Fúcsia é Ilusão, lugar é memória… na Belo-Galsterer

Artes Visuais

 

 

Fucsia 02 press

Cor…  Fúcsia. Cinco fotografias de Jorge Molder em que sem corpo adivinhamos uma Mulher. Na mesma galeria, a Belo-Galsterer, Catarina Branco mostra a viagem às suas raízes, através das tradições de que se vestem as festas religiosas nos Açores. À ocasião questiona-se a condição feminina nas artes plásticas. Mas, como diz a curadora Alda Galsterer, é um questionamento “subtil“.

A Belo-Galsterer tem-se definido como um dos espaços que conduz aproximações entre artistas e visitantes. Mais. Não se coíbem os responsáveis de ir escutando comentários e trocar impressões com quem entra no espaço da Rua Castilho, em Lisboa. Alda Galsterer: “Um visitante, recentemente, disse-me uma coisa engraçada. Dizia ele que no trabalho do Jorge Molder ‘existe um tecido que cobre o corpo e no trabalho da Catarina Branco o tecido existe por baixo do nosso corpo’. Ele aqui falava  do tapete de pétalas de flores que a artista recria com confettis“.

Também a TKNT, como visitante, poderá ir por outros caminhos nas fotografias de Molder e tentar adivinhar que este site specific pode questionar também o papel da Mulher enquanto fotografada em poses sensuais. Quer dizer: Será a espécie de alma num tecido que ganha forma sensual como a carne e osso das fotografias? Especulamos, claro. Fúcsia é usado como nome alternativo para a cor magenta eléctrica. Fúcsia não existe no espectro, diz a Wikipédia. É uma ilusão provocada na visão entre os cones receptores de vermelho e azul. No tecido de Molder é-nos criada a ilusão de uma Mulher. Cor e Vestido complementam-se na silhueta da fotografia, como que suspensa a deixar-nos suspensos. E escreve Jorge Molder para a exposição, da qual retiramos parte do diálogo… não se sabe com quem, mas sim que tem a ver com a Mulher… ou melhor, com a senhora do vestido:

*- Confesso-lhe que só entendi do que falava muitíssimo mais tarde, pensei que
me estava a fazer um reparo sobre a elegância ou a beleza feminina, depois
pareceu-me que se referia a um termo obsceno ou a uma palavra de ordem e, só
mesmo lá para o fim, é que alcancei aquilo em que estava a pensar .

* – Tudo a que convém mais de uma leitura ou uma olhadela me atrai, está-me
na massa do sangue e não consigo resistir-lhe. Vá-se habituando. Mas olhe que
a sua observação sobre a senhora do vestido, além de acertada, vem mesmo a
propósito para aquilo que um destes dias lhe vou querer dizer.

Trama de Luz #1

Catarina Branco exibe trabalhos recentes da série «Trama de Luz«, já de 2014, e revela em entrevista para o site da Belo-Galsterer, a propósito de  «A Memória viva nasce a cada dia, florescendo»: “A primeira característica comum presente nos meus trabalhos é, sem dúvida, a memória. Ao resgatá-la e tratá-la como uma coisa viva, torno-a activa, permitindo assim o florescimento de novas histórias que acrescentam algo mais à minha identidade, acentuando as suas diferenças, para que ela não seja esquecida”. Complementa:  “No que diz respeito ao meu processo de trabalho, posso afirmar que este constrói-se quase sempre a partir de um lugar específico, que é a cultura açoriana, mas, através desta, faço referência ao que é característico de qualquer civilização – o seu lado de miscigenação ou de hibridação. Nos meus diversos projectos podemos verificar as ligações estabelecidas com África, o Brasil e o Oriente. Este aspecto coloca as minhas obras numa perspectiva verdadeiramente globalizante“.

Assim convivem dois site specific que sucedem à performance de Mel O’Callaghan, «Time to Act»,«Blues» de Marcelo Costa – cianotipias que se debatem com um trabalho processual – e  Mário Macilau, o fotógrafo moçambicano da nova geração que cruza muitíssimo bem o retrato actual dos jovens urbanos moçambicanas, que agora voltam às capulanas como uma segunda pele. Foi assim «Moments of Transition», fotografias que entram nas saídas de Domingo. “Olhando para o passado do período pós-25 de Abril, podemos observar a influência das gerações mais novas que foram estudar para a Europa e voltaram ao seu país com novos conceitos em termos de moda e de corpo“.  Mas é de muitos mais retratos simples a preto e branco que são a face também emergente de um país, às tantas também ele emergente, ainda a sair da guerra, ainda a destruir o preconceito e absurdo da fotografia colonial. Macilau quer essa coisa simples de dar voz às pessoas, voz que fala nas imagens para todo o mundo. Entrelaçados o rural e o citadino, o velho e o novo, o passado e o presente de gente real e não de política. Poderia ser Moçambique , Nova Iorque ou Toronto… e afinal é Moçambique. Mário Macilau volta à Rua Castilho um destes dias, com a consciência de que as imagens que ele dá voz fazem “parte de um país ainda um pouco perdido, onde não existe classe média” e onde a fotografia é arma e arte.

Moments#5

Moments#4

Apresentação Instalação MC

mel