Os Últimos Tratadores de Fábulas (Anka e Sasha)

Artes Visuais

 

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Um amor à primeira vista… o de Anka e Sasha. À primeira vista por Portugal e pela cidade do Porto, em particular, e à primeira vista entre eles. Amores só possíveis em sonhos. A sério… a sério na realidade. Sasha Zhuravlev é músico desde os 13 anos, Anka Zhuravleva é fotógrafa depois da pós-produção para vídeoclipes e anúncios, depois da pintura que deixou em Moscovo, antes de partir para São Petersburgo a caminho de Sasha, mais baixo do que ela e que muita gente pensa que é francês. Nem ele sabe explicar por que é que tal acontece. Será do bigode?
Doze anos depois de se encaixarem habitam o Centro Histórico do Porto e dependem só da arte… o que fazem também encaixa. Algumas fotografias de Anka devem ser vistas ao som da música de Sasha . E faz todo o sentido, tendo em conta que essas mesmas fotografias são como um pedaço de um filme. A série das “Mulheres Voadoras”, que na realidade se chama «Distorted Gravity» e que Anka diz ter ter terminado – porque em qualquer filme existe um princípio e um fim – surge da necessidade de mostrar esse momento em que cada um de nós desafia a Gravidade e esquece que tem um corpo. “Nos sonhos isso acontece frequentemente”, diz Anka Zhuravleva.
– E por que são mulheres e não homens?
– “Porque enquanto mulher tenho sonhos de mulher. Tudo tem de estar conforme aquilo que penso: desde a roupa à postura ou ao espaço em si. Sou a realizadora, produtora, argumentista dos meus sonhos. Claro que, como em todos os filmes, há mais personagens. É o que acontece com o homem que uso como personagem nas fotos da série O Circo. E a música muda tudo… é a música de Sasha mostrada ao mundo, fora daquela que está em muitos projectos”.

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Sasha não tem familiares músicos. Aos 6 anos estava com os pais de férias na Lituânia em vez de estar num «campo para a juventude». Atravessava a rua para ouvir um jovem estudante organista tocar numa igreja. Disse: “Quero ser músico quando for grande”. Não o levaram a sério e não aceitariam. E não aceitaram quando ele talvez  tenha insistido. Mas, um ano depois, chega da escola e vê um grande piano… um piano profissional na sala. A avó, contra tudo e todos, pediu um crédito e deu os bens à música do neto. Aos 13 anos começou a tocar nos centros culturais das cidades russas. E uma mentira levou-o a tocar mais do que piano. Como? Um ano antes… a sua primeira paixão. Mais alta do que ele, loura (‘a história da sua vida’ diz o casal a brincar). Ela diz que adora Jazz e Sasha diz que toca Jazz. Urgentemente teve de aprender a tocar saxofone. A mesma paixão que lhe diz depois que a sua banda preferida são os Alisa. Sasha diz que toca com os Alisa – pioneiros do rock na Rússia numa espécie de adeus Lenine -. Outra mentira. Ora, os Alisa precisavam de improviso de um saxofone. Sasha deu-lhes esse improviso e as mentiras deixaram de ser mentira. Sasha não mente a Anka. Cruza a música com raízes na Índia com o Jazz ou com a Electrónica.

E como é que Sasha (diminutivo de Alexander) e Anka (em Português oral deve pronunciar-se Ana acentuando o primeiro A) vêm viver para o Porto? Contam-nos que São Petersburgo deixou de ter para eles a qualidade de vida necessária. “Todos os bares da rua fecharam e foram substituídos por Karaoke 24 horas. Era impossível… então em vez de mudar de casa simplesmente… por que não mudar de país? Os amigos sugeriam muitos países, até que alguém falou em Portugal”. Sasha percorreu as ruas com uma aplicação do google maps, sempre à beira-mar, e ficaram ainda um pouco divididos entre Valparaíso no Chile e o Porto. Mas depois das fotos e depois do tremor de terra no Chile deixaram de ter dúvidas.

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Sasha quer fazer música em paz e Anka quer fotografar 12 horas por dia 365 dias por ano.
“A partir do Porto e no Porto tudo é mais fácil. Para onde quer que vás, enquanto vives na Rússia, serás sempre russo e é uma tremenda complicação. Aqui, além de apaixonados pela cidade que tem várias cidades dentro, podemos circular”.

Sasha tocou por estes dias pela primeira vez ao vivo em Portugal. Foi em Viana do Castelo. Anka quer fazer uma série sobre as pessoas e o Porto. Juntar na mesma imagem essas pessoas e esses edifícios que um dia vão desaparecer. Quem sabe ser essa a única forma de os eternizar juntos? Claro que as pessoas podem respirar sem a sua cidade, mas não voam se não coabitarem. Sasha e Anka coabiatm e voam, não precisam de muito dinheiro para isso.

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As primeiras palavras de Sasha em Português não foram “amar, beber ou ou comer”. Foram: “Chão de madeira, divisões e quartos, porque os agentes imobiliários não falavam suficientemente devagar ou suficientemente bem Inglês”. As últimas fotos de Anka são sobre caras bonitas com sardas – Beautiful Faces – … mulheres aparentemente frágeis e para ela “de uma beleza única” que potencia. As coisas vão entrar em modo Pausa. Menos o amor e a vontade de ter o Porto. Com isso promete-se um regresso de Anka à pintura, começando pelos telhados e o regresso à fórmula das imagens saídas directamente do rolo para a nossa vista. Sem computador. À primeira vista.

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https://soundcloud.com/sasha-zhuravlev/santoor-2-toibele-and-her

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https://soundcloud.com/sasha-zhuravlev/santoor-main-theme-toile-and
<Texto> Nuno F. Santos
<Fotos>Anka Zhuravleva
<Música>Sasha Zhuravlev