A Arte de Ser Textura em Filme

Cinema

Falar de algo visceral é já quase banal mas é de visceral que nos lembramos quando vemos Sculp, o filme do realizador Joaquim Pavão rodado no Museu Internacional de Escultura Contemporânea de Santo Tirso, e em colaboração com o mesmo e as entidades que o gerem. Visceral pode ser das vísceras e daquilo que nos incomoda ou mostra das entranhas. A perspectiva assustadora de um pós capitalismo com imagens trabalhadas para serem cruas, quer interpretando esculturas próprias em nascimentos ou mortes, quer retratando um tipo de humano que se desenvolve por entre pedaços de lama como barro mais puro que ganha forma ou que não abdica de se moldar – assim são os instáveis -, é de visceral que falamos pois, porque esses presente passado e futuro entre a natureza e os corpos, algures demasiado limpos e mergulhados em esperanças de vida de cerca de 130 anos, são a ficção científica sem regras de poder ferir susceptibilidades ou determinismos, tal como qualquer escultura que possamos encontrar ao ar livre, passeando por Santo Tirso num projecto original, sob a figura tutelar do escultor Alberto Carneiro. Em primeiro referir que se existe qualidade de imagem e som numa balança de ficção científica estética realizada em Portugal, ela pesa e em muito para este Sculp. É credível e actual a fórmula narrativa que fala de um futuro quase orwelliano e de um passado que se cruza com estes dias de hoje tão assustadores no que toca a pandemias víricas e apocalípticas.

Mas as pandemias são outras. Ao longo do filme vamo-nos confrontando com algumas das esculturas e quadros de relação, interpretação ou confronto que se misturam com a narrativa de um futuro assumido onde existe hora para tudo… Literalmente. Não é fácil entender esta plástica, uma linha de sequência confortável ou nesta metragem, mas esse é o poder subtil que Sculp tem ao nos mover para a atracção de um abismo ou de uma normalidade até sem que o percebamos. Damos por nós a reagir ao cinema quando estamos a reagir mesmo como se fossem esculturas contemporâneas, sempre nesse afastamento VS aproximação que nos causa a estranheza e logo a resposta automática perante tal interrupção do quotidiano. Mas é então o visceral que nos tende a tocar, incomodar ou inquietar.

Se fazer da escultura contemporânea protagonista nos espaços comuns e municipais de uma cidade foi um salto em frente no que toca a um projecto de arte, então este filme de Joaquim Pavão – que se associa permanentemente a uma banda sonora do compositor Óscar Flecha omnipresente – é, a nível da tecnologia um reflexo disso mesmo… Melhor.. um paralelismo até. Porque foi trabalhado fotografia a fotografia e não numa pós produção edição normais, existe uma textura diferente para o espectador, tal qual como para o visitante ocasional ou com propósito desta série de peças que se atravessam no caminho.

Conseguiremos nós voltar a encontrar um sensato e racional equilíbrio depois de esbarrar com o que nos é oferecido? Numa versão bem simples do que não é nunca dissociado de interpretação, demos por nós a imaginar a vida das esculturas e o mundo que povoariam. Se para um realizador de cinema é possível, aplicando uma fórmula de visibilidade muitíssimo justa e bem distribuída entre actores e figurantes, para nós também será. Mas cuidado, não nos tornemos amorfos à sombra dessa capacidade, à sombra dessa suposta igualdade entre pensamentos que nos pode conduzir a ser um número ou um padrão num sistema de vida sustentável mas desprovido de reacção em comunidade. É muito disso que Sculp nos enquadra… Nesse cenário pós capitalismo, enclausurado-nos.

Para vosso bem esqueçam o conforto. Se o sentirem, é porque foram injectados durante um sono metáfora da realidade que atravessamos com ciclos de notícias que circulam sobre si mesmas, confinando a diferença de opinião ou de perspectiva.

<Texto>Nuno F. Santos