Solange ou a arte do poema em forma de cabeleireira

Artes Performativas

 

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Oh filhinho não consegues escrever por que não sabes se o que vês no Teatro é clássico ou revista? Escreve na mesma que ninguém te mata! Escreve já que a Crítica anda por aí mas não escreve… é assim uma coisa disfarçada de oposição silenciosa jogada para as redes sociais filhinho. Mas por favor, cuida de ti e deixa que cuidem de ti… sobretudo tu filhinha, porque aquilo que aparece nos jornais e mesmo nos salões de cabeleireiro é que são as mulheres ainda as maiores vítimas. Não precisas de um livro de auto-ajuda para seres feliz nem dos livros de gurus falsos – se é que existem verdadeiros? – para deixares de ser vítima. Se calhar precisas de ouvir mais poesia como a da Cecília Meireles e dizer mais poesia como a dela ou da Adélia Prado. Ou então da Só Solange. Isso. Solange, a cabeleireira de bairro que começa a dizer poesia num monólogo com imensas vozes. E começa no Mira Fórum a 6 de Outubro – prepara-te que não falta muito depois da areia e das revistas com a Cristina por tudo quanto é sítio filhinha -, logo a seguir à rentrée cultural e ao regresso de férias das geringonças que se tiverem férias são logo acusadas de serem piores que geringonças. Ai que isto está tão politizado! Pois está. Pois está porque Solange a Solange, Solange a cabeleireira, Solange a Poetisa, Solange a crítica social, Solange a dona da verdade e do amor que lhe emigra e que fala da imigração… Solange é a voz da necessidade de ternura entre as pernas, por entre os seios cobertos pela bata com o bolso de pentes, canetas de marcação e tantos mundos. Simultaneamente, Solange é  força por entre a fragilidade. Não tem medo de ter medo e quer cuidar dela e dos outros. Eis uma cabeleireira! É esta a força da peça felizmente inclassificável – vamos chamá-la peça de teatro pode ser? Que é o que ela é!!!- encenada e criada por Hugo Cruz com Susana Madeira.

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O encenador, habituado a trabalhar com a comunidade, sabe que é nos salões de cabeleireiro que as mulheres se deixam cuidar, se entregam… como sabe também o que quer sem medo da tal Crítica.  Quer falar um mundo através de uma cabeleireira de bairro. Esse bairro terá de ser dos bairros que melhor conhece: do Porto. Perguntamos: haverá algum bairro do Porto que não tenha sotaque?

Memória 1: Hugo Cruz e Susana Madeira preparam a marcha da Vitória. Susana Madeira varre e marca o ritmo com outras mulheres. 

Memória 2: Susana Madeira coordena uma série de crianças e adolescentes na frente de palco da Casa da Música. Hugo Cruz fala a uma série de representantes de vários bairros portuenses de como entrarão naquele mesmo palco. Projecto: Mapa – Jogo de Uma Cartografia.

Susana Madeira é Solange. Mas não só Solange. É uma mulher com uma carga fortemente erótica quando descansa numa cadeira que pode ser o divã ou ai ai quando se bamboleia. Como é possível a sensualidade entre os afazeres mais cuidadores que cuidados. Ela é toda empatia quando fala dos refugiados e dessas pessoas que têm filhos pelos olhos e pelas orelhas. E acham mesmo que não se fala nos salões de cabeleireiro das crises de refugiados? Acham que não?! É bem verdade que, inicialmente, a mistura entre o dia-a-dia de uma cabeleireira de bairro, de uma mulher acima de tudo, de uma apaixonada com saudades do seu possivelmente torneiro em Munique – quem sabe? – de uma diseur de verdadeiras poetas (poetisas) que não essas que se dizem e que “são mais que as mães”… inicialmente a mistura da actualiadde dos refugiados choca com tudo. Mas é como eles e o mar a chocar com o quotidiano. Fala-se do inimaginável.

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Susana Madeira é um das algumas enormes num teatro onde são mais que as mães. Chega em «Solange» a um ano de actividade de uma ponta à outra enquanto actriz. Trabalhou com a coreógrafa Madalena Vitorino, esteve no Teatro Meridional e agora veste a pele na mesma língua em formas de idioma: Português, Português e Português! Português do Brasil nas poetisas, Português de sotaque do Porto – que é o Português de Portugal sem precisar de forçar como em novelas de horário nobre onde dois planos repetidos de pontes e do Rio Douro e bocas muito abertas generalizam uma cidade.

Memória 3 em nota: Hugo Cruz e Susana Madeira conheceram-se em fóruns de Teatro e andaram pelas escolas a falar de sexo e de todos os cuidados que envolvem a adolescência.

Hugo Cruz depois da p.e.le… Hugo Cruz  programa as “Quintas Nómadas”, que a partir de Outubro se realizarão nas primeiras 5ª feiras de cada mês no espaço MIRA e são dedicadas às artes performativas. «Solange» é uma das quinta, para depois ser itinerante e ir além do espaço Mira, em Campanhã.

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Solange, onde quer que esteja estará sempre entre a Santa e a Assistente Social. Onde ela estiver saibam que terá coragem de dizer que “quando cheira a fêmea a fêmea vem ao cheiro”. Eu sei Leninha que este texto está grande mas para veres na tua frente uma mulher com cheiro de perfume e de verdade dizer que “há mulheres mais machistas que machos”, para sentires que não estás sozinha mesmo não sendo cabeleireira, para conseguires finalmente deixar o medo para trás sabendo que ser uma “gaja culta à conta da poesia” é possível mas que o melhor é ser culta sendo sensível… então aí Leninha, Isabel e Fatita, aí saberão que a criação da Susana e do Hugo, que o texto de Regina Guimarães, o figurino de Lola Sousa, o desenho de luz de Wilma Moutinho, a fotografia e Vídeo: Patrícia Poção nesta produção conjunta entre Nómada, Art & Public Space e MIRA FORUM…. aí saberás que estás certa e que é o Teatro quem to diz. É isso que o Teatro faz.

Nota 1: ver o que quer dizer litania

Nota 2: não querer saber logo quais são os poemas nem a música para ter ainda a capacidade de redescobrir e descobrir sem ser no Google

Nota 3; Voltamos em Outubro com entrevistas e apontamentos dranatúrgicos

<Texto>Nuno F. Santos

<Fotos> C de Saudade com telemóvel