A Arte de Questionar o Método na Arte

Artes Visuais

 

A TKNT não esteve na instalação «A Salto», na Rua do Sol (Porto), mas o trabalho de Laetitia Morais ficou como um daqueles que se poderia explorar a partir dessa mesma mostra, por causa de um conjunto de peças que aparentemente quebra com o que Laetitia faz, tendo em conta que muitos a conhecem do trabalho em vídeo. Mas fiquemo-nos pelas aparências: não quebra absolutamente nada, porque Laetitia Morais fez deste «A Salto» – sem qualquer jogo de palavras – uma reflexão enquanto artista plástica, nomeadamente sobre métodos de abordagem ao terreno, “ao selvagem, numa espécie de análise antropológica visual, que ultrapassa a questão do exercício e do percurso e que tanto se debruça sobre a metafísica ou a metáfora“. Claro, poderemos encontrar facilmente parcerias de vídeo que faz com outros artistas e trabalhos em teatros como o Maria Matos, mas é na procura dos limites do visível e do invisível que Laetitia se movimenta. E a Arte… resultará de falhas? De treino? A dúvida é o mais importante, o mais parecido com um sentido que tenha a ver com regras.

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DIAGONAL é uma plataforma que remete para as rampas de lançamento que antecedem um salto no espaço

Tecnologia obsoleta. Manobras de diversão. Estratégia. Camuflagem. Parece linguagem militar e tem, de facto, a ver com linguagem militar. É, no momento, a forma da artista questionar as regras e a institucionalização das artes ou… da Arte. A sua tese de doutoramento, que prossegue em Zurique, «Intercepções Militares em Arte: Inércia, Velocidade e Futuro», vai de encontro à visibilidade e invisibilidade dos artistas, por exemplo. O campo militar, na teoria, é uma base de estudo enorme. Com Laetitia descobrimos que não é irónica a relação que se vai aprofundando entre a Arte Contemporânea e as organizações militares, mas entramos pelo objecto artístico de Laetitia sem carácter político, ao contrário do que Cildo Meireles fez na década de 70 e o ano passado mostrou em Serralves com «Inserções em circuito ideológico: Projeto Coca-Cola». A Laetitia interessam os significados duplos. E sim, podem ser irónicos: As mais altas tecnologias militares fazerem com que a velocidade tanto torne os soldados, os drones ou os mísseis quase invisíveis e, simultaneamente, estimule o uso de meios de camuflagem com recurso a tintas ou a imobilidade. Às tantas em práticas para o mesmo fim. Tão avançado e tão rudimentar. Um duplo significado que surpreende e se revela uma convergência, afinal.

Regressando «A Salto», revelou-se um jogo assumido entre dois conceitos: a disciplina de fechar o espaço ouvindo-se da parte do público a dúvida: “Pode ou não passar-se por cima das linhas?”. A noção de percurso nas linhas desenhadas não eram esclarecedoras e o próprio espaço apresentou-se como um exercício onde esteve em aberto que cada um poderia fazer o que bem entendesse. Será que fez?

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linhas de obstáculos, as linhas de horizonte ou de profundidade de campo e as LINHAS DE FLUTUAÇÃO, inscritas nas embarcações para indicação do suporte do seu peso

O treino, a repetição e o método. É possível treinar a Arte? Será que a Academia está a exercitar os seus alunos com os diversos níveis de exigência? Laetitia Morais, a propósito: “A exposição é como um primeiro esboço para pensar na Arte como forma de exercício… disciplinado ou não? Também como professora penso se estamos a formatar os futuros artistas?”.

Como que confundindo o leitor, encetamos uma manobra de retirada até à exposição da rua do Sol para descrever vários cenários montados que não passavam de manobras de diversão. Os Pinos de Bowling… gigantes. A escala a mudar e o visitante a desconcentrar-se do foco, do núcleo central de «A Salto». Depois, o espelho e uma barra de ballet que sugere exercício. Uma regra, em conclusão, e para a própria artista, se partirmos de A Salto como uma linha de continuidade no percurso de Laetitia: “Nenhuma das peças poderia ser redundante.

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Laetitia Morais é aquilo que faz, ela pensa a mesma estética ou o mesmo nível de composição de maneira transversal em todos os meios. Mais. A artista questiona a Instituição e a institucionalização das artes, mas, à partida, não é contra as instituições per si… o trabalho que tem com algumas comprova isso mesmo. Reforça, a propósito: “questiono a sua imparcialidade social, questiono os objectivos e fundamentos e a institucionalização crescente das artes. Aprovo o seu apoio quando surge de uma vontade genuína e quando possibilita uma expansão do trabalho do artista, independentemente do proveito que a mesma instituição possa vir a ter. Considero ainda benéficas as fissuras decorrentes da institucionalização“.

<Fotos>Luis Espinheira
<Texto>Nuno F. Santos, a partir de conversa com a artista Laetitia Morais