«Palcos Instáveis»: Rosas, Urtigas e um Mar de Gente

Artes Performativas

Urtigas, rosas, pessoas, escolhas, amores e amor, histórias. O ciclo de Dança Contemporânea Palcos Instáveis regressa ao Teatro do Campo Alegre com tudo isso nas criações de Mariana Amorim e Daniela Cruz. Os pontos de partida são as experiências pessoais, mas as criações que apresentam em palco são Universais.

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Mariana Amorim partiu para várias cidades e foi nessas cidades que nasceram conversas com pessoas. Sim, às vezes parece que falamos só de prédios, carros e semáforos mas é uma verdade incrível, talvez uma descoberta: as cidades têm pessoas! As conversas foram de passagem mas não passageiras. Pessoas, Pessoas e mais Pessoas que ficaram sempre com a bailarina e coreógrafa que em «Vislumbre» convoca várias histórias para um mesmo palco. É o primeiro dos espectáculos do ciclo Palcos Instáveis, às 21h30, no Café Teatro do Teatro do Campo Alegre.

A história da intérprete aqui se cruza, apenas porque está no Meio daqueles com quem conversou. “Elas estavam no limite do dentro e do fora da sociedade. Qualquer coisa de intermédio”, diz Mariana que acrescenta: “São vidas e vidas aceleradas em sítios onde já não existe aquela senhora idosa à janela”. Se, por ventura, existir outra senhora idosa no seu lugar, quem vai reparar? «Vislumbre» inclui holofotes e sombras. Há um pouco de Chaplin e um pouco de Mário de Sá-Carneiro, arriscamos. De Chaplin por causa da candura das histórias, que também se contam sem palavras e são igualmente sobre cidades, sobre vagabundos e sobre o direito às paixões, por exemplo. De Sá-Carneiro, por causa da importância deste vislumbre – título de um poema de Indícios d’Oiro – daquilo que está entre o Oito e o 80, do que está no meio, ou melhor, de quem está no meio. “Eu não sou eu /nem sou o outro/ sou qualquer coisa de intermédio”, lê-se noutro poema seu.

Mariana Amorim exorciza de forma delicada a sociedade e as cidades que entram em metamorfose. E por que dizemos que exorciza suavemente? Porque as vidas daqueles que não se ouvem, alguns até já desaparecidos, circulam em palco debaixo de uma banda sonora viva e aparentemente descontrolada. Sem moralismos, porque nem todos são perfeitos, longe disso! “Às vezes vemos uma coisa que achamos perigosa e seguimos em frente, mas se calhar podemos fazer algo com ela”. Vejam o que a intérprete e o seu «Vislumbre» fazem com as urtigas que tanto evitamos.

«Bittersweet»

O que é um mar de rosas? O que é… para si… um mar de rosas? Por favor pense cinco a dez segundos. Use mais tempo se entender.

Obrigado.
Um mar de rosas é amar? É amar e ter filhos? É Amar, ter filhos, um emprego? É amar, ter filhos, um emprego e uma casa? Amar será sempre… ou não? Bem, amar não é um mar de rosas de certeza, já é universal que saibamos isso. Em cerca de vinte minutos «Bittersweet» faz-nos pensar entre todas as perguntas escritas acima ou ser parte de “um ciclo vicioso, de nos tornarmos inseparáveis apaixonados e depois da paixão subtilmente acabar”, tornarmo-nos “apenas viciados um no outro, sem nada”. Mas…. não é o mesmo? As duas perguntas mergulham para a mesma resposta, contudo as rosas nem sempre são vermelhas ou brancas, rosa ou amarelas até, caso vos venha essa cor à cabeça. Pelo menos não no segundo espectáculo do Palcos Instáveis. «Bittersweet» parte de uma experiência pessoal da intérprete e criadora, Daniela Cruz, vertida e aberta no texto de Nuno Preto e é, como espectáculo de dança contemporânea, um movimento contínuo e fluido. Como a água de um mar sereno, pode ser essa a imagem. Como um mar sereno mostrado por alguém que sabe respirar debaixo e fora de água. Mais. Por alguém que se movimenta entre uma margem e outra. E nas margens duas escolhas suspensas, literalmente. São mesmo físicas aos nossos olhos, acreditem. Enquanto público, o que deixávamos cair… e em que margem? Então: “Às portas da morte um de nós iria dizer, provavelmente eu….” STOP neste texto ( Pausa).

pi vislumbre e bittersweet pequena

Nós somos apenas público, a escolha já foi feita! Surpreendam-se com a escolha de Daniela Cruz e guardem como conseguirem a frase, já lugar comum, mas que lhe propomos na mesma: A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER.

<Texto>Nuno F. Santos
<Fotos>Sara Moutinho