«Uivo»: o dia em que descobrimos quem somos

Artes Performativas

 

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Como é que o poder do negro é tão forte? E não é o poder da escuridão. É o do negro. É o dos hábitos. É o do medo que não é medo: é o mistério.

Primeiro: esteja às 17h30 na Casa da Cultura, em Melgaço. Entre naquela que foi uma antiga prisão… sente-se por favor. Tenha piedade de quem sofre por perder filhos à boca de dentes grandes e dentes pequenos. Tenha piedade de quem por último vê tais bocas rasgadas. Tenha piedade do bicho que se esconde porque nele acham ter caído uma maldição de há séculos.
Ouça! Não ouve?
Ainda não é agora.

Que coisa negra é aquela que rosna e lambe lágrimas? É o Diabo? É o Medo? É o Homem? É o Bicho que uiva?
Que coisa negra é aquela que se mexe tão rapidamente e de maneira tão feroz? Só pode ser animal?
Que Deus Vos dê força que tendes entre vós um padre ordenado e reconhecido à leis do Senhor, ele… que zelará na hora do encontro com a besta. E se não descobrirem a besta, estarão frente a frente com mulheres destroçadas, mas de alma rija por guardarem gado e a oralidade das tradições que poucos têm a coragem de guardar.

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O segredo começa a ser desvendado na Casa da Cultura, mas é no interior de um autocarro que o levará à montanha, até Lamas de Mouro, que encontrará mais pistas até chegar ao lugar certo do mapa. No tojo, no riacho, por detrás das árvores… em terreno quase plano. Aí está o mundo dos vossos avós e bisavós, aí vão soar bem de perto as canções que embalam sonhos e pesadelos.

Se há medo? Com certeza.
Se há um corpo que se agiganta a ouvir as histórias? Vejam com os vossos próprios olhos. Olhem-se.
Se há magia? É que não há outra coisa na música de Ricardo Casaleiro a pontuar cada árvore à sua volta. Magia é tudo o que lhe resta, a si, para acreditar naquilo que está a ver e que às tantas pensava ter desaparecido há muitos anos, antes dos carros e das auto-estradas, antes da energia eléctrica ter encerrado muito do negro. E no entanto, por que raio sentiremos cada vez mais falta desse negro? Dessas figuras que já não nos pertencem? Magia é o que mais há quando um dos homens da batida tem por artes ser filho de um artista de circo abandonado em Melgaço. Magia é o que convoca aquela estranha mulher e as crias do Bicho para junto do pastor, que nos guia na sua dança de cajado. A mulher estranha é a Pejeira. É com ela que perceberemos a história desse pastor. A Pejeira, sempre presente mesmo quando não se vê. Criatura mais misteriosa que lobisomem, misto de mulher e fera, detentora de um poder sobre as alcateias que se lhe submetem.

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É no encontro da solidão com a saudade da tradição que o encenador Gonçalo Fonseca coloca e convoca todas as personagens, sem esquecer a etnografia mas acrescentando-lhe muito mais. Partindo dos livros «Bitcho Bravo», de Ricardo Rodrigues,  e «O Medo», de Al Berto, Gonçalo constrói em «Uivo», a peça/percurso sobre que vamos escrevendo, um palco único que usa a figura do lobo e do Homem como duas espécies que não podem viver separadas. «Uivo», não o de Ginsberg, mas o que vai estreitar-se nas ruas empedradas de Castro Laboreiro – ainda mais acima de Lamas de Mouro – é um longo poema com excertos de outros poemas e textos… é uma narrativa coreografada com exercício de bater o pé na terra com tanta força como quem atiça ou espanta o receio. A dança das personagens é também uma forma poética de contar sem falar, à semelhança do que «Volta» e «Chuva», os dois espectáculos anteriores das Comédias num tributo ao Vale do Minho, fizeram de maneira tão subtil.

