Fernando Moreira: Actor em Negociação Permanente com a Pintura

Do que Passou...

 

Começámos por vê-lo no palco. Poderíamos reduzir e dizer “apenas no palco”, mas ser actor é, para ele, “de uma dimensão cósmica a que nem a sociedade nem o Estado dão o devido valor. Uma profissão de uma dádiva enorme”.

Jogando com aquelas introduções das entrevistas mais habituais, diremos agora que é actor há 25 anos, tendo indo então em 1989 para a Seiva Trupe, acabando por adiar o curso de pintura para onde entrara, nesse mesmo ano, na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (FBAUP). Ele… é Fernando Moreira, um artista que não aceita o pacote básico do actor e que, para conhecer o absoluto entrou na encenação e na dramaturgia. Está quase tudo dito, menos o essencial talvez.

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– Olá Fernando, bem vindo

Fernando Moreira respondeu com qualquer coisa tão ou mais simpática do que um “olá” no dia em que conversámos e está, nesta fase, numa viagem entre o Teatro e as Artes Plásticas. Ora, é nessa viagem que reflecte muito, sobretudo sobre o que vai acontecer à sua própria vida. Haverá reflexão maior? Porque não estamos a falar de uma personagem. Estamos a falar de alguém que, até no momento em que pensa sobre o que lhe vai acontecer na vida fora do palco, constrói uma linha artística à volta disso. A exposição «Actor’s Panopticon», que decorreu no Mosteiro de São Bento da Vitória em Julho é, precisamente, o primeiro marco dessa viagem. Com pinturas realizadas em acrílico sobre linóleo – um suporte que nos reporta para o piso das salas de ensaio e o chão de tantos espectáculos teatrais –, as pinturas encontravam-se suspensas das arcadas do claustro do mosteiro.

“Estou a acabar o mestrado em Pintura nas Belas Artes – FBAUP – e a exposição surgiu naturalmente nesse contexto. O que usei foi material para produção de Teatro com os tais 25 anos e há elementos como o linóleo preto no qual eu próprio ensaiei. Literalmente, ensaiei em cima dele. Esta exposição é contínua e fala do universo da experiência de um actor que está a viajar para as Artes Plásticas, numa permuta e negociação permanentes. Estou bem no meio”.

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A pintura para que Fernando caminha “terá de ser cristalizada”, mas parte do movimento de actor. E quando alguém ao fim de 25 anos viaja nas decisões de vida chega a várias conclusões. Elas caberão numa segunda ou terceira partes deste texto. Uma dessas conclusões: “Sabes, o Teatro só existe pelo actor, mas estamos no tempo em que tudo parece ser prescindível… já se pensa até que o actor pode deixar de ser essencial ao Teatro, imagina!  A questão é ‘para onde estamos a ir afinal?’ e assenta exactamente na ideia de qualquer trabalho artístico que eu possa fazer”.

Se a exposição é um acto contínuo, se a reflexão é premente no momento, existe paralelamente um braço de apoio ao estudo das artes plásticas. «O Menino da Lágrima». Fernando Moreira fez 100 versões da pintura que é justificada, para ele, no livro «A Arte de Ser Português», de Teixeira de Pascoaes.

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“Tenho dois exemplos claros, a vivo e a cores: Um amigo meu da investigação criminal acorreu a um local de suicídio. Quando chegou ao quarto da ocorrência apareceu-lhe como grande pano de fundo o quadro d’ «O Menino da Lágrima». Mais. Recentemente ajudei uma vizinha, senhora idosa, e assim que entro na casa… lá estava O Menino. O que sinto é que, sendo esta uma brincadeira mais séria do que parece, a chacota é a forma de subverter a lágrima, exorcizando aquele olhar confrangedor que procura o lado mais básico de nós. O Menino da Lágrima é um enorme actor”.

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Agora mesmo, Fernando Moreira está em viagem no sentido menos metafórico da coisa. Está noutro país. Mas de certeza que continua no meio da sua reflexão, a pensar o que vai ser a sua própria vida, como nós. Como maior parte de nós. Resta saber se a saída será catalogada como na «Arte de Ser Português», de Teixeira de Pascoaes. A próxima conversa o dirá. Com Fernando… e muitos outros actores em viagem.

<Texto>Nuno F. Santos