«Desmantelamento de um Rio» Exposto à Beira Mar

Artes Visuais

 

A paisagem é, e será sempre, até ver, um porto seguro para muitos fotógrafos. O resultado, no entanto, depende directamente daquilo que O fotógrafo quer fazer, deslocando-se ao longo de uma narrativa não arriscada ou, ao invés, olhar cada elemento que não se vê na lente das pessoas que passam. É esse arriscar que torna invulgar e aprofunda a história e as estórias de pertença de qualquer lugar. Foi o que fez Bruno Silva, com Desmantelamento de um Rio, o mesmo título de um poema de José Luís Peixoto. Um trabalho agora patente na Galeria Manifesto, em Matosinhos, até Janeiro, e que é a mostra de uma bolsa criada entre o espaço junto ao Mercado e o Instituto de Produção Cultural e Imagem (IPCI). É essa bolsa que permite, a determinado momento, que o aluno do Master em Fotografia Artística no IPCI… o Bruno… crie um documento visual em torno de um lugar que conhece bem e para o qual gera um apelo fortíssimo, no que toca à extinção real do modo de vida de quem habita as margens de um rio, intrinsecamente ligado aos factores poluentes que fazem do Rio Tinto. Sim, o mesmo nome da localidade cidade situada na zona Oriental do distrito do Porto, freguesia de Gondomar e, o rio, um dos mais poluídos no País.

Delfina Brochado

PERIFERIA
A primeira ideia que surge de quem possa visitar um documento em exposição é esse preconceito ligado à banalidade de um nome associado a uma cidade periférica, com trânsito e design caótico nos seus serviços, onde muitos reclamam qualidade de vida e outros dizem nem sequer chegar o «Diabo a Calçar as Botas». Mas perceber que o Rio Tinto é também vítima dessa periferia, com ou sem preconceitos, é o primeiro acto de desmantelamento. E de uma camada difícil. Uma vez lá, de onde talvez nunca tenha saído interiormente por opção, Bruno Silva faz a preto e branco e do aparentemente vulgar uma não ficção que se estende pelos rostos de várias idades, pelas plantas e pontos de fuga arquitectónicos e metafóricos, pelo trabalho quotidiano, seja das hortas e quintais que ditam a ruralidade junto as estradas com destino a Sul, seja dos produtos largados por uma fábrica em desmantelamento que são uma ameaça ignorada pelas maiorias e que é obviamente paralelo com o título da exposição.

O RIO NAS MÃOS
Como se fosse pedaço a pedaço, Bruno levou para revelar em estúdio alguns desses objectos e partículas naturais e usou em alguns deles a água do Rio Tinto no processo de revelação de película, literalmente. Claro que às vezes nos cansamos de ouvir falar ou ler termos como “processo” ou “apropriação”, mas o preciosismo com o acto em si é de um cuidado e veracidade notáveis e lava genuinamente seja lá qual for o termo.
Depois há o rosto da menina mulher. Olhos Grandes. Sem Medo. De Frente. Curiosamente vive em Bristol e trabalha na Ryanair – Novembro de 2018 -, mas encaixa na partida e constante memória de um sítio de onde as raízes existem mas não se vêem. Agora temos grande parte dessa raiz para ver e conhecer. E um lugar é bem mais do que o que ouvimos falar dele. Poderemos estar em Rio Tinto, no caso, e ver o Mississippi, o Ganges, Palm Springs, o deserto, as tribos e as fábulas de grão sobre um rio com montanhas, que afinal é tão só um quadro de uma senhora com uma moldura de um outro rio na sua habitação, vivendo junto ao curso de água que parece desaparecer todos os dias. É mais rio o que tem na parede ou o que vê da janela?
Este é um dos exemplos do apego da arte sem palavras com centenas de pensamentos e pedaços de coisas a passar pela vida com a vida a passar e existir ali, onde um cavalo se rebola depois de lavado e escovado… e as aparências são tão fabulosas quanto cruéis. Ao olhar o cavalo pensávamos que ele rebolava pela vida, porque habitualmente vemos os cavalos de pé, no filtro todo dos lugares comuns.

Armanda Bastos

Armanda Bastos

Delfina Brochado

AUTOR AUTOR AUTOR
Pelo meio do documento e da pertinência das questões, ou da opinião que cada artista fotógrafo tem o poder de ter, à imagem do que o IPCI quer também: formar e referido na cerimónia de inauguração… “um autor em cada fotógrafo”… pelo meio deste início do Desmantelamento de um Rio e o trabalho exposto, Bruno Silva ganhou também outra bolsa, a Bolsa Estação Imagem 2018 dedicada à Saudade.
Agora é esperar o curso do rio do trabalho e viajar com ele, partindo de Rio Tinto. Pode ser para Bristol ou para a Índia, para as montanhas dos quadros que cada um de nós guarda ou observa e imagina. É isso que arte e a fotografia de autor nos permite… Certo?

<Texto>Nuno F. Santos