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Filipe Caldeira é o pastor de uma série de personagens que não sabem o que perseguem, porque a própria besta habita entre eles. Seria tremendamente injusto dizer que «Uivo» é apenas uma peça de teatro. «Uivo» é o reencontro dos que devem coabitar num mesmo tecto ao ar livre. Só os lobos uivam. Atentemos… uivam os lobos e as lendas. «Uivo» é mais. É – percamos um pouco o medo para o dizer – o Sobrenatural à luz do dia. E quando isso acontece o teatro é substituído por uma crença subconsciente. Ninguém acredita, “mas respeita”. Nesse respeito voltam os lobos nos pastos, nas rezas e nos pactos… e voltam os homens a ter o poder do cajado. Ora, e os lobos… voltam a ter o poder de ser lobos.

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O que é que fica depois de anos de extinção? Mais gado? Mais pessoas? Mais pasto? Não! “Antes havia mais pasto, mais gado” e a lei dos mais velhos.
A batida é talvez a única ficção segura, e não a apologia da perseguição ao animal. Encurralados entre cantos e sons, aflições e a tal solidão que se pode transformar em paz, perceberão que sois vós também habitantes da montanha.
As Comédias do Minho e «Uivo», no caso, acabam por continuar o trabalho de recuperar as fábulas do concelho de Melgaço, nomeadamente dos arganões. Aliás, recentemente foram encontradas muitas imagens de monstros representativos dessas superstições.

No entender de Gonçalo Fonseca «Uivo» “não é uma espécie de registo de museu das mulheres com a sua capa”, por exemplo. É, antes, o tributo a quem tem a força perante a viuvez, perante invernos rigorosos e perante as histórias ameaçadas pela besta que é a extinção. E elas ouvem-se.

“Ouve-me
Que o dia te seja limpo e
A cada esquina de luz possas recolher
Alimento suficiente para a tua morte

É noite ainda
O corpo ausente instala-se vagarosamente
Envelheço com a nómada solidão das aves”

Não é exactamente isto o que o pastor vos dirá, mas sintam nas palavras dele e nas de Al Berto para ali chamadas ao pasto com passagem para o baldio… o quanto ele clama por vós. E sigam-no. No final, se é que existe final, talvez vos empurrem para o precipício com vista para o enorme vazio e aí, ou atiçam os cães e o medo… ou descobrem que a estranheza que tendes é, afinal, tão natural.

<Texto>Nuno F. Santos
<Fotos> Celeste Domingues / Procura de Desenho (Filipe Caldeira) / D.R.

 

FICHA TÉCNICA

DIREÇÃO Gonçalo Fonseca
TEXTOS a partir de “Bitcho Bravo” de Ricardo Rodrigues e “O Medo” de Al Berto
APOIO À DRAMATURGIA Francisco Álvares
DESENHO DE LUZ Vasco Ferreira 
MOVIMENTO Filipe Caldeira
MÚSICA Ricardo Casaleiro
INTERPRETAÇÃO Filipe Caldeira, Lucília Raimundo, Grupo Amador de Teatro “Os Simples”: Alexandra Rodrigues, Carla Domingues, Clara Araújo, Cristina Vilas, Filipe Carvalho, Gabriel Cristiano, Humberto Sousa, Inês Gonçalves, Juliana Pires, Lídia Sousa, Raúl Fernandes e Rafael Pereira
VOZ OFF Francelina Fernandes, Isalina Fernandes e Leonor Rodrigues 
INTERPRETAÇÃO MUSICAL Ricardo Casaleiro e Coro de Parada do Monte: 
Alexandra Afonso, Alexandre Pires, Armanda Domingues, Arminda Afonso, Carla Esteves, Carlos Afonso, Celeste Pires, Diana Gonçalves, Eduardo Afonso, Emília Domingues, Eugénia Esteves, Gabriel Afonso, Joel Esteves, José Afonso, Juliana Rodrigues, Laura Esteves, Leonor Esteves, Luís Pires, Manuel Pires, Marco Pereira, Marco Esteves, Maria Armanda Pires, Maria de Fátima Pires, Maria Teresa Pires, Matias Esteves, Melanie Pereira, Paulo Pires, Raul Fernandes, Rosa Esteves, Rosa Pereira, Rosa Pires, Sandra Esteves, Tiago Afonso