António, Sofia, Camões e o Resto da Vida

Cinema

 

8816

antónio fonseca junto a inês, na quinta das lágrimas

Sofia Marques, actriz e cineasta, mete-nos a todos num grande bico-de-obra com «8816 versos», um filme épico. Épico porque a realizadora, Sofia, acompanha em documentário / filme a viagem também épica de um só homem: um actor que decide contar «Os Lusíadas». Não é decorar, é contar os versos aos cantos. Muitos. 8816 versos, exactamente. António Fonseca não quer saber das conquistas, quer saber da viagem de coragem. Tão apropriado aos nossos dias! Permita-se uma exclamação na frase como se fosse a voz com que se começa sempre a dizer “as armas e os barões assinalados” e depois se parte num crescendo como numa epopeia. Claro, até onde se souber ir de cor na obra de Camões.

Como vamos percebendo ao longo do filme, António Fonseca sabe que o Teatro é outra coisa que não a vida, se não, reinvente-se uma forma de teatralizar a vida. Ele mesmo é captado nessa opinião num dos planos/cenário em que é acompanhado. Concretamente: com os seus alunos. Partindo dessa premissa, nós não ficamos indiferentes, porque se a vida é outra coisa fora do palco então o que dizer do trabalho do actor obsessivo (não obcecado) em torno de um projecto, como se estivesse a preparar-se para uma maratona? E é uma maratona. Ora, quando a vida é outra coisa ela também é acompanhada pelo olhar de Sofia, a quem António Fonseca nada esconde, a quem ele se confessa, a quem ele abre o diário. Seria impossível a alguém que não conhecesse António Fonseca fazer o filme conforme ele está. Como podemos ficar indiferentes perante travessias de neurologistas, tensões altas, crises de ansiedade, decorar, contar, ser actor, ser marido e pai…  e de novo actor noutros palcos?

Um filme que documenta essa viagem que se nos mete alma dentro, e por isso é que estamos enfiados no tal bico-de-obra (não é fácil enfrentar o Adamastor), mesmo para quem não se reviu no protocolo curricular académico. É que já todos nos cruzámos com «Os Lusíadas». Mas o que ficou? Da Escola também se ouve falar aqui, do que conta e do que deveria contar.

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«8816 versos» aborda subtilmente uma obra – subtilmente, porque parece a dado passo que são «Os Lusíadas» per si o mais importante –  que vamos tendo vontade de abrir mais do que quando nos dizem que é obrigatória.

A realizadora, que estando quase sempre em cena como um contra regra – jogando até preciosamente com isso na montagem e edição – às tantas já parece que é o vértice de um triângulo que se só com vértices se sustenta. Lógico; O triângulo: António Fonseca, «Os Lusíadas» e o Resto da Vida. Será que existe resto da vida em tanta vida de cantos? Existe. E se nós sabemos dessa vida que é então outra coisa, é porque Sofia e este filme contam o que António conta.

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realizadora Sofia Marques

Sendo centrado no trabalho de um actor, ‘8816’ é sobre a entrega total. É sobre essa condição de alta competição a que o actor se sujeita. António Fonseca é brilhante como protagonista. Nunca representando vai, paradoxalmente, ao mais fundo da representação. Sofia Marques também se entrega a ser uma assistente de vida, de trabalho, deixando-se levar por esse acto de filmar naturalmente e sem medo das palavras. É que poderia haver o risco que tanto mundo do Documentário e Cinema teme: o de ser demasiado palavroso. Pois aqui é nas palavras todas que sentimos as tempestades e os silêncios.

Por altura da publicação deste artigo, Sofia diz-nos que António Fonseca apresenta o Integral de «Os Lusíadas» no Brasil.

Finalista da 37ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, selecção oficial do DocLisboa 2013 ou presente no FICH (Festival Internacional de Cinema Chinês e Lusófono), entre outras mostras e competições, «8816 versos» não esquece, ao mesmo tempo, Guimarães Capital Europeia da Cultura, onde as mais altas patentes do Estado Português não se fizeram representar. Dá que pensar…

<Texto>Nuno F. Santos