«Território»: o lugar que nós somos, que vós sois, que eles são

Artes Performativas


No princípio não era o verbo, não era a palavra. Era o acto de sobrevivência. Vamos assumir que quando falamos em princípio falamos do princípio do mundo. Especulamos apenas. Nessa sobrevivência os corpos evoluíram. Os corpos encheram-se de alma – metaforicamente, para não discutir religiões – e descobriram que, para lá de se misturar com a Natureza, a poderiam contemplar também. Que eram mais do que corpos. Dessa contemplação, dessa terra que se molda sozinha à terra trabalhada, desse mundo rural que vai do Oriente ao Ocidente, parte muito da obra do artista plástico Alberto Carneiro e a base para o espectáculo que estreou no auditório da ACE Teatro do Bolhão (Porto) e que começa hoje em Rubiães, na sede da Junta de Freguesia, concelho de Paredes de Coura. É o início de uma digressão pela rede de Municípios das Comédias do Minho até 29 de Novembro, terminando na Culturgest, em Lisboa.

O processo do regresso à essência, que no fundo é a Natureza, foi o que convocou Joana Providência a coreografar Alberto Carneiro quando se pretendia falar de «Território», precisamente o nome do espectáculo de Dança pontuado com palavras. É redutor escrever que é Dança pontuada com palavras, porque é naturalmente muito mais do que isso. Mas a Natureza não é imóvel e as palavras – escritos do artista plástico– são a zona de meditação que serve de mediação entre o habitante e o lugar que habita.

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Joana Providência esteve na abertura de um ciclo de espectáculos que comemora os 10 anos das Comédias do Minho, co-criadoras com seus actores deste espectáculo que tem produção da ACE Teatro do Bolhão e da Culturgest, e está agora num dos seus espectáculos finais. É um ciclo que se fecha, mas que fica permanentemente em aberto. Vamos ver: um ciclo que se fecha como qualquer período de programação que se liga e toca, que não é desconexa, mas que não morre. Antes, o ciclo e a programação dos 10 anos de Comédias perpetuam-se no tempo renovando-se, como qualquer planta ou a terra antes de ser revolvida.

O ar, a terra, o fogo e a água estão neste «Território», para o qual Joana Providência usa os intérpretes/bailarinos. “Usa”, no bom sentido, no sentido de eles serem o veículo de transmissão das coisas básicas. Com eles suspendemo-nos, tocamos o chão de novo, deslizamos e somos projectados em canas de bambu, carregamos as pedras que parecem planetas e fazemos Land Art. Com eles conseguimos rever um dos episódios mais simples e fundamentais da existência contemporânea. Perceberão claramente do que vos falamos – falamos de forma cifrada porque queremos manter o mistério das coisas bonitas – quando por volta dos cinco minutos de espectáculo virem o que vão ver. Ainda há coisas ancestrais que nos espantam.

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As Comédias do Minho e Joana Providência, Joana Providência e Alberto Carneiro, Alberto Carneiro e a Natureza, a Natureza e a Arte… todos estão misturados no mesmo Território.

Joana Providência usa como cenário uma tela/tapete sem artifícios, como o horizonte. Um horizonte com altos e baixos que são dados pela mudança de velocidade em palco, música e luz. Aliás, o desenho de luz é um acto de altruísmo perante a tal essência das coisas. É tudo tão simples que a luz não interfere. É como se fosse um elemento natural. Depois, a graciosidade de movimentos, os corpos/pessoa/paisagem e as descrições de Alberto Carneiro é que nos sugerem “areia, rochedos, dunas, ervas, moitas, arbustos, seixos e flores… flores silvestres pelo corpo”. E a coreógrafa quer também trazer ao palco “a memória dos lugares que somos”.

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Nós pertencemos ali, naquele Território. E somos livres de tal forma que podemos viajar nas interpretações. Por exemplo: se há ou não questões orientais, nomeadamente do xamanismo e transcendência? Se há alguma sugestão clara de reencarnação? Mas a Dança Contemporânea, pela forma que assume em palco, é sujeita a muitas mais livres interpretações. Tenha a sua, viaje até ao Lugar que É e saiba que os movimentos que fazem a paisagem que vão ver em palco, surgiram de muitos outros, entre improvisações e linhas pensadas. As linhas e esculturas de madeiram, por exemplo, que em Alberto Carneiro sugerem a suspensão a Joana Providência. Uma coreografia que é Território de todos, e a qual voltamos no início da próxima semana, trazendo a perspectiva do espectador e das Comédias do Minho. Nesse tal ciclo que se fecha… permanecendo eternamente aberto.

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<Texto>Nuno F. Santos
<Fotos>D.R.

Ficha Técnica
Direção Joana Providência Intérpretes/cocriadores João Vladimiro, Sara Dal Corso, Paulo Mota, Joana Castro, Tânia Almeida, Mónica Tavares, Luís Filipe Silva Som Luís Aly Luz Vasco Ferreira Figurinos Lola Sousa Espaço cénico Cristóvão Neto Divulgação ACE Teatro do Bolhão, Comédias do Minho Coprodução ACE Teatro do Bolhão, Comédias do Minho, Culturgest Agradecimentos Alberto Carneiro, Catarina Rosendo, Magda Henriques

 

 

P COURA
30 OUT | Rubiães – Sede da Junta de Freguesia | 21H30
31 OUT | P Coura – Centro Cultural | 21H30 * Versão Integral
01 NOV | Mozelos – Sede da Associação | 21H30

MONÇÃO
06 NOV | Cambeses / Milagres – Junta de Freguesia | 21H30
07 NOV | Monção – Cine Teatro João Verde | 21H30 * Versão Integral
08 NOV | Troporiz – Junta de Freguesia | 21H30

MELGAÇO
13 NOV | Os Fronteiriços – Sede da Associação | 21H30
14 NOV | Melgaço – Polidesportivo | 21H30 * Versão Integral
15 NOV | Roussas – Sede da Associação | 21H30

VALENÇA
20 NOV | Arão – Junta de Freguesia | 21H30
21 NOV | Valença – Polidesportivo | 21H30 * Versão Integral
22 NOV | Ganfei – Junta de Freguesia | 21H30

VN CERVEIRA
27 NOV | Lovelhe – Junta de Freguesia | 21H30
28 NOV | VN Cerveira – Fórum Cultural | 21H30 * Versão Integral
29 NOV | Nogueira – Junta de Freguesia | 21H30

LISBOA
05 e 06 DEZ | Culturgest – Palco do Grande Auditório | 21H30