«A Gaiola Dourada» que Vale Ouro… Mas Nunca Para Todos (I)

Cinema

 

Sim, o filme mais visto do ano em Portugal é… francês e não português como até aos primeiros minutos se tinha escrito aqui, imaginem. Mas e agora? Quem é que não o sente Português? Pelo menos até à data de hoje, 9 de Setembro de 2013 é um filme de maioria de elenco português e sobre a comunidade Portuguesa que suplanta os Smurfs, os Aviões e os vilões e, se há quem diga que cinematograficamente o filme de Ruben Alves “não traz nada de novo”, existem os que se revêem e que agradecem literalmente ao realizador luso-descendente.  A TKNT tenta nunca fazer Crítica e, por isso, foi ouvir quem viu o filme. Sobretudo junto de emigrantes em França, tentou-se perceber  se «A Gaiola Dourada» pode ser ou não o retrato de, pelo menos uma geração de portugueses que emigrou?

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Bernardo é realizador, operador de câmara e tem uma produtora. A primeira coisa que diz… antes mesmo de lhe perguntarmos por qualquer pormenor específico, influenciados pelo breve comentário do Crítico de Cinema no Ípsilon, Luís Miguel Oliveira – escreveu: “a sua relevância será muito menos uma questão de Cinema e muito mais um assunto de Sociologia” – a primeira coisa que diz o Bernardo é que “o som é fabuloso, que se compreendem as falas e que a luz do filme está muitíssimo bem feita”. Bem, a partir daqui Bernardo embala para dizer que não é um daqueles filmes que o façam sentir pleno, como nos grandes filmes, mas que preenche perfeitamente as medidas e que o surpreendeu até. Acrescenta, embaladíssimo: “se fosse em Portugal o realizador nunca teria tido apoio para fazer o filme”, a mesma opinião do realizador e argumentista Vicente Alves do Ó, expressa no seu mural de Facebook.

A 9 de Setembro, a data em que este artigo é publicado, e sem qualquer intenção de fazer uma espécie de prós e contras entre os que gostam e os que não gostam… ficam na cabeça algumas frases da crónica de Domingo (8 de Setembro) de Miguel Esteves Cardoso no jornal O Público: “O filme não só não precisa de ser visto num cinema como ganha em não ser visto em lado algum (…) é uma merda má. Não tem graça. Nem uma desgraça consegue ser”.

A TKNT faz a pergunta, a responder nos próximos dias por aqueles que estão habituados a debater a cultura: Se é o mais visto e comercial é  difícil ter um padrão de qualidade elevada? Os próximos dias trazem respostas.

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Enquanto os emigrantes portugueses descansavam por cá, com ou sem terrenos próprios, durante o mês de Agosto – o filme conta a história de uma família portuguesa que, após muitos anos emigrada em França, recebe a notícia que tem uma herança em Portugal, podendo regressar  à sua zona de sonho. A partir daqui os franceses tentam por tudo que os «portugais» fiquem e passam pelas cenas da trama clichés, desde o bacalhau à forma de falar, das expressões ao género de vida, numa comédia baseada na vida, precisamente e também, dos próprios pais do realizador – escrevíamos então… enquanto os emigrantes portugueses descansavam por Portugal durante o mês de Agosto, fomos recolhendo opiniões. Em Maçainhas, por exemplo, uma aldeia do concelho da Guarda, José Sousa (trabalhou a 15 quilómetros de Paris como Mestre de Obras) acha que o filme “descreve com piada, os sacrifícios e a forma de estar das primeiras gerações de emigrantes em França. Não ofende nada, é uma alegria!”. O senhor José e a esposa Céu saíram do filme com saudades e sabem que os filhos e os mais novos já não contam com Portugal. “Não estão dispostos, e bem, a passar por dificuldades”.

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E é sobre essa segunda geração e a forma como o filme não fala dela que há uma pecha para Helena Machado, Directora do Curso Profissional de Artes do Espectáculo – Interpretação no Externato Delfim Ferreira. Helena vive na Póvoa de Varzim e foi com a mãe ver «A Gaiola Dourada». Se ela e a mãe se reviram no filme: “sim”. Se os clichés são divertidos: “Sim” e, Helena e a mãe, Maria Adolfina Machado, com 60 anos e ainda a viver em Paris (chegou à capital francesa em 1974)  passaram “bem o tempo pelo lado divertido”. E se para Helena, por um lado, o realizador Ruben Alves “agarra bem o dia-a-dia da comunidade portuguesa”, por outro “não foca a relação com os franceses, pois a única relação que se vê é a de empregado/patrão e não a relação dos filhos com os seus pares franceses”. Acrescenta: “É pena não se ter aproveitado mais o lado profissional da filha do casal para vermos que, de facto, a segunda geração está bem inserida na sociedade francesa”.

