«A Vida é um Sonho» na Comuna / Identidade no Cárcere

Artes Performativas

 

segismundo principal

João Rosa tinha um sonho… não em cativeiro… mas na gaveta há alguns anos. Encenar um específico texto de Pedro Calderón de la Barca, estreado em palco em 1635. A gaveta abriu-se ou… é uma ilusão? Não. É realidade mesmo. Vamos pelas personagens, o resto é na Comuna, em Lisboa, onde terá de descobrir o que é ilusão ou realidade.  Até 21 de Dezembro. Quem sabe verá luz!

Rosaura no seu espírito livre e numa atitude de constante descoberta depara-se com  Segismundo encarcerado. Segismundo viveu a infância e juventude enclausurado numa torre, sem nenhum contacto com o mundo do seu pai. Apenas com o carcereiro. Um dia Segismundo acorda e é-lhe dito que toda a sua vida até então não passou de um sonho. O texto de Calderón de La Barca questiona como conseguimos distinguir a nossa vida dos nossos sonhos, quando somos vítimas de manipulação, e “até que ponto é que o sonho comanda a vida ou será a vida que comanda o sonho?”.

SONY DSC

«A Vida é Um Sonho» tem então encenação de João Rosa que é também Basílio, que explica num cenário de futuro o que faz, como numa experiência científica à vista de todos. Segismundo interpretado por Eduardo Frazão, é o filho renegado de Basílio, Rei da Polónia. Imaginemos, de novo, “alguém privado do convívio desde o seu nascimento mostrando-se um ser aprisionado e de mente igualmente encarcerada com tudo o que isto provoca”. É o que intriga João Rosa enquanto encenador, na actualidade que até temos medo de colocar neste texto – lembramo-nos do cárcere como competição – é, precisamente, a actualidade do Teatro e desta manipulação presente no texto, confrontada com a sociedade actual.

Fala-se quase sempre da actualidade do Teatro. Muito e muitos. Tentamos também sempre saber em que se sustenta essa evocação da actualidade, nomeadamente quando recorre a textos antigos. “ Vivemos num mundo de contra informação, informação manipulada. O texto é tão actual que retrata a sociedade de hoje na perfeição”.

segismunf«do geral

João Rosa procurou Segismundo. “Por um acaso seguia a série da RTP os Filhos do Rock. A personagem do Garrafa, interpretada pelo Eduardo Frazão, era para mim muito interessante e, depois, fui ver um concerto ao vivo dos Barões. Pensei: tenho de falar com ele. E ele aí está! Tem tudo a ver com o Segismundo, partindo de uma forma de estar artista para construirmos, quer à imagem dele quer à minha imagem um Segismundo que é uma fera humana”.

De novo ao palco. Rosaura… “que com assombro de ver todo aquele horror de cárcere, usa-se do seu espírito de justiça e instiga Segismundo a assumir o comando do exército. Segismundo toma o Poder, aprendendo a lição da necessidade da prudência que exigem as circunstâncias”. Esta é a descrição de Rosaura por Catarina Gonçalves que a interpreta e completa o elenco. “Embora pareça uma história paralela ou de menor importância dramaturgia, tanto Rosaura como Segismundo buscam o mesmo – a sua identidade”. Mas a personagem desta mulher desde o início que o vai inquietar a si, enquanto espectador. Perceberá que ela transporta um segredo que só no fim é revelado, mostrando-se em toda a peça uma personagem enigmática. Não pense que será fácil de desvendar.

segismundo 2

A peça em si, enquanto texto original, vale-se dos recursos de comédia para representar o grave assunto da vaidade. A moralidade que assume a seu tempo é, no fundo, a lição do Eclesiastes: “Vã a vida Humana sobre a terra, não passando de vaidade e aflição do espírito aqueles bens que aos Homens pareçam honra, glória, riqueza ou distinção”. Mas também a ideia de que a vigília e a acção humanas não passam de pura ilusão e, comuns os sonhos nesta época, recorrentes nos textos europeus. Daí algumas comparações com as peças de Shakespeare. Chega igualmente à Caverna, de Platão, onde o Homem em cativeiro numa caverna só se libertará se deixar a matéria e chegar até a Luz.

Que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção;
o maior bem é tristonho,
porque toda a vida é sonho
e os sonhos, sonhos são”.

A influência de Platão é evidente na personagem de Segismundo. No cárcere ele também não se conhece. Repetimos Rosaura, segundo Catarina Gonçalves… repetimos e reforçamos, não é gralha: Embora pareça uma história paralela ou de menor importância dramaturgia tanto Rosaura como Segismundo buscam o mesmo – a sua identidade

segismundo 1

Basílio dirige-se a quem se senta nas cadeiras do Teatro da Comuna como professor que explica, passo a passo o que está a fazer naquela experiência.

O fundamental no meio de tudo isto é o Teatro a fazer as pessoas pensar na tensão… com atenção. Mas, e então, o que é que pode acontecer ao Ser Humano que acredita que a sua realidade é outra? «A Vida é Um Sonho» que está na Comuna, tem um final que, ao contrário do que muitos pensam, pode bem ser feliz. Quem sabe, possa também ser a resposta, entre a inquietante viagem aos nossos cárceres.

<Texto>N.F.S.
<Fotos>D.R.

Ficha artística
Texto: Pedro Calderon de La Barca.
Dramaturgia, cenografia, desenho de luz e versão cénica: João Rosa. Interpretação: Catarina Gonçalves, Eduardo Frazão e João Rosa. Performers/actores: Carlos Gaudêncio, Ítalo Buzeli e Vasco Peres. Música: António Bastos.
Apoio à cenografia e figurino: Marisa Ribeiro.
Produção: Oficinas Teatro Lisboa