Para Onde Vais ALICE?

Artes Performativas

 

alice 3

ALICE é… a do País das Maravilhas. Também. Mas a ALICE do Teatro da Garagem é a «Alice do Outro Lado do Espelho», continuação de Lewis Carroll com novas personagens e um tabuleiro de xadrez onde a menina perdida entra em várias jogadas para chegar a Rainha. Carroll mais actual e político do que nunca. O encenador, Carlos J. Pessoa, diz que é apenas “magia do teatro”.

O espanto e o curioso desejo mantêm viva a Alice revolucionária que conhecemos no País das Maravilhas, depois de cair no buraco que a leva a um mundo onírico de personagens estranhas, com movimentos e ritmos dos sonhos. Muito se escreveu e reflectiu sobre a Alice de Lewis Carroll, muito se especulou sobre estes textos eternos. Muito se adaptou. E são estes textos que interrogam desde sempre Carlos J Pessoa, o encenador de Alice pelo Teatro da Garagem, optando por «Alice do Outro Lado do Espelho», um texto que é “um dos tijolos” da sua formação “enquanto pessoa e artista e que representa o estilhaçamento do mundo conforme o conhecemos”.

alice 1

O Teatro é sempre esse tabuleiro composto de peças que, no seu todo, jogam para ganhar um espectáculo. E no tabuleiro da Alice que está no Teatro Carlos Alberto até Domingo – hoje e Sábado às 21h30, Domingo às 16h00 – o vídeo é a peça que ajuda à velocidade da imaginação e da alucinação, a música é a peça que nos faz correr mais depressa e sentir o poder da queda com a menina inocente e aventureira. Mais. O guarda-roupa com cachecóis transformados em barbas e suas perneiras coloridas por fora das leggins pretas ou o gorro branco com leitor de áudio portátil incorporado fazem parte do bizarro e simultaneamente normal mundo. Na rua as pessoas ainda só não vestem tachos para dançar kizomba… mas as crianças devem usar as bolas de pilates para brincar aos solavancos dos comboios. Como nos comboios, nos reais ou nos imaginários, somos surpreendidos por um passageiro desorientado à nossa frente e, minutos depois, por uma enchente de pessoas que se acumulam e conseguem respirar e viver as suas vidas no meio da confusão. Outra paragem, outro apeadeiro, que é como quem diz: mais uma jogada no tabuleiro de xadrez de ALICE.

Carlos J Pessoa diz à agência Lusa que o facto de Alice pedir indicações para o seu caminho pode significar “a procura de uma ordem que se pretende que seja restabelecida, mas não necessariamente o regresso ao ponto de partida”. São os tais estilhaços das categorias como as conhecemos, o já referido “estilhaçamento do mundo onde vivemos”. Claro, toda a ordem tem de ser restabelecida, mas não se sabe como? E quando a ordem for restabelecida, as pessoas e as suas vidas são estilhaços das carreiras e percursos como os conhecíamos. É inevitável vermos uma Alice em cada um de nós, num reino de fantasia cruel guiada pela actualidade que o Teatro reclama. Inevitável ao ouvirmos as respostas que lhe são dadas no tabuleiro de xadrez em que corre, corre e corre para chegar a lugar nenhum. Que estranho! Ou melhor: Onde é que já vimos isto? E para onde corremos todos? “Quem sou? Para Onde Vou?”. Isto pergunta Alice ao que dizem sem gaguejar: “Não é por chorares que te tornas real!”. Altura para desfazer as dúvidas com o encenador:

– É, ou não, a mais política e actual das alices do Lewis Carroll, perante esta desorientação geral… a da Europa a do Mundo à procura da sua identidade?
– “Penso que não…. penso que isso decorre do próprio gesto teatral e a apropriação do Aqui e do Agora são inevitáveis, de facto. Essa leitura é condicionada por impressões que vamos coleccionando. Um tipo diz a certa altura: ‘Eu inventei uma maneira nova de passar para o outro lado do muro com a cabeça, só ainda tenho de ver como vamos fazer com os pés’. Se isto fosse lido há cinco anos, seria necessariamente diferente, porque hoje vivemos rodeados de muros e não sabemos como os galgar… não sabemos como galgar o muro. A palavra está viva na interpretação que fazemos e isso tem a ver com o Teatro, que é uma máquina fantástica geradora de leitura”.

alice 2

 

Da crueldade à candura, do risível ao simétrico, com muitas pronúncias e muitas idades, o projecto do Teatro da Garagem envolve a ACE Escola e Artes, o Balleteatro Escola Profissional, a Escola Superior Artística do Porto e Escola Superior de Música, Artes e Espetáculo (ESMAE) e, político ou não, mesmo com birras e esquecimentos, feitios peculiares e gritos, é um exercício absolutamente democrático.

<Texto>Nuno F. Santos
<Fotos>D.R. TNSJ