Personas: Um Actor-Santo e Um Escritor de Almas

Artes Performativas

 

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Daniel Macedo Pinto ilustrado por Rosário Pinheiro

Primeiro aviso sério: Estas palavras podem conter uma imagem muito densa! Não é fácil. A TKNT encontra neste seu inventado e adiado dia local do Actor, um de muitos dias a celebrar continuamente. Celebrar o Actor e as suas diferentes fases, falas e silêncios. Claro, os silêncios e as expressões. Actor não deve ser só decorar texto. Ou…

Bem… este de que falamos no texto, ou melhor, este que nos fala em texto deu corpo um dia a um que actor que, após representar Orestes realiza um exame de consciência. Esse actor na pele de… actor, foi e continua a ser Daniel Macedo Pinto, num monólogo de Zeferino Mota apresentado então em 2013, no Teatro do Bolhão, Porto. Título: «Não Tenho Olhar Mas Mamilos que Endurecem Quando me Olham». E agora, de 20 a 25 de Setembro no Teatro do Vestido, em Lisboa, entrada gratuita para um laboratório com actores em pleno processo… processo duro que é a fronteira entre a realidade e a loucura.

À excepção de Daniel, os actores têm entre 19 e 27 anos. E como os encontra quem entra na sala do Teatro do Vestido, na Travessa do Calado 26B, encontra-os num cenário que é parte o espólio da própria companhia, criado para formar um espaço de labirintos que convocam, também a ideia de camarim cheio de signos, de figuras históricas ou objectos que trabalhem as energias do Actor. Sim, energias, forças, vidas passadas, o que for! O que se passará nos camarins? Quem são, de facto, os actores, essa espécie? E serão todos iguais ou almejam o mesmo?

Segundo e último aviso sério: Leiam uma vez ou deixem de ler se não estiverem preparados para o Caos de Nietzsche. Aquele Caos que quando chega consegue transformar o banal em estrela, em apreciável, em luminoso.

Daniel Macedo Pinto -“Eu trago Dionísio, trago leis que quebram a forma, quebram a marcação. Não há fixação de intenções, de marcações, de gestos”.
TKNT – Mas uma das coisas que mais ouvimos, nós os leigos do Teatro, é um actor falar de marcações…
DMP – “Aqui é tudo uma procura interna de estar ligado a essas energias que vêm do imaginário de cada actor, convocando assim um silêncio primordial e misterioso”.
TKNT – Que tipo de actor é este? O que é Daniel Macedo Pinto neste preciso momento?
DMP – “É alguém que que sente que a construção racional e a fixação da forma teatral trai o espírito do actor. Um actor que segue a linha do actor-santo, o que se liga realmente a energias telúricas, antigas, que sente os antepassados em cena”.

Personas é a alma do actor em vez da forma desenhada. Começou assim: “Eu queria fazer o monólogo do Zeferino Mota, que já tinha estreado no Porto. Mas queria levá-lo a um espaço não-convencional em Lisboa. O projecto sofreu alterações, mesmo depois da residência artística que fiz com o Zeferino, alternando de texto criado para texto criado, o que veio mais tarde dar origem ao que hoje se intitula «Personas». Ao mesmo tempo iniciámos uma escrita sobre a hierarquia no Teatro, já jogando com a questão do feminino e do masculino. A partir do «Personas Sexuais», da Camille Paglia, chegámos à ideia de fazer uma segunda parte do “Não Tenho Olhar…” e chegámos então à ideia que esse actor sensual deveria ser confrontado com as tais energias: o feminino puro, na pessoa da Beatriz Godinho, o masculino que é invadido pelo feminino, por Miguel Lemos, o assexuado, o amor Filia (filho-pai) na figura do João Monteiro, o feminino masculino, pela Sofia Santos Silva e o masculino puro na figura de Bernardo Gavina. E fica um trecho do feminino Puro: “Não temos forma, mas há o masculino e o feminino. (…) Tu bebes e a minha pele torna-se a Terra, eu bebo e a Terra torna-se o teu peito.”

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A partir daí criámos seis monólogos… diálogos. É que apesar de serem, aparentemente monólogos, são diálogos com um confidente (eu) que permanece em silêncio. E aqui entro como direcção”.

TKNT- Esta questão de géneros…feminino vs masculino não poderá chocar por ser catalogada… aparentemente?
DMP- “Não creio que choque, pois a densidade é poética e muito cuidada. Mo entanto joga-se com a capacidade que o actor tem de se moldar à sensualidade dos géneros, de um Ser magnético que pode apaixonar pela energia em palco mas que, no final da noite, tem tanta humanidade e fragilidades como quem o viu (…). Se eu sou Dionísio, Zeferino é Apolo, no sentido que oferece respostas concretas, de clarificação do texto”.
TKNT: Personas vive de Personas…. Ponto?
DMP- “Vive não de palavras, mas do silêncio e é por isso que também respeita ao universo do Maeterlink, do Zola, do Diderot. O silêncio como motor do drama e não a palavra. Posso citar um autor?
TKNT- És livre!
(Apesar de me causar densidade e aperto, algum caos, a conversa com Daniel é daquelas que podemos repetir segunda e terceira vezes para ficarmos cada vez mais a pensar sobre as coisas. E ele cita, dizendo que se sente mesmo livre!) Citação de Meyerhold: “Toda a obra dramática compreende dois diálogos, um “exteriormente necessário” – constituído pelas palavras – o outro, “interior” – e é este que o espectador deverá surpreender, não nas palavras, mas sim nas pausas, não nas interjeições, mas sim nos silêncios, não nos monólogos, mas sim na música dos movimentos plásticos”.

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Da esquerda para a direita: Miguel Lemos, Beatriz Godinho e Bernardo Gavina

E quando se abrirem as portas, para lá do cenário já descrito, para lá dessa escrita de almas de Zeferino Mota, é Daniel quem o diz, um dramaturgo sobre quem acrescenta: “as peças do Zeferino Mota alteram o Actor, não volta de regresso depois de activar a voz dos textos dele. Como ele é um escritor de almas e é tão forte… surge daí o meu trabalho de convocação de mitos.
Continuando para fechar… Quando se abrirem as portas, para lá do cenário já descrito, “o espectador verá processo, a contínua busca antropológica de um actor que navega no seu inconsciente e, por vezes, traz palavras que são apenas a ponta do iceberg. Uma descida ao lago primordial do inconsciente colectivo“.

  • <Fotos>DR e Ilustração de Rosário Pinheiro
  •  <Texto Alinhavado Ligeiramente…>Nuno F. Santos
  • Nota: Este é o ponto de vista do actor/director