai:
Em dias horizontais preguicita-se longamente na lombada das palavras, destila-se ódio em viscerais tonalidades reflectidas de dentro para o quão difícil é descrever a angústia, a decadência, a passagem inexorável das roldanas e engenhos que nos enrugam e enferrujam. O erotismo associado à morte. Carnal. A ironia de uma observação longa e demorada, contínua, através dos tempos. Sincopada e atreita a sucessivas insónias poéticas, pois, escrever é também uma forma de insónia. Crónica. Onde a noite no seu limbo, fermenta oscilantes deambulações na qual o álcool, a cidade e o seu ritmo não são apenas os bastidores, são a boca de cena em que milhares de corpos de copo em riste se entrecruzam através de olhares, de apelos, à sedução do calor, à vertical e trôpega ascensão a algo mais. A algo mais além”.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Nos dias de austeridade, 2013…Portugal.

– “Quando me vêm com a história de ter uma licença respondo que passo recibo”.
– Quem?
– Polícia Municipal
– É uma injustiça… tendo em conta o que tem de se descontar com os recibos (modo desabafo corrente)
– Deixe lá! Os governantes estão com fome e os iates ainda não estão pagos… Eu ofereço poesia aos agentes da PSP.

(Pausa)

– Quer comprar 20 poemas inéditos por 10 euros?

Chega a altura em que Leonora quer falar de uma outra coisa que a levou à forma como escreve poesia. Lê-se tudo, mas guarda-se e aguarda-se pelo final do mês para comprar poemas.

<Texto>Nuno F. Santos
<Fotos>DR