Rebeca Cunha: Viver para Ser actriz ou Ser Actriz para Viver? Não é Questão!

Artes Performativas

 

11 de Outubro de 2017:

“Frontier Media, Torregrosa Producciones & Cinema Livre

are proud to announce that Rebeca Cunha will be playing the Greek Woman in Segment#0 of Time & Ten Women!

More to come soon…”

Não sabemos o conteúdo do filme ou da produção, mas fica-se com o estranho hábito de, ao divulgar artistas e co produtores da TKNT, sem que eles o peçam, de que o trabalho quando acontece para alguém é sempre genial. Aqui são permitidos adjectivos. E a curta entrevista que se segue, que maturou muito tempo, tinha muitas ganas e pontos de exclamação. A TKNT ainda não entrevistou acomodados. Isso é bom. Porra, isso é muito bom.

Mês Avulso de 2016:

A rubrica das entrevistas a actores e actrizes, performers, músicos e bailarinos, artistas plásticos, escritores ou poetas bem ditos, fotógrafos e palhaços do Novo Circo começa muitas vezes com: “a primeira vez que o vi ou que a vi”. No fundo, uma entrevista informal que recorda um lado absolutamente parcial e de uma memória pessoal que parte posteriormente para o geral. E a primeira vez que eu, pseudo entrevistador, vi a Rebeca Cunha foi numa fotografia de Facebook. Modelo junto ao mar. Um gosto na página mas a fotografia não tinha sido admirada. Não custa nada um gosto na página. Mas a seguir uma fotografia bem diferente. Mar. Admira-se trabalho de quem fotografa e fotografado. Muda tudo. Fala-se. A actriz… sim chama-se Rebeca e é actriz…. a actriz não tem trabalho na área, isto já lá vai um par de anos literalmente e diz mais tarde que quer voltar a ter qualquer coisa na interpretação, porque envelhece fora dela. “O trabalho que fazemos é de recriação. Não existe uma mensagem mas sim uma história em cada sessão” diz Rebeca Cunha sobre o trabalho que faz com a Dimopho, agora na rede como Diana Mota Photografy. Vivia em Viana com muitos gatos. Haviam de ir a Viana. E foram. Ficaram e regressaram ao Porto. A melhor das decisões sabe-se.

consultar agente a norte

E às perguntas que não precisamos mostrar, retiramos as respostas não editadas da urgência de responder.

Bem, colocas-me duas perguntas aparentemente simples mas algo complicadas de responder.

Vou começar pela última que me parece mais fácil. Não te consigo precisar o momento em que decidi que queria ser actriz, estou mergulhada neste mundo desde muito nova! O meu pai foi actor por muito anos e eu cresci a vê-lo em cima de um palco. Via-o a decorar texto, ia com ele em algumas digressões, vi muitas montagens e desmontagens de palco, fiz parte deste mundo! Acho que quando somos muito novos e temos o bilhete de primeira classe para um mundo de fantasia onde tudo é permitido, isso fica impregnado e nunca mais sai. E foi isso que de alguma forma aconteceu comigo. Os anos passavam e a minha vontade de fazer parte deste Mundo ia crescendo. Em 2001, aos 14 anos, fiz o meu primeiro curso de interpretação e nunca mais parei.

Em 2003 entrei no meu primeiro espectáculo, com profissionais, depois de fazer uma série de workshops de clown e acrobacia. Difícil foi convencer os meus pais que, mesmo sabendo que ia ter muitos dissabores, eu só seria feliz seguindo esta profissão. Digamos que a minha adolescência, tirando os meus escapes para o Teatro, não estava a correr assim tão bem. Mas tudo mudou quando me convidaram para participar nesse espectáculo. Foi como ver a luz ao fundo do túnel! Foi também nesta experiência que conheci uma pessoa muito importante para a minha próxima decisão. Como tinha recebido algum dinheiro dos três meses de espectáculo que fiz, e sem preocupar os meus pais, fui para o Porto na altura das provas da ACE (Academia Contemporânea do Espectáculo). Fiz a semana de provas da ACE e, no final da semana, mal soube que tinha entrado fui à procura de casa para viver no Porto. Disse aos meus pais,que tinha conseguido entrar na Academia, que já tinha casa alugada e em Setembro começavam as minhas aulas! O meu pai, conhecedor da profissão, advertiu-me logo para todas todas as adversidades que poderia passar. Ele sabia melhor do que ninguém que a profissão que eu tinha escolhido era bastante ingrata, mas também sabia que se eu não o fizesse me ia tornar uma pessoa muito infeliz.

curta metragem …

ACE?

 

Portanto deram-me toda a força do mundo e ajudaram no que puderam para que eu conseguisse estar longe de casa, ainda com 16 anos, a estudar aquilo que realmente queria.

Rebeca Cunha… ou Rebeca da Cunha como aparece na curta de Edgar Pêra, a Caverna. Mas também o Espectador Espantado e neste momento Caminhos Magnéticos. Tudo do mesmo realizador.

