Os Rios de Adélia Gonçalves

Artes Visuais

 

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Design ecológico, artes plásticas e literatura, tudo junto como que reciclado em «Remade in Viagem». Na galeria da Fundação EDP do Porto e, sempre com entrada livre mas mediante inscrição, é possível participar em oficinas de modelagem experimental com refugos de pele ou embalagens tetrapack. Foi numa dessas oficinas que encontrámos a artista plástica Adélia Gonçalves. Explicando o seu trabalho, sempre seguindo o curso dos rios para estudar o contraste violento entre a aceleração das cidades nas margens enquanto ali, no rio, há uma velocidade própria. São dois tempos num espaço.

O que interessa a Adélia Gonçalves é a ideia subjacente a espelho, nomeadamente na imagem palpável que rios como o Sena, o Tejo e o Tietê devolvem de Paris, Lisboa e São Paulo, respectivamente. “Em São Paulo tentámos até descodificar um dos poemas sobre o rio, para que ele servisse como fundo às imagens captadas em vídeo”, diz a artista plástica.
Adélia Gonçalves utiliza a câmara de vídeo – independentemente da qualidade de imagem – porque sente que o que é filmado pode ser captado com a mesma fluidez da água, esse elemento inodor e incolor que se transforma quando É rio. Com o trabalho de Adélia Gonçalves poderíamos até viajar ao pensamento do filósofo Héraclito e ao conceito do devir onde “nenhum homem se banha duas vezes na água do mesmo rio”. É que nem o homem nem o rio são os mesmos. Mas o rio parece sempre o mesmo, parece que não envelhece. E poderíamos, ao mesmo tempo, questionar o que vive mais tempo: Se o rio, com todos os detritos, ou se aqueles que habitam a cidade, acelerados pelos tempos digitais e apressados. Para já, uma pergunta se coloca ao escrever este texto: será que o tempo acelerou? Por mais impressão que isso nos cause ou por mais pressão que as vidas das grandes metrópoles estejam sujeitas, os rios têm a força da corrente mas contêm-se na sua velocidade. Aparentemente são tranquilos. Mas o tempo é o mesmo, sempre… nós é que estamos diferentes. É caso para, mais uma vez perguntar, e é para isto, sobretudo, que a arte contemporânea serve…. para perguntar: Vivemos mais se formos mais rápidos nas coisas que fazemos?
Ainda no caso do Sena, Adélia Gonçalves conseguiu colocar em exposição os olhares de mendigos que dormem na margem, dos mergulhadores da polícia fluvial francesa, dos turistas e de cientistas de anatomia comparada. Vários olhares, o mesmo rio. E depois, partiu para os outras margens…

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Voltando às oficinas, dirigidas por uma outra artista plástica, Ângela Garcia. Para lá da reutilização artesanal, tenta-se reutilizar com carácter e, aqui, Ângela refere os exemplos de Marcel Duchamp ou Georges Braque, para citar nomes consagrados que já o faziam antes da questão ecológica.
Como tudo gira em torno da reutilização e da reciclagem, destaque então para a exposição «Remade in Viagem». Aliás, ela é a nascente de todos os braços paralelos, ainda muma metáfora de rios. Álvaro Siza usa material reciclado de choupo para fazer um banco, João Mendes Ribeiro azulejos para fazer uma mesa, Nicola Cavallini & João Carneiro madeiras e componentes eléctricos para fazer uam vitrina-candeeiro de parede, Júlio Dolbeth desenhos com tetra pack e Maria Gambino faz um blusão a partir de um saco-cama e tenda. Peças entre muitas mais nesta viagem ao mundo do Refazer com malas da Ideal & Co, feitas de restos de couro e sem uma única costura, ou com a camisola de Naulila Luís com restos de malha polar. Ao Design ecológico acrescentemos pintura e desenhos: O óleo sem tela de Álvaro Lapa, a Montanha #43 de Cristina Ataíde.

As oficinas regressam a 5 de Novembro, já sem Adélia Gonçalves mas com os designers Rute Vieira e José Lima, precisamente da Ideal & Co, ainda com o acompanhamento de Ângela Garcia. Quanto a literatura ela está nas conferências sobre viagem: a 6 de Novembro Gonçalo M. Tavares, Teolinda Gersão e Álvaro Domingues falam, sob moderação de Marta Bernardes, na conferência I, enquanto que a 13 de Novembro a Conferência II reúne Afonso Cruz e Dulce Maria Cardoso.

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Se for professor ou estiver ligado a qualquer componente educativa numa escola do primeiro ciclo, pode ligar para o 22018399 e marcar uma visita guiada que inclui actividades para os alunos. E falando de viagem… saiba que eles podem desenhar um mapa na parede. Eles, e se calhar nós também. Se pedirmos.

<Texto>Nuno F. Santos