Terna é a Volta das Mulheres de Monção

Artes Performativas

 

volta isabel

Tinha vontade de ir às raízes e nas raízes encontrou o lado matriarcal. Aliás, quando procurou intérpretes só encontrou mulheres e fixou-se mesmo por aí, no meio desse desafio que as Comédias do Minho lançam a si mesmas, prestando tributo ao lugar que habitam, num território com uma casa, necessariamente com um corpo e um mapa. «Volta», uma peça de Teatro/Dança dirigida por Luís Filipe Silva, aquele que viajou à raiz das raízes, estreia hoje em Monção. E por isso, em dia da primeira estreia de uma série de mais quatro espectáculos identitários a mostrarem-se até meio de Julho, por isso… fica uma espécie de responso introdutório: As comédias do Minho estão no lugar onde devem estar, alavancadas por uma sociedade tão popularizada e ao mesmo tempo tão desconhecida. Desconhecida? Não! Achamos sempre que conhecemos as coisas antes de as viver. E o Minho é mais do que o Vira, é mais do que o traje, é mais do que o verde. Também é. Mas é mais do que tudo isso junto. É um território com todas as possibilidades, ler-se-á assim um dia num slogan turístico, com certeza. Mas é com as Comédias e a rede que integra cinco municípios que aprendemos a olhar essas possibilidades e que, sobretudo, reaprendemos a olhar para as coisas como espantosas, sem lugares-comuns. E o Minho é mais do que o Vira, é mais do que o traje, é mais do que o verde. Também é. Mas é mais do que isso tudo junto.

O Minho é… volta chiquinho

O Minho é matriarcal. Aliás, todo o mundo deve ser matriarcal. “Mas o Minho é feminino”. O Minho que o director artístico habita é feminino. O Minho a que esta «Volta» presta tributo encontra mães e filhas de várias gerações. No processo… ou antes… durante o processo de trabalho para este espectáculo, Luís Filipe Silva – estamos mais habituados a vê-lo em interpretação no palco – pediu às mães da sua família que lhe escrevessem cartas. Ora, as cartas foram criando vozes. Não quer dizer que sejam as vozes de «Volta», mas podem ser ecos que se cruzam com responsos, canções de infância e movimentos à volta de uma cama onde todas se sentam um dia. E às tantas se as vozes são todas iguais? No Minho e no resto do mundo… Não é preciso mais do que ternura, de luz sem grandes variações, de um pianista a tocar ao vivo e da lembrança das coisas para que os ritmos de cada uma destas mulheres de Monção acompanhadas em palco por duas profissionais, se unam num ritmo só. Repetimos: Para um só ritmo não é preciso mais do que ternura, de luz sem grandes variações, de um pianista ao vivo e da lembrança das coisas. Sem ensaio se preciso for… porque elas ouvem-se.

volta corpo

“O linho, a imortalidade, o menino jesus, o muchiquim e a boneca no sapatinho”. E «Volta» não precisa, mesmo, de texto. “O texto fecha” para Luís Filipe Silva. “Não é preciso dizer nada, estes movimentos falam”. E volta ao episódio de uma das intérpretes, que viu a filha emigrar durante a criação do espectáculo. E volta ao diário encontrado no lixo… na cidade do Porto… o diário de uma senhora com a doença de alzheimer a avançar e então vai escrevendo os lugares da cidade por onde passa, do mais rotineiro ao mais fascinante. Aqui está mais um objecto que se tornou atalho para alcançar o que hoje é um enorme percurso de gestos afectuosos (primeiro no Cine Teatro João Verde, depois no TNSJ e no São Luiz).

Uma volta e as mulheres cantam de braços dados; Outra volta e reparamos no queixo, olhos e lábios de quem se cuida; Mais uma volta e os sonhos de bonecas no sapatinho transformam-se em caixas de música. A cama roda e quando a cama roda o tempo avança. A «Volta» e nós em frente da importância do colo e da importância de rejeitar o colo. E no fim, tantas perguntas. De entre muitas: Como é que um lençol se transforma em véu de noiva, em véu de viúva, em xaile e em mortalha, para depois ser barriga de mãe com o primeiro pé a bater na barriga, diga-ser, tudo imaginado a partir de um pano apenas? Essa é a nossa interpretação. “O texto fecha”, isso mesmo Luís, “o texto fecha” e podemos imaginar também, interpretar sem medo.volta boneca“Vocês são um campo de flores”. As mulheres, no fim do ensaio, riem ao ouvir a frase do director artístico. Subestimam o que minutos antes fizeram: Contaram a vida inteira de qualquer Mulher em todos os seus ciclos… foram muito mais do que um campo de flores.

<Texto>Nuno F. Santos
<Fotos>Celeste Domingues (Comédias do Minho)

nota: em palco 12 mulheres… serão os meses do ano?

FICHA TÉCNICA
DIRECÇÃO ARTÍSTICA Luís Filipe Silva
DIRECÇÃO COREOGRÁFICA Isabel Costa
APOIO DRAMATÚRGICO Rui Mendonça
DESENHO DE LUZ Vasco Ferreira
MÚSICA Bernardo Soares, a partir da memória colectiva das intérpretes
INTERPRETAÇÃO Mulheres de Monção, Isabel Costa, Mónica Tavares e Bernardo Soares (Músico)