Trago-te na Pele Amor / Trago-te na Pele Dor / Trago-te na Pele Teatro

Artes Performativas

 

Amor e morte são dois dos temas, provavelmente… dos mais universais ao Teatro. Talvez sejam sim… ao Teatro e à vida mas o Teatro… bem, cada um saberá o que é o Teatro e vida e por que se ligam e são importantes. Não há nenhum dia Mundial que o faça, nem tão pouco qualquer mensagem que o façam melhor do que ir o leitor mesmo ao teatro e perceber o ponto de vista de uma encenação, respirar nos silêncios, ouvir os passos dos actores a pouca distância e viajar por onde quer, mesmo que a narrativa seja outra que não aquela que está na cabeça. Por exemplo, hoje é a última oportunidade para ver «Trago-te na Pele», no Cine Teatro Constantino Nery, em Matosinhos. Uma encenação de Luísa Pinto com texto de Marta Freitas e interpretação de dois actores para quatro personagens. Isso mesmo. Pedro Almendra e Isabel Carvalho desdobram-se em dois casais. Ora um casal de artistas plásticos, ora um casal de escritores. E entram em dois planos: ora o plano do teatro, ora o plano da projecção cinematográfica numa tela. Tema inevitável: o amor. E que duro é. Que duras são as vidas de casal! Como diz a frase do tema principal banda sonora desta relação e desta peça: “o nosso amor é um duelo”. Não falamos do seu duelo, não, estamos a falar do amor da peça. Ou até pode ser…. que seja o seu caso.

Dois pintores absolutamente dependentes um do outro (dependência é amor?) e que se abrem a uma relação extra conjugal com alguém muito parecido com eles mesmos. Tão parecidos que….
Depois é o que acontece na vida quotidiana a dois, para lá da essência do que tem de bom: as discussões, as palavras feias, a razão do lado de um deles, o passivo-agressivo e as fantasias. É nessa fantasia que nos devemos agarrar para marcar a pele. Deixe-se levar pela história, pelo belo apartamento, pelo copo de vinho e pela música, pela vida de um casal burguês disfuncional até, e tão igual aos casais funcionais. Humor em doses necessárias, erotismo, cor de palco e o preto e branco da tela, como um filme noir… literalmente. Preto e branco quando são projectados os sonhos ou os momentos paralelos do mesmo universo. Porque a tela em si tem muitas mais cores.

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“Eu mato-te se pintares a minha expressão”. O amor será isto também? A loucura de ter e de pertencer. Vai para lá das classes, tem as suas perversões e os seus finais com interpretações diferentes dos homens e mulheres do público. Mas «Trago-te na Pele» é o Dia Mundial do Teatro que se comemora hoje, dia 28 e Março, e amanhã dia 29 e depois e sempre, porque Pedro Almendra  leva injecções de Voltaren para se aguentar em palco. Trago-te na Pele é Dia Mundial do Teatro porque arrisca fazer espectáculos em dia de decisões de futebol, dos quais dizem que mais de seis milhões acompanham e assistem. Trago-te na Pele é Dia Mundial do Teatro porque, independentemente do que possa acontecer, faz espectáculos à terça-feira e à quarta-feira. É acreditar no público. E é mais do que um jogo.

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O amor é duro. O amor entre o casal da peça de Trago-te na Pele e entre o Teatro e os seus públicos, a sua crítica, as suas condições para que se faça com dignidade. Nem de propósito, é bom lembrar que maioria dos actores não tem casa concreta de trabalho. São trabalhadores precários e devem muito à Segurança Social. Não é resolvido. Por isso também migram para as séries de televisão ou, melhor, para as telenovelas escritas por pessoas que nem sempre escrevem o que ser actor deve falar. E são reconhecidos nas ruas e nos cafés, mas é ao palco que voltam. E as dívidas de muitos continuam. O palco não pode parar.

Há ainda a luta constante que passa pela divulgação dos Media. Quem vai a Matosinhos? Quem vai a O Fim das Possibilidades no TNSJ? Quem vai ao São Luiz, em Lisboa? Quem vai aos palcos de junta de freguesia com peças das Comédias do Minho, precisamente, no Alto Minho? Quanto custa? Será que o que disse, não há muito tempo, um ex secretário de Estado da Cultura (Francisco José Viegas)… será que “temos de fazer opções. Não podemos ir ao teatro e ao cinema ao mesmo tempo”. Será? Mas não deveríamos, não é serviço público? Quem vai a Tondela à Queima do Judas agora ou a um Don Juan interpretado por alunos de uma universidade sénior? Quem sabe o são os Gambozinos e Peobardos, na aldeia da Vela, entre Guarda e Belmonte?

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Fim-de-semana com a «Locomotiva» de emigrantes que partem da estação de São Bento, o fim d’O Fim das Possibilidades, o Teatro Mosca na Quinta da Caverneira (Maia)  ligada ao Teatro Art’Imagem… uma breve cowboyada no Rivoli, o aniversário da Jangada Teatro em Lousada. A Jangada tem andado pelo México, Estados Unidos e agora até esteve em Macau mas, curiosamente, sair de Lousada para os grandes centros portugueses é muito difícil. Nos próximos dias o director da Jangada falar-nos-á exactamente disso.  Falará ele e também quem escreve Teatro. Francisco Mangas, Froufe de Andrade, Pedro Estorninho, Carlos Costa, Ana Vitorino, Manuel Jorge Marmelo, Marta Freitas, José Leitão… isto, para falar dos que não pertencem à máquina teatral que tem rodas dentadas com certeza. Dos outros também falaremos e, claro, também terão a sua voz porque O trazem na pele…. ao Teatro.

Já não é, oficialmente, Dia Mundial do Teatro. Mas vão ao Teatro… e se forem hoje à última exibição de «Trago-te na Pele», podem depois dizer por favor quantos casais existem?
Obrigado

<Texto>Nuno F. Santos
<Fotos>D.R.

 

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