Entretanto anda também pelo filme Bad Investigate… é a Inspectora Santos!

Vemos fotografias antigas com outros actores que conhecemos como a Isabel Pinto ou o Pedro Roquette. Deve estar ainda pelo Porto em vez de Viana. Procurava apartamento. A distância da entrevista deu-lhe, pelos vistos, uns patins para rolar no Roller Derby. Esta frase não foi nada engraçada e parecia jornalismo a brincar daquele que vemos todos os dias. Voltemos às respostas sem perguntas. Pista: tem a ver, felizmente, com a falta de pragmatismo.

A primeira pergunta parece-me mais complicada de responder. Se não fosse tão romântica em relação à minha profissão, provavelmente dir-te-ia que se sobrevive a ela. Mas sou uma romântica incurável e não posso dizer que não fui avisada!

Acabei a ACE em 2006, em 2007 trabalhei com o Teatro Entretanto, em 2009 com o Teatro Noroeste, em 2010 com o Teatro Montemuro e por aí fora. Estamos em 2016 (entrevistas publicadas um ano depois são uma vergonha mas mostram o tempo devagar e onde estávamos – são 10 anos de profissão.

Esta semana soubemos de um casal de actores que leva os filhos em digressão e uma professora. Fantástico. Parece conto de fadas mas deve ser imensamente difícil. E não consensual de certeza. Adiante.

com Dimopho

Para quem não tem pais ricos ou conta no Novo Banco não é fácil. É uma corrida imparável num carrossel cheio de altos e baixos, ora tem se trabalho ora não se tem. Vivo desta profissão porque não desisto dela, não perco a esperança, acredito mesmo que a sociedade, mais cedo ou mais tarde, vai dar o devido reconhecimento a esta profissão e às pessoas que dela fazem parte. São estas pessoas que decidem passar o resto da vida a levar a sociedade a um mundo de fantasia, ou real, mas sempre fantástico. Um mundo que elas anseiam ver. Nós levamos a quebra de rotina às pessoas que dela estão fartas. Vivo esta profissão porque acredito nela e sei a importância da mesma numa sociedade. Eu quero fazer parte disso.

Ainda não somos reconhecidos o suficiente, passamos muitas dificuldades para exercer a nossa profissão. O que é ridículo! Nós queremos trabalhar e não podemos, é triste!

O Espectador Espantado

Numa edição do Teatro Ensaio aquando de Grito Como a Terra

Com Isabel Pinto… no Teatro de Montemuro

Percepção: 2017 tem mais trabalho. Ainda os recibos verdes sem lei para aprovar, com certeza ainda a Segurança Social, e a utopia de uma recentemente actriz de 30 anos que não vai desistir e que, por isso, esperamos que a última palavra de duas perguntas longas com informações pelo meio… que a última palavra não seja triste. Luta é com certeza, mais do que a que ainda têm os actores de fazer em palco para interpretar. Hoje havia um post da actriz Teresa Arcanjo a dizer que a luta era online mas precisava ser feita na rua. Amanhã ou depois trazemos a Rita que não se sabe se regressa de Londres e que continua apaixonada pelo palco diferente todos os dias… e depois o Pedro.. e a Ana, e o Rui Leitão e o Rui Spranger e….

Acaba de nos responder via sms e messenger – ai a maravilha das tecnologias – algo que substitua o triste. O ano… o trabalho:

1.07 da manhã, 12 de Outubro de 2017.

Grito como a Terra, o nome do espectáculo do Teatro Ensaio

Muita coisa está a acontecer. Projectos novos e bastante aliciantes. Vou entrar num filme… a personagem que vou fazer vai ser, para mim, um enorme desafio. Em 2018 vou trabalhar numa opereta. Triste realmente não combina comigo. Vamos lá mudar isso:

Fabuloso neste momento é viver. Passei por uma problema grave de saúde, que felizmente estou a recuperar, depois deste susto. Sem dúvida que Fabuloso é poder continuar nesta vida, trabalhar no que gosto e ter o meu namorado comigo há 13anos…. é ter a vida que me enche as medidas.

Parece cliché… oh, publicaremos isto? Será cliché. E eles que venham então. Então e ser actriz ajuda em quê afinal???

Ajuda-me a olhar para a doença de forma prática mas, principalmente, ajudou-me a querer ultrapassar tudo.

É incrível como as coisas acontecem, sou profissional há mais de 10 anos, esperava a oportunidade de trabalhar em cinema e ela acontece na mesma altura em que soube do cancro.

Toda a gente dizia que eu não ia conseguir filmar para a Lightbox e fazer as sessões de quimio. Fiz tudo!

E ninguém me tira da cabeça que tudo correu muito bem porque eu tinha os meus escapes no filme.

Dia 28 vai para Lisboa filmar.

 

Nuno F. Santos na mediação da vontade de viver actriz.