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Paula Torres, docente aposentada e que leccionou junto das comunidades portuguesas em França nos anos 80 diz que a narrativa é muito semelhante à realidade”. O filme revelou-se uma surpresa até na forma como a interpretação de Joaquim de Almeida lhe agradou… não é propriamente fã do actor, mas acha que ele “assenta muitíssimo bem na personagem”. Mais: “Rita Blanco está excepcional”. Helena diz que a película “acaba por perder no que diz respeito à densidade dramática”. Aprofunda: “Tudo que caracteriza o Português, desde a cerveja, os palavrões, o fado, as relações familiares, etc., lá estão. Parece que o realizador meteu tudo isso numa máquina e fez um belo mix. Assim sendo, temos um produto divertido, com uma história básica que se alimenta de arquétipos. Contudo, é de salientar que o realizador não brinca só com a imagem dos portugueses. Também faz uma caricatura dos franceses, até bem conseguida. É pena, como já disse, não ter aprofundado mais a realidade da segunda geração de (i)migrantes… os que, como eu, têm a dupla nacionalidade”. Para concluir: “Mais do que um filme, temos um testemunho divertido do que é viver em França para alguns portugueses”.

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Voltando à Crítica especializada e ao objecto sociológico em vez de objecto cinematográfico, lembrando a opinião de Gabriela Silva, Consultora e Investigadora, uma semana após a estreia: “Estou com as massas que saem do filme encantadas e sorridentes, para desespero de muito crítico que acha que tudo o que é do agrado geral é mau… porque as massas não têm sentido estético nem entendem a arte! O que eu já me ri à conta de algumas críticas”. E, enquanto Júlia Coutinho (convocada via redes sociais para opinar sobre a longa ) concorda que o filme funciona muito bem e destaca a qualidade da interpretação do elenco, Gabriela classifica a primeira obra de Ruben como “Sublime”. Isso mesmo. “O filme funciona, precisamente por ter aquela qualidade sublime associada à simplicidade intencional”. Paula Torres, ainda sobre as críticas negativas… “é Sociologia e não Cinema?! Ora essa! Que eu saiba o Cinema é um conjunto de muitas coisas e, se tiver de ter Sociologia também… tudo certo. É sinal que não é indiferente”.

Nos últimos dias falam-se e repetem-se os números e números, o orgulho nacional às vezes provavelmente despropositado e exibido em muitas entrevistas com Ruben Alves nos blocos informativos dos jornais mais longos. Artigos de opinião e a expressão “gaiola dourada” parece ter vindo para ficar.  É usada e abusada. Escreve-se dos anos 60, dos 70, dos portugueses e d’o Salto até. Já dizem que Hollywood quer fazer um remake com os latino-americanos e coloca-se Ruben Alves nas entrevistas com Lisboa e sua luz como cenários… fazem-se perguntas como “gostaria de filmar aqui”???.  Ruben parece ainda surpreendido com o que aconteceu, e quem ia vendo o filme, mesmo antes do sucesso comercial, já escrevia em forma de agradecimento. Casos do jornalista freelancer Filinto Melo e de Carlos Barros, cronista no P3. Escreve Filinto que “o filme pode ter todos os estereótipos, mas quem o vê assim, arrisco-me a dizer, não percebe nada do que foi a vida média dos portugueses em França”.

Marlene Moura, também jornalista freelancer e nascida em França, onde viveu com os pais até aos 10 anos – a irmã mais velha não regressou com os pais e Marlene para Chaves – escreve: “ os estereótipos adensam-se, mas é uma a sátira que nunca se debate com feixes pejorativos e, mesmo sendo um retrato bastante consistente da típica família de emigrantes portugueses – que viajou como muitos nas décadas de 50-60 para fugir da miséria e sem grandes habilitações literárias –, há muitas outras boas razões para vermos o filme”.

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Os números a 9 de Setembro: Cerca de 500 mil espectadores desde a estreia a 1 de Agosto, ultrapassando Velocidade Furiosa 6 .
Os sentimentos… peguemos nos de Céu Sousa, a esposa do senhor José, de Maçainhas, na Guarda: “Tantas saudades de França, sabem… 45 anos não se apagam de um dia para o outro.” E o senhor José continua, hoje, amanhã e durante muito tempo sabemos, a ver a TV5 Monde.

Continua…

<Texto> Nuno F. Santos Avec Marlene Moura, Filinto Melo, Pedro Sousa, José Sousa, Céu Sousa, Bernardo Duarte, Gabriela Silva, Paula Torres,  Helena Machado, Maria Adolfina Machado, et Carla Lima, Adriana Ventura… et un certain regard de Inês Forjaz

<Fotos> site oficial